Empresas deveriam ter plantão psicológico para funcionários fragilizados pela pandemia, diz presidente de associação de RH

Janaína Figueiredo

RIO - Ainda se recuperando da Covid-19, que o obrigou a ser internado e lhe fez sentir, por momentos, que não resistiria, Paulo Sardinha está retornando aos poucos a suas funções como presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos e começando a pensar como será, em algum momento, o reingresso à vida física de milhões de trabalhadores que desde março estão em casa.

Ele acredita que a vida virtual, hoje ampliada, continuará ocupando um espaço importante na agenda de muitas pessoas. O desafio, disse em entrevista ao GLOBO, é “saber até que ponto o elemento virtual funciona sem ser imposto, como acontece numa pandemia”. Sardinha também vem recomendando a muitas empresas que reforcem o apoio psicológico para seus funcionários. Para ele, “a volta talvez seja mais penosa do que se imagina”.

O senhor teve sintomas fortes de Covid-19?

Sim, muito fortes. Agora que passou, o que resta é uma pneumonia, os pulmões precisam de tempo para se recuperar. Comecei a me sentir mal há quase um mês e, veja você, naquele momento o que levava as pessoas aos hospitais era a falta de ar. Mas eu não tive falta de ar, tive, sim, uma prostração forte, febre não muito alta e dor de cabeça. Minha esposa também teve sintomas e foi internada junto comigo.

Quando o senhor percebeu que devia ir ao hospital?

Um dia estava na cozinha e não consegui cortar um tomate, não tive forças. Eu tinha alguns lapsos em que ficava melhor, mas quando batia o cansaço era uma prostração quase absoluta. Tínhamos três médicos nos monitorando, e um dia um deles disse que não estava gostando dos sintomas. Naquela mesma noite fomos para o hospital, e eu já tinha um comprometimento dos pulmões entre 25% e 50%. Recomendo a quem se sentir exageradamente cansado que consulte um médico depois de uma semana, se o sintoma não melhorar.

O senhor teve de ser entubado?

Não, mas fiquei no oxigênio um bom tempo. Minha saturação ficou abaixo de 80%. Tomei um coquetel de medicamentos, enfim, cheguei um pouco tardiamente, mas consegui reagir. No hospital, a prostração atingiu um grau que eu chamo de colapso. Eu não tinha nenhuma capacidade motora. Levantar um dedo era um esforço enorme. Você vive num ambiente que, por momentos, se parece a uma sala de torturas. Esta doença é de uma crueldade terrível, o que ela faz com o corpo, é como sair de um espancamento. Você vê a possibilidade da morte, fica se torturando. Mas é então quando chegam os pensamentos sobre a família, os filhos. Fiquei pensando em como eles suportariam isso, muito difícil. Senti como se vários caminhões tivessem passado por cima de mim, várias vezes. O vírus vai comendo seu pulmão silenciosamente.

Consegue imaginar a volta a uma nova normalidade no Brasil?

Começamos a pensar, as situações vão se adaptando. A tecnologia deverá ser repensada depois desta experiência de trabalho em casa. Acredito que o que estamos vivendo vai modificar muitas coisas, porque hoje o home office é algo imposto, e se mistura com as angústias que as pessoas sentem trabalhando em casa numa pandemia. Devemos pensar, a futuro, quanto de virtual queremos ter em nossas vidas. A grande discussão é quanto de vida real e quanto de vida virtual, depois de tudo isso. Percebemos que o virtual funciona, roda bem, mas até que ponto ele funciona bem sem ser imposto?

O que tem recomendado às empresas?

Que tenham planos de contingência mais elaborados. E que pensem bem e se preparem para o reingresso à vida física, porque vai ser difícil. Estou vendo alguns ensaios em algumas empresas e aparece a questão do medo. As pessoas terão dificuldades para voltar, pela experiência que passaram, algumas mais traumáticas do que outras. Sugerimos a presença de psicólogos de plantão para atender as pessoas mais fragilizadas.

O senhor já viveu alguma situação similar?

Não, mas sim algumas situações particulares que mostram o quanto é importante o reforço psicológico em alguns momentos. Quando trabalhava numa empresa que fazia turbinas de helicópteros tivemos o caso de um trabalhador que passava 14 dias seguidos numa plataforma de petróleo. Um certo dia, ele não quis ir mais pro isolamento, empacou. E tivemos de dar um atendimento.

Hoje estamos isolados em nossas casas...

Sim, e nelas nos sentimos protegidos. Quando voltarmos às empresas onde trabalhamos será normal que sintamos um certo medo. Temos de observar com cuidado esse retorno, a carga emocional de cada uma das pessoas.