Empresas de tecnologia americanas contribuíram para a rede de vigilância chinesa, diz jornal

NOVA YORK — Alvo de críticas do Ocidente, o sistema de vigilância chinês foi montado com importantes contribuições da indústria americana, revela o “Wall Street Journal”. Empresas de tecnologia, como Seagate Technology, Western Digital, Intel e Hewlett Packard, participaram, e lucraram, na implementação da rede de câmeras de monitoramento que, segundo críticos, é utilizada por Pequim para controlar minorias étnicas e dissidentes políticos vistos como ameaças.

Essas conexões comerciais vieram à tona em outubro, quando o governo americano proibiu oito companhias chinesas da indústria de vigilância de comprarem peças e componentes de fornecedores americanos. Essas empresas, disse o Departamento de Comércio dos EUA na ocasião, participam de violações dos direitos humanos na “campanha de repressão chinesa” em Xinjiang.

A atuação de Pequim na província foi condenada por governos ocidentais e pelas Nações Unidas. Para o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, a repressão a minorias muçulmanas na região é a “mancha do século”. Organizações de defesa dos direitos humanos acusam o governo chinês de usar tecnologias de monitoramento remoto para reprimir os uigures, que estão sujeitos a prisões arbitrárias em campos de detenção.

As companhias americanas argumentam que seus produtos podem ser usados para diversos fins, sendo difícil esse controle. Mas elas correm risco de terem suas reputações manchadas e, com as sanções de Washington, podem perder negócios com clientes chineses. De acordo com a consultoria IDC, o mercado chinês de vigilância movimentou US$ 10,6 bilhões no ano passado, sendo o governo responsável por metade dessas compras.

A Hewlett Packard é dona de 49% da New H3C Technologies Co. Ltd, que fornece comutadores, sistemas de controle de redes de monitoramento e serviços de computação em nuvem para agências de segurança chinesas. Materiais de divulgação da empresa afirmam que, entre seus clientes está Aksu, uma cidade em Xinjiang que monitora sua população e possui, segundo análise de imagens de satélite, vários campos de detenção.

Um porta-voz da Hewlett Packard afirmou que a New H3C Technologies Co. Ltd confirmou vendas a autoridades em Xinjiang, mas que a companhia não estava envolvida na entrega dessa tecnologia. Os negócios serão analisados.

A Hikvision Digital Technology Co. Ltd., maior fabricante mundial de câmeras de vigilância, está entre as empresas banidas pelo governo americano. Desde 2016, ela venceu contratos de mais de US$ 256 milhões para a construção de sistemas de vigilância em Xinjiang, incluindo num campo de detenção, chamado pela companhia como “centro de educação e treinamento”.

A empresa é compradora de tecnologias de fornecedoras americanas. Essas companhias afirmam que cumprem com as leis e regras de exportação, mas não comentaram se as vendas continuarão. Segundo uma fonte próxima da Hikvision, a empresa compra cerca de US$ 1 bilhão anuaisdos EUA.

Discos para armazenamento

Entre os fornecedores estão a Seagate e a Western Digital, que vendem discos rígidos para o armazenamento de imagens usados pelos produtos da Hikvision. Segundo a Bernstein Research, esses discos são produzidos fora dos EUA e não possuem tecnologias avançadas, por isso não devem ser afetados pelo banimento.

A Seagate e a Western Digital afirmam que cumprem todas as leis e que observam atentamente o que acontece em Xinjiang. “Nós reconhecemos a gravidade das alegações relacionadas com a vigilância na província de Xinjiang“, disse a Western Digital, acrescentando que não vende produtos diretamente para o governo chinês.

A Hikvision afirmou que respeita os direitos humanos e se opõe à decisão do Departamento de Comércio dos EUA de proibi-la de negociar com fornecedores americanos. A empresa disse ter contratado um ex-diplomata americano como consultor de compliance em direitos humanos. Ela confirmou que os discos da Seagate e da Western Digital estão presentes em todos os seus sistemas de vigilância, não apenas nos usados pelo governo.

A Hikvision também usa chips da Xilinx Inc, baseada em San Jose, na Califórnia, mas por revendedores. A Xilinx afirmou que a companhia não controla como os clientes usam ou revendem seus produtos, que trata questões de direitos humanos muito a sério e que cumpre todos os requerimentos do governo americano em seus negócios.

A fabricante chinesa também comprava, até ser listada pelo Departamento de Comércio, chips da Nvidia, baseada em Santa Clara, na Califórnia, para o treinamento de algoritmos e uso em sistemas de inteligência artificial. A Nvidia afirmou que a companhia cumpre com todas as regras de exportação dos EUA.

A Intel, de Santa Clara, na Califórnia, realizou investimentos de capital semente e vendeu chips e soluções técnicas para a start-up chinesa NetPosa Technologies Ltd, que hoje fornece sistemas de gerenciamento de vídeo em nuvem e vans de vigilância para departamentos de polícia em Pequim, Xangai e cerca de 60 outras cidades na China, além do Ministério de Segurança Pública.

A Intel chegou a ser dona de um quinto do capital da NetPosa em 2010, mas vendeu sua participação em 2016. Entretanto, a Intel continua como fornecedora de chips para NetPosa, que não foi incluída pelo Departamento de Comércio dos EUA na lista de empresas proibidas de comprarem de fornecedores americanos. A Intel afirmou que seus produtos são usados por clientes em todo o mundo para uma variedade de aplicações.

Organizações de direitos humanos e governos ocidentais acusam Pequim de reprimir a minoria muçulmana em Xinjiang, de 12 milhões de pessoas da etnia uigure, com o uso de tecnologias como câmeras de reconhecimento facial, escâneres de cartões de identificação, leitores de smartphones e outras ferramentas.

O governo de Xinjiang nega as acusações, alegando que o monitoramento de espaços públicos é uma prática aceita internacionalmente e que os equipamentos que utiliza dependem da necessidade. Sobre os campos de detenção, Xinjiang afirma que os espaços servem de centros educacionais, para o ensino do mandarim, conhecimentos legais e treinamento profissional.