Empresas americanas e europeias miram consumidor chinês para compensar crise no Ocidente

O Globo
·4 minuto de leitura

HONG KONG e TÓQUIO - Com a segunda onda da pandemia ameaçando a retomada dos mercados na Europa e nos EUA, a China tem ganhado cada vez mais importância para empresas do Ocidente. Marcas como Coca-Cola e General Motors estão conseguindo compensar parte das perdas com a crise saciando o apetite do consumidor chinês, que, com o controle bem-sucedido da doença, já retornou aos níveis anteriores à pandemia.

De acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas da China, as vendas do varejo no país registraram o primeiro resultado positivo de 2020 em setembro, avançando 0,5% na comparação ano a ano. Em setembro, a taxa de crescimento foi de 3,3%. Enquanto no Ocidente os EUA voltaram a registrar números recordes de novos pacientes com coronavírus e, na Europa, países como França, Alemanha e Reino Unido impuseram restrições para conter a segunda onda de contaminações.

— Este foi outro trimestre extraordinário nas vendas para consumidores chineses — afirmou o diretor executivo da Estée Lauder, Fabrizio Freda, em conferência após a divulgação do balanço do terceiro trimestre, na segunda-feira, acrescentando que as receitas globais da gigante americana dos cosméticos caíram 9% na comparação com o mesmo período de 2019, mas na China as vendas avançaram entre 28% e 30%.

Até em aeroportos

Por causa da pandemia, o comércio on-line aumentou, mas, com o retorno da população às ruas, o varejo físico também cresceu. Segundo Freda, a companhia está vendendo cremes, perfumes e outros cosméticos até mesmo nos aeroportos chineses, que já se aproximam dos níveis anteriores à crise para os voos domésticos.

Na L’Oréal, o movimento foi semelhante. As vendas na China cresceram 28% no terceiro trimestre na comparação ano a ano, mas, no mundo, registraram retração de 2%.

A Coca-Cola teve receitas totais de US$ 8,65 bilhões no terceiro trimestre, queda de 9% em relação ao mesmo período de 2019. Na América do Norte, o volume de vendas retraiu 6% e, no mundo, 4%, devido ao fechamento de bares, restaurantes, cinemas e arenas esportivas. A empresa não divulgou números específicos sobre a China, mas informou que as vendas cresceram naquele país.

Em entrevista ao Wall Street Journal no mês passado, o diretor financeiro da fabricante de bebidas, John Murphy, afirmou que o consumo na China já estava “mais ou menos” no mesmo nível de antes da pandemia.

— Eles conseguiram, de março a junho, conter e praticamente eliminar a pandemia — afirmou Murphy.

O bom desempenho de empresas americanas no mercado chinês acontece apesar dos atritos entre Washington e Pequim, que desde 2018 se enfrentam numa intensa guerra comercial, com imposição de tarifas de lado a lado.

A indústria de veículos também se aproveita do bom momento da economia chinesa para compensar perdas em outros mercados. Naquele país, a General Motors registrou crescimento de 12% nas receitas no terceiro trimestre, contra queda de 10% nos EUA. Na Ford, o aumento das vendas na China foi de 22%, contra declínio de 5% no mundo.

SUV para famílias maiores

De olho no apetite do consumidor chinês, a General Motors planeja levar para o país seus veículos utilitários pela primeira vez. A montadora pretende oferecer quatro modelos: o Tahoe e o Suburban, da Chevrolet; o Escalade, da Cadillac; e o Yukon Denali, da GMC.

Os veículos foram apresentados pela companhia sediada em Detroit na China International Import Expo, que acontece em Xangai. Com seis ou sete lugares, os SUVs podem encontrar espaço no mercado porque as famílias chinesas estão crescendo após o fim da política de filho único.

— Nossa intenção é perceber a reação do consumidor e encontrar uma forma de vender esses carros na China — afirmou o diretor da GM na China, Julian Blissett, à agência Reuters.

E não são só as empresas americanas que estão surfando a onda chinesa. No mercado de luxo, a alemã Daimler AG registrou aumento de 24% nas receitas e recorde de unidades vendidas da Mercedez-Bens no terceiro trimestre, contra retração de 8% globalmente.

Na sexta-feira, as japonesas Honda e Toyota atualizaram suas previsões para o ano fiscal que se encerra em março de 2021, graças ao bom desempenho na China. As duas mais que dobraram suas projeções de receitas, para US$ 4 bilhões e US$ 12,6 bilhões, respectivamente.

— Elevamos os números principalmente na China — disse o diretor de Operações da Honda, Seiji Kuraishi, acrescentando que as vendas naquele país, de 455 mil unidades, superaram as 388 mil vendidas nos EUA no terceiro trimestre.

Em outubro, a Toyota viu suas vendas na China crescerem 33% em relação ao mesmo mês de 2019, inclusive dos modelos luxuosos, como o Lexus ES e o utilitário RAV4.