Empresas americanas são cobradas por posição anti-racismo para além das palavras

Por Luc OLINGA
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CEO da Merck, Kenneth Frazier, recebe um prêmio pela defesa dos direitos civis, em 2018

Enquanto os Estados Unidos lidam com distúrbios pela desigualdade racial que impera no país, suas grandes empresas são objeto de apelos para que combatam o racismo com ações, e não apenas palavras.

As empresas devem ir além do que simplesmente denunciar o racismo para estar de acordo com o momento, disse o diretor-executivo da Merck, Ken Frazier.

"As pessoas fazem declarações, dizem que isso é terrível", mas a "questão fundamental é se estamos fazendo mais do que nos pedem para dar às pessoas todas as ferramentas para participar dessa sociedade", disse Frazier esta semana à CNBC.

Os protestos maciços motivados pelo assassinato de um homem negro por um policial branco na última semana em Minneapolis colocou a desigualdade social em xeque no país mais afetado pela pandemia do novo coronavírus em todo o mundo.

Muitas grandes empresas emitiram comunicados criticando a discriminação e algumas, como a Apple e o Bank of America, fizeram doações para apoiar grupos defensores das liberdades civis ou programas de ajuda aos setores desfavorecidos.

A profunda e histórica desigualdade nos EUA persiste tanto na sociedade como nas grandes empresas.

Um relatório de 2019 do Boston Consulting Group revelou que apenas três das 500 maiores empresas americanas eram lideradas por negros e apenas 24 por mulheres.

Em 2018, a renda média de uma família branca padrão nos Estados Unidos era de US$ 70.642 por ano, contra US$ 41.692 para uma família afro-americana, segundo dados do Institute for Economic Policy, um 'think tank' progressista.

Frazier, o único CEO negro de uma empresa que integra o Dow Jones Index, atribui seu sucesso a uma iniciativa educacional que levou um punhado de estudantes negros da Filadélfia às melhores escolas da cidade.

A contratação e a promoção de afrodescendentes e latinos é essencial para combater a desigualdade, e as empresas não devem esperar o incentivo do Estado para isso, disse ele.

"Nossa sociedade está mais dividida do que nunca", disse Frazier.

"Vivemos em nossos próprios ambientes fechados. De fato, pode-se dizer que o ambiente de trabalho é o único lugar, além do serviço militar e talvez em práticas esportivas, onde as pessoas não podem escolher com quem interagem", disse ele.

- Preencher o vácuo -

Especialistas em marketing acreditam que as empresas que agem em consonância com a pauta são recompensadas.

"O setor empresarial tem a oportunidade de preencher o vazio deixado pelo governo", disse Richard Edelman, chefe de uma empresa de comunicação corporativa.

"Não precisa apenas se comunicar, é preciso agir", acrescentou Edelman, citando a contratação de pessoas de grupos minoritários ou dando emprego a pessoas que foram presas.

Outras medidas concretas incluem o apoio a start-ups afro-americanas e latinas, e a contratação de altos executivos em conselhos de administração de grupos comunitários, além de organizações não governamentais que apoiem setores desfavorecidos.

Especialistas pedem que as grandes empresas imitem a "Regra Rooney" da Liga Nacional de Futebol, que exige que as equipes entrevistem candidatos das minorias para cargos gerenciais e altos cargos operacionais quando vagas forem ofertadas.

"Há várias empresas que querem se tornar referência", disse Hank Boyd, professor de marketing da Universidade de Maryland. "Devem atuar, devem agir de forma rápida".

"Houve um tempo em que um bom número de empresas disse que queria estar à parte dos conflitos: 'não vamos nos envolver, somos a Suíça'", ressaltou Boyd.

Mas eles não podem mais fazer isso: "As marcas de hoje precisam se posicionar".