Empresas de delivery e de e-commerce buscam embalagens ‘verdes’

A pandemia aumentou o gosto do brasileiro por refeições para viagem e compras on-line. Com a mudança de hábito, veio um grande problema para a sustentabilidade: a quantidade crescente de embalagens usadas poucas ou só uma vez, de copos e talheres a pacotes de entregas.

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Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), em 2020 e 2021, os materiais recicláveis secos, como plástico, papel e papelão, representaram 33,6% do total de resíduos sólidos urbanos (82,5 milhões de toneladas anuais) produzidos naqueles dois anos.

Parte do desafio dos e-commerces e empresas de delivery está no processo de packing, que se refere ao acondicionamento secundário e reembalagem de produtos. Foi disposta a contribuir com o meio ambiente que a Plastic Weber desenvolveu duas novas embalagens que começam a ser testadas pelo mercado.

— Foi um ano e meio de trabalho para a criação de um envelope próprio para e-commerce, com os mesmos atributos dos que circulam pelo mercado, porém, com 75% de matéria-prima pós-consumo — diz o diretor administrativo Moisés Weber.

Além de uso na própria operação, a inovação pode chegar a grandes empresas, como Magalu e Mercado Livre, com quem a Plastic Weber negocia. Com capacidade produtiva de 200 toneladas/mês, o novo envelope deve ganhar escala em 2023.A empresa também criou uma embalagem plástica para calçado do tamanho do produto embalado, que não necessita de preenchimento extra quando despachado.

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Os lançamentos da Plastic Weber vão ao encontro do conceito embalagens Frustration-Free Packaging (em português, embalagens sem frustração), que visa a facilitar a abertura de embalagens e, ao mesmo tempo, diminuir o impacto ambiental via redução de plástico e outros materiais.

Menos resíduos

Estudo feito pela Seled Air, fabricante internacional de embalagens, revelou que os consumidores acreditam que entre 75% e 90% dos espaços das caixas devem ser preenchidos com o produto pedido, diminuindo ao máximo a quantidade de plástico, papel ou isopor dentro do pacote.

ara Marco Lazarini, líder de Packaging Solutions da empresa de logística DHL Supply Chain na América Latina, essa premissa se tornou uma obrigação com o crescimento das vendas on-line:

—Repensar a estratégia de packaging com foco na sustentabilidade não é algo secundário, significa adaptar sua estratégia de negócios para um mercado em constante evolução .

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De acordo com o executivo, uma estratégia ainda pouco explorada no Brasil é a integração dos processos de packaging à cadeia de suprimentos, ou seja, da fábrica ou armazém até o fornecedor de embalagens.

— Com o provedor logístico envolvido desde o princípio, a embalagem é desenvolvida de maneira a ter um aproveitamento logístico maior nas etapas de estoque, paletização e cubagem para embarque — afirma Lazarini.

O Mercado Livre iniciou em março deste ano um projeto que elimina embalagens adicionais para produtos enviados a partir de seus centros de distribuição, instalados nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Bahia.

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A iniciativa substitui caixas de papel e envelopes plásticos por uma única etiqueta, colocada diretamente sobre a mercadoria. A mudança colabora com a redução do uso de materiais e posterior geração de resíduos, otimizando espaços e o combustível usado no transporte.

Segundo Raquel Keiroglo, gerente de Sustentabilidade do Mercado Livre no Brasil, desde o lançamento, mais de 1,3 milhão de pacotes são enviados todo mês sem o uso da embalagem secundária para itens da indústria. Nos cinco primeiros meses, mais de 36 toneladas de materiais deixaram de ser empregados no processo logístico.

— Com o projeto, que também está sendo adotado no México, esperamos não só economizar o volume de embalagens, como também reduzir em 50% o espaço e o tempo de expedição das mercadorias — diz a executiva.

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Com 4,7 milhões de pedidos em 2021, a Privalia, e-commerce de roupas, calçados e acessórios, vem trabalhando desde 2019 em novos processos. Um deles são os flyers biodegradáveis criados a partir da resina BioE-8, que se decompõe em 20 meses e foi desenvolvida pela startup Bio Elements. Neste ano, a Privalia investiu cerca de R$ 1 milhão nas novas embalagens, valor que chegará a R$ 2,5 milhões em 2023.

—Os flyers sustentáveis já correspondem a 44,5% dos despachos feitos em São Paulo — diz Fernando Boscolo, acrescentando que a meta é terminar o ano com 100% das entregas com o novo material.

O iFood firmou, em 2021, uma parceria com a fabricante de papel e celulose Suzano, para criar embalagens mais sustentáveis. O primeiro resultado foi o papelcartão Bluecup Bio, revestido com resina biodegradável à base de água e livre de plásticos.

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Compostáveis

Com a Klabin, o iFood oferece desde fevereiro aos restaurantes da plataforma oportunidade de comprar embalagens sustentáveis com desconto. E com a startup argentina growPack começa a fabricar em Vinhedo, no interior de São Paulo, embalagens compostáveis.

Segundo André Borges, líder de Sustentabilidade do iFood, a empresa busca incentivar o cliente pelo aplicativo a reduzir o envio de plástico nos pedidos, além de investir em projetos de reciclagem para cumprir a meta de zerar a poluição plástica das operações e neutralizar a emissão de carbono até 2025.

Não basta chamar atenção na gôndola e ser resistente

Nos últimos anos, um novo conceito vem ganhando força junto à indústria e ao grande varejo, a green logistics, também conhecida como ecologística. Trata-se de um conjunto de medidas, ações e políticas sustentáveis que tem por principal objetivo reestruturar processos logísticos para que gerem menos impacto ao meio ambiente. O novo comportamento envolve produção, armazenamento, transporte e retorno dos resíduos.

Nessa nova realidade, não basta a embalagem ser resistente, de fácil manuseio e chamar atenção na gôndola. Beatriz Luz, diretora da Exchange 4Change Brasil, organização que orienta a transição para a economia circular, explica que “a embalagem deve ser eficiente na proteção do produto, exibição e experiência do consumidor, mas, também, própria para ser reciclada”.

A empresa de cosméticos orgânicos, veganos e naturais Simple Organic trabalha com embalagens de tecido, papel reciclado e frascos de vidro. Quando o plástico é indispensável, diz Patrícia Lima, criadora da beautytech, é dada preferência à mistura com alto teor de reciclagem. E é feita a logística reversa ao longo de todo o ano. Fundada em 2017, a companhia catarinense é associada à Certificação Lixo Zero, de reconhecimento internacional.

Menos PETs

Relatório da Fundação Ellen MacArthur mostra que, entre 2018 e 2021, a parcela de conteúdo reciclado pós-consumo aumentou de 4,8% para 10% nas empresas signatárias do Compromisso Global para uma Nova Economia dos Plásticos, desenvolvido por ela junto à ONU. Desde 2018, mais da metade (59%) das marcas e varejistas reduziram o uso de plástico virgem.

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A Heineken firmou compromisso de ser 100% circular em plástico até 2025. Para isso, foi reduzido em 80% o volume de PETs na operação brasileira, cerca de um quarto do plástico usado pela empresa, afirma Mauro Homem, vice-presidente de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos do grupo. Neste ano, a companhia também começou a rodar em Itu (SP) o piloto do projeto Volte Sempre Long Neck Bar.

— Disponibilizamos caixas garrafeiras para que o bar ou restaurante possa armazenar as garrafas pós-consumo até que sejam recolhidas no dia de entrega de novos pedidos.

Em 80 dias, 85% do volume vendido aos parceiros foram devolvidos. Outra frente são as máquinas de coleta de garrafas de vidro, que trituram o material. O programa deverá ser expandido para dez capitais, além de São Paulo e Belo Horizonte, até 2023