Empresa diz que bombeiros já haviam desistido de treinamento e esperavam chuva parar quando gruta desabou, deixando 9 mortos

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RIO — A escola de bombeiros civis Real Life Treinamentos, responsável pela incursão feita a uma caverna em Altinópolis (SP), que terminou numa tragédia com nove mortos, após o desmoronamento do teto da gruta, se manifestou oficialmente pela primeira vez, nesta terça-feira (2), após o incidente. Segundo o diretor da instituição, Sebastião Francisco de Abreu Neto, os instrutores já haviam desistido de fazer o treinamento por conta da forte chuva que caía no início da noite, e, abrigados na gruta, esperavam que ela parasse, quando houve o deslizamento de terra e parte do grupo acabou soterrado. A delegacia de Polícia Civil da cidade já instaurou um inquérito para investigar as circunstâncias do acidente.

De acordo com Sebastião, uma primeira análise de risco na Gruta Duas Bocas foi feita no dia 26 de outubro pelos técnicos da empresa, portanto quatro dias antes do início do treinamento — que começou no sábado (30). No dia da tragédia, ele acrescenta que os instrutores realizaram ainda, por volta das 17h — quando ainda não chovia — uma nova análise de risco antes de entrar com o grupo no local. Ainda de acordo com o comunicado, a ideia não era sequer de chegar ao interior da caverna.

"O treinamento não era realizado dentro da gruta totalmente. O treinamento era feito cerca de um metro para dentro da mesma para praticar imobilização de vítimas e busca e salvamento em mata, aonde aprende as técnicas (GPS, bússula, mapa, deslocamento em mata fechada, planejamento, organização, operações para busca e salvamento de pessoas perdidas feridas em mata fechada, ocorrências com animais peçonhentos e noções de sobrevivência)", diz o texto, assinado pelo diretor.

Com o início de uma forte chuva, os instrutores teriam desistido de continuar com o curso. Ele narra que a tragédia aconteceu no momento em que eles descansavam no interior da gruta, esperando que houvesse condições para que deixassem o local.

"No fatídico dia, por volta das 20h, começou a chover muito forte, momento no qual os instrutores decidiram por cancelar o treinamento, pois era necessário esperar a chuva passar para poder subir com os equipamentos. Assim, decidiram descansar. Por volta das 0h40, a gruta cedeu em cima dos bombeiros", conta.

Por fim, Sebastião Francisco afirma que a empresa realiza uma sindicância interna para investigar se houve equívoco por parte de funcionários da empresa.

"A empresa ficou sabendo do ocorrido por volta das 1h40 da madrugada do dia 31/10/2021, através de um sobrevivente, Rafael Sordi, que é instrutor de Ribeirão Preto, momento no qual a empresa Real Life Treinamentos prestou toda a assistência junto ao auxílio das vítimas e familiares. A empresa está realizando sindicância interna para apurar eventuais erros e se coloca à disposição da família e dos órgãos responsáveis para ajudar a elucidar o ocorrido, bem como está prestando o auxílio aos familiares envolvidos", conclui.

Em nota, a Polícia Civil afirmou que trabalha para esclarecer os fatos que aconteceram no interior da caverna e que ouve testemunhas.

"A Delegacia de Polícia de Altinópolis instaurou inquérito policial para investigar o soterramento de bombeiros civis, na madrugada de 31 de outubro, na gruta Duas Bocas, localizada na área rural da cidade. Nove pessoas morreram e sete ficaram feridas. A autoridade policial realiza oitivas e diligências para esclarecer as circunstâncias relacionadas aos fatos".

Vítimas

As vítimas da tragédia são Celso Galina Junior, José Cândido Messias da Silva, Elaine Cristina de Carvalho, Rodrigo Triffoni Calegari, Jonatas Ítalo Lopes e Jenifer Caroline da Silva — velados em Batatais; Natan de Souza Martins — velado em Altinópolis; Ana Carla Costa Rodrigues de Barros — velada em Sales de Oliveira; e Débora Silva Ferreira — velada em Monte Santo de Minas.

'Logo estou de volta', diz sobrevivente

Sobrevivente dos dez soterrados na tragédia, Walace Ricardo da Silva, de 31 anos, enviou um áudio aos colegas, onde agradeceu as orações e disse já estar se sentindo muito melhor em relação ao dia do incidente.

— Queria agradecer a todos aí pelas orações, já estou me sentindo bem melhor. Agora é mais questão de recuperar, mesmo, tá tudo dando certo no hospital e logo estou de volta. Está tudo bem comigo, estou comendo bem, já estou conseguindo sentar. Mas não dexiem de orar, não, oração é sempre importante — diz na gravação.

Walace passou por uma cirurgia ortopédica, pois fraturou membros no acidente. Além dele, chegou, nesta terça-feira, a informação de que há um outro sobrevivente, de Franca, que se recupera de uma fratura na clavícula e suspeita de pneumotórax. Ele apresenta quadro estável, segundo o hospital.

Ponto turístico temporariamente fechado

Nesta terça-feira (2), a prefeitura de Altinópolis anunciou que, por conta da tragédia do último domingo, a Gruta do Itambé, principal ponto turístico do município de 16 mil habitantes, que fica bem próxima à Gruta Duas Bocas, onde as mortes ocorreram, ficará interditada até que seja feita uma vistoria técnica solicitada ao Instituto de Pesquisa Tecnológica e à Defesa Civil do Estado de SP. O documento, assinado pelo prefeito José Roberto Ferracin Marques, justifica a decisão por conta das fortes chuvas e, também, pelo fato de o laudo geológico sobre as causas do desabamento de domingo ainda não ter sido concluído.

O município também informou que a Gruta Duas Bocas fica numa propriedade particular, na Fazenda Racho 65; local que, segundo a prefeitura, a empresa Real Life não avisou ou pediu autorização, nem à prefeitura, nem ao Corpo de Bombeiros, para adentrar. Os acessos, agora, também estão bloqueados "para evitar que novos acidentes aconteçam".

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