Forças Armadas vão topar servir de brinquedinho para empresários que querem o golpe?

Foto: Getty Creative
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Rico não tem autocensura.

Era o que costumava dizer uma amiga ao tentar sobreviver a um ambiente de trabalho onde a parte bem nascida dos colegas, a maioria instalada nos postos de chefia, demonstrava dificuldade em saber ouvir “não”.

Pudera. Aquelas pessoas tinham sido bajuladas a vida toda em um ambiente cercado de conforto e empregados.

O acesso a um mundo particular e exclusivo de facilidades, quase sempre fechada em uma bolha de cerca eletrificada, neutralizava uma certa capacidade (ou disposição) de entender os perrengues de quem não passava as férias na Europa nem o fim de semana na mansão da praia. Isso modelava preconceitos e visão de mundo que iam até a porta de casa.

Veja como foram as últimas pesquisas eleitorais de 2022:

Uma particularidade da turma é pensar que todo mundo tem a função apenas de servir como empregado. Não existe distância entre desejo e conquista: basta erguer a mão e um exército aparece para abrir as portas e trazer o uísque com gelo.

Tente explicar para uma pessoa acostumada a tratar todo mundo como serviçal que ela precisa fazer ou aceitar algo de que não gosta.

Se ela não responder que amanhã seus advogados vão bater em sua casa, parabéns: você está diante de um raro representante da espécie que não foi fisgado pela afetação.

Do contrário pode se preparar para os sopapos. A pessoa pode jogar uma bigorna na sua cabeça porque tem certeza de que amanhã o papai vai dar um jeito de livrá-la de qualquer enrosco criminal.

Darcy Ribeiro costumava dizer que não se pode entender a elite brasileira sem levar em conta que ela ainda carrega no peito a alma do senhor de escravo. O senhor de escravo fez fortuna tirando no chicote a renda que outro ser humano poderia produzir. E não existe no mundo uma classe dominante mais medíocre e cobiçosa do que a brasileira.

Era ela que impedia o Brasil de seguir em diante, dizia o autor de “O Povo Brasileiro”. Segundo ele, durante a ditadura, os militares não tomaram o poder; apenas serviram de instrumentos para o que ele chamava de "classe dominante infecunda".

Como a História se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa, parte dessa elite já diz que preferir, em 2022, um novo golpe a ver o candidato a presidente que não gosta voltar ao poder. Um escarcéu típico de quem está acostumado a ser servido e acaba de ouvir que na fila do pão da democracia ele precisa levantar e buscar a própria baquete.

De tudo, o que mais chama a atenção na conversa revelada pelo portal Metrópoles, entre empresários bolsonaristas dispostos a fazer tudo, inclusive botar fogo na eleição, para manter Jair Bolsonaro no comando, é a forma como se referem às Forças Armadas. Em algum momento da formação humana e intelectual dessa turma seus integrantes reunidos no WhatsApp realmente se convenceram de que os militares eram seus bonequinhos dos Comandos em Ação. E que podem manuseá-los como bem querem no quintal de casa.

“O 7 de setembro está sendo programado para unir o povo e o Exército e ao mesmo tempo deixar claro de que lado o Exército está. Estratégia top e o palco será o Rio. A cidade ícone brasileira no exterior. Vai deixar muito claro”, escreveu um dos empresários graúdos do grupo, como se realmente acreditasse ser parte do "povo" —o privilegiado, só se for.

Descobrir o que tanto temem esses empresários em caso de vitória do ex-presidente Lula, que governava o país enquanto eles já enriqueciam, é tema para os próximos capítulos –jornalísticos, sim, mas também dos livros de psicologia e da ciência política.

O endosso de outra parte da elite às cartas em defesa da democracia mostra que a elite brasileira já não marcha junto como antes.

Mas é bom não subestimar a capacidade da ala radicalizada da turma em fazer um escarcéu em forma de guerra toda vez que se melindra. Eles parecem ter encontrado no bolsonarismo uma floresta cheia de encantos e aventuras para assegurar a adrenalina que as viagens e os carrões do ano já não garantem.

Resta saber se as Forças Armadas vão topar mesmo, e de novo, serem usadas como instrumento ou brinquedo de tiozões ricos, ambiciosos e entediados.