Empresa francesa ensina mulheres da Cidade de Deus a fazer perfume

Gustavo Goulart
Mulheres aprendem a fazer aromatizantes, perfumes e colônias em curso promovido pela Mane, fábrica francesa de aromas

No Brejo, recanto da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, um dos lugares mais pobres do Rio, o perfume é francês. E o aroma só começa a se espalhar. Na Rua do Céu, onde barracos foram destruídos por um blindado da PM em setembro, o odor que passou a emanar da casa 331 no último dia 6 chamou atenção de moradores e deixou orgulhosa a proprietária, Célia Maria Bezerra de Souza, de 47 anos. Ela é uma das 24 mulheres da região que participaram de uma oficina do projeto Mulheres que Perfumam, que as capacita para a fabricação de fragrâncias como incentivo ao empreendedorismo.

A iniciativa é de uma empresa de origem francesa de perfumaria, a Mane Brasil Indústria e Comércio Ltda., que foi encampada pelo ONG Nóiz, com foco em ações de profissionalização no Brejo, um conjunto de barracos nos fundos da Cidade de Deus e do Karatê, uma das regiões mais violentas da comunidade.

— Eu me senti importante, valorizada. Essa oportunidade vai gerar uma reação positiva na minha vida. Estou há 11 anos no Brejo e meu sonho é sair de lá. Vizinhos passavam em frente ao meu barraco e falavam do cheiro bom, fiquei muito orgulhosa. Estou desempregada desde que apareci na televisão no protesto na Avenida Edgar Werneck contra a derrubada de barracos pelo blindado da PM. Meu barraco foi quase todo destruído. Agora, posso sonhar com dias melhores. Quem sabe sai uma química boa daqui? Precisávamos dessa oportunidade — alegra-se Célia, que mora com marido e quatro filhos na comunidade.

A empresa recebeu, na Taquara, em Jacarepaguá, 24 mulheres moradoras daquela região da Cidade de Deus que aprenderam a usar uma essência floral fabricada pela Mane e transformá-la em aromatizador de ambiente com varetas de madeira ou de spray, colônia e perfume, acondicionados em potes de plástico de vidro. É a mesma essência fornecida para grandes lojas de cosméticos do país.

— Estamos ajudando essas mulheres a se empoderarem. Vamos auxiliá-las na criação de uma cooperativa para que possam ter mais acesso ao mercado e vendam os produtos que fizerem. Será a Cooperativa Mulheres que Perfumam. Elas receberão uma doação de cem unidades de essência, álcool e frascos. Inicialmente, farão aromatizadoes de ambientes — contou Denilce Oliveira, analista sênior de Recursos Humanos da Mane.

Moradora da Rua do Amor, também no Brejo, Taiane da Silva Rosa, de 32 anos, tem três filhos, um deles de 11 meses. Mora no barraco número 180 há dois anos e três meses, onde não pretende ficar por muito mais tempo. Na oficina, produziu um kit com fragrância de jasmim e o cheirinho resultou em elogios dos vizinhos e renda extra:

— Já tenho seis encomendas para o Natal e cinco para este mês (novembro). Ouvi pessoas que passavam em frente ao meu barraco perguntando “que cheiro é esse?” Eu respondia: “É daqui do meu barraco, eu que fiz”. Quero conseguir minha independência financeira.