Empresas começam a oferecer programas de capacitação para mulheres trans

Elisa Martins
Andrea Bianchini se uniu a uma amiga em uma confecção de calcinha para mulheres trans

SÃO PAULO - Preconceito, insegurança, bullying, pouco acesso a estudos e capacitação. Os entraves para entrar no mercado de trabalho são muitos para a população transgênero, mesmo com algum avanço na discussão sobre o tema na sociedade. Por alguns anos, Andrea Bianchini, de 33 anos, fez parte dos 90% das mulheres trans que, estima-se, recorrem à prostituição em algum momento da vida para sobreviver.

Ela foi expulsa de casa aos 14 anos ao se assumir para a família e, diz, foi acolhida por um grupo de travestis que trabalhava perto da casa dela. Foi assim por um tempo, até que Andrea resolveu criar uma realidade fora das estatísticas. Ela se uniu a uma amiga em uma confecção de calcinhas para mulheres trans e participa de programas de capacitação para empreender.

- O mercado de trabalho é muito fechado para as mulheres trans. Essa amiga me ofereceu uma comissão, e passei a ajudar no negócio. Comecei indo nas esquinas vender as calcinhas para as meninas. Hoje formamos uma rede. Falo com uma pessoa, passo contato para outra. E procuro me inspirar em pessoas que passam coisas positivas - conta Andrea, no intervalo de um curso oferecido em São Paulo pelo Google para criar oportunidades econômicas e o desenvolvimento de mulheres.

Essa edição do evento, chamado "Women Will", foi dedicada a mulheres trans. Entre 70 e 100 mulheres foram selecionadas para a capacitação, que inclui palestras sobre liderança, network, autoimagem, negociação, organização financeira e ferramentas digitais.

- (O curso) me interessou porque tudo que é voltado para população trans, que abre portas, ajuda na inclusão no mercado de trabalho e na vida - diz Andrea.

Há três meses, ela deixou um emprego como caixa de um supermercado na Zona Sul de São Paulo. Levava a ocupação em paralelo com o negócio das calcinhas.

- Não tive estrutura emocional para continuar. Era sempre tratada pelo masculino, sendo chamada de "ele" pelo gerente, os funcionários perguntavam se eu era operada. Aquilo foi me entristecendo. Fiquei apenas cinco meses - lembra.

Andrea terminou os estudos por meio do TransCidadania, programa de inclusão da Prefeitura de São Paulo. Também fez curso de cabeleireira. Mais nova, deixou a escola porque sofria bullying. Desde que saiu do supermercado, mora em um centro de acolhimento na Zona Norte da capital paulista.

- Fui correndo atrás, para mostrar para mim mesma que sou capaz. Agora quero entrar na faculdade - afirma.

Não há dados exatos sobre empregabilidade da população transexual. A falta de informações, e de oportunidades, é vista como uma forma de violência pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), que nesta quarta-feira, Dia da Visibilidade Trans, lançará um dossiê dos assassinatos de transgêneros em 2019. Ao menos 124 pessoas trans foram mortas no ano passado no Brasil, número que mantém o país na liderança de mortes de transgêneros no mundo.

- Nosso estudo mostra muito mais do que um estudo que analisa friamente números. Tivemos muito cuidado para deixar nítido o retrocesso da violência que ocorre no Brasil, e que a não inclusão laboral é uma delas - diz Keila Simpson, presidente da Antra.

Segundo Keila, não é fácil encontrar dados sobre empregabilidade dessa população.

- As pessoas são empregadas segundo o nome que consta no RG, e infelizmente não há na ficha de emprego um campo para colocar esse marcador identitário - diz. - Na contramão da falta de dados e mercado para empregar essas pessoas, as organizações da sociedade civil desenvolvem projetos para pelo menos iniciar essa reparação.

Um exemplo é o site TransEmpregos, banco de dados de currículos e vagas para pessoas transgêneras. Em seis anos, a plataforma ajudou 1.300 pessoas trans a entrarem no mercado de trabalho.

- Ainda vivemos em uma sociedade machista, misógina, cheia de vieses, e o trabalho é uma ponta que acaba representando tudo de ruim que temos na sociedade - diz Maite Schneider, co-fundadora da TransEmpregos. - Mas já vemos empresas humanizadas que fazem processos inclusivos, que analisam competências, e não currículos. É uma revolução gradativa, mas está acontecendo.

Susana Ayarza, diretora de marketing do Google Brasil, reforça que essa população também precisa chegar a funções de liderança:

- Não adianta só trazer essas pessoas. Elas precisam se sentir confortáveis, confiantes de que podem crescer.

Para Ana Fontes, presidente da Rede Mulher Empreendedora, o foco das capacitações é preparar as mulheres trans para que tenham autonomia financeira, seja através de emprego formal, empreendedorismo ou cooperativas.

- Não vai ter emprego para todo mundo no futuro. Não o emprego como vemos hoje – afirma. – Então a preparação não deve ser apenas para trabalhar em uma empresa, mas para a vida. Essa mulher pode buscar abrir um negócio, se juntar em grupos, fazer negócios coletivos.

A recepcionista bilíngue Mariane Clemente, de 33 anos, quebrou a barreira do mundo corporativo. Formada em Administração e Ciências Contábeis, e pós-graduada em gestão, trabalha em uma multinacional. Ela já participou do evento "Women Will". Desta vez, porém, foi como palestrante, para falar sobre autoimagem.

- A gente sempre luta pela liberdade de expressão e de repente alguém diz: "Vamos ficar em uma caixinha". Não é fácil. Mas é verdade também que, para quem quer trabalhar no mundo corporativo, há regras e padrões a seguir - afirma. - Todo mundo assume um papel no mundo corporativo. Quem quer trabalhar ali tem que se adequar. Senão é querer buscar privilégios. Não queremos privilégios. Queremos ser tratadas com igualdade e equidade.

Filha única, de pais que moram no interior, Mariane busca opções no trabalho. E pensa em começar um curso de Relações Internacionais:

- Quero crescer. Esse é só o primeiro degrau.