Empresas militares privadas: jornalista brasileiro estuda a terceirização das guerras pelo mundo

Questões relacionadas à segurança das nações vêm sendo muito discutidas, especialmente quando se tem uma guerra em curso, como a que acontece na Ucrânia. Entretanto, garantir a segurança de um país deixou de ser papel somente das forças armadas. É o que afirma o jornalista e especialista em relações internacionais Renan de Souza, que lança um livro sobre as empresas militares privadas e os riscos que elas representam para os direitos humanos.

Entrevista feita por Tatiana Ávila para RFI

Souza teve trabalhos reconhecidos na União Europeia, nos Estados Unidos e na Argentina, foi eleito pela ONU como um dos 100 Afrodescendentes Mais Influentes do Mundo com menos de 40 anos, e estudou as empresas militares privadas no mestrado em relações internacionais, na Universidade de Londres. Em “Private Military Companies and the Outsourcing of War: re-examining the Political Rationale Towards Peace", ele explica que essas companhias são contratadas por estados, mas lutam guerras visando ao lucro, sem ter um comprometimento com a nação, por não fazerem parte do exército e não terem um vínculo oficial estabelecido.

“Essas empresas não têm comprometimento com os direitos humanos e com a legislação internacional. Muitas vezes, elas cometem violações e é muito difícil processá-las, porque elas mudam de nome e de endereço muito facilmente. Você consegue processar estados e políticos em tribunais penais internacionais, mas não consegue processar essas empresas porque não há uma legislação internacional para elas”.

O jornalista aborda também o grupo paramilitar russo Wagner, ligado ao Kremlin, e que opera no mundo inteiro, inclusive na guerra da Ucrânia, embora a Rússia, oficialmente, negue a existência da companhia. Souza explica que o grupo surge em 2014, após a anexação da Criméia, porque os russos não tinham contingente militar para ocupar a região.

“O Wagner Group tem crescido muito para atingir os objetivos de Vladimir Putin, onde ele quer reduzir o seu risco político. Quando a Rússia foi para a guerra da Síria, por exemplo, defender o governo de Bashar al Assad, o grupo estava lá para apoiar as tropas russas. E como a Rússia conquistou o seu objetivo naquela guerra, que era ajudar al Assad a se manter no poder, o Wagner Group ganhou fama no país. Mais recentemente, na guerra da Ucrânia, alguns soldados foram direcionados para lá por serem especializados em um combate mais técnico. É importante lembrar ainda que logo no início da guerra, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, falava que temia por sua vida. Isso porque os soldados do Wagner foram encarregados dessa missão. Isso reduziria o risco de Putin, já que ele não reconhece a existência do grupo e se Zelensky eventualmente fosse morto, a Rússia tentaria se eximir da culpa. ”

Renan de Souza destacou ainda que o uso dessas companhias no cenário mundial se intensificou a partir da guerra do Iraque, que teria funcionado como um laboratório para essas empresas. A partir de então torna-se mais usual a terceirização dos exércitos em serviços de transporte, segurança e logística, mas também no trabalho ofensivo, de linha de frente.

“No Iraque, vimos o caso da Blackwater, que matou 14 civis. Depois foi muito difícil processar essa empresa, mas isso eventualmente aconteceu. Porém, no final do mandato, Donald Trump deu o perdão presidencial ao CEO da companhia, Erik Prince, que vive hoje em liberdade. Essas empresas estão crescendo e de maneiras bem complexas, algumas até mesmo com a capacidade de realizar ataques cibernéticos, que é a nova preocupação no mundo da guerra.”

China usa espionagem na África

Outro país que estaria usando as empresas militares privadas, dessa vez em serviços de espionagem na África, é a China, que, segundo Souza, atua dessa forma para evitar os riscos políticos. A espionagem é um novo campo dessas empresas, que crescem em capacidade numérica e técnica. O jornalista conta que a Rússia também está no continente com o Wagner Group para defender os interesses do país na área de mineração.

Perguntado sobre paz positiva e paz negativa, abordados no livro, Souza explica porque é tão difícil manter um cenário que não seja de conflitos. Ele afirma que a paz no mundo costuma ser pensada pela ausência de guerra, mas que o conceito vai muito além.

“Temos a ideia de que vivemos em paz porque não tem guerra, mas, na verdade, é preciso entender o conceito de paz positiva, que significa a distribuição justa e igualitária de recursos na sociedade. No caso do Brasil, por exemplo, não estamos em guerra, mas será que temos paz? É quase impossível dizer que sim, porque se pensarmos a sociedade por camadas, muitas pessoas não têm acesso a recursos, à justiça, aos direitos humanos. Enquanto não tivermos essa paz igualitária, que atinge a todos, não teremos uma paz duradoura”, finaliza.

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