Enchentes, secas destroem lavouras e puxam inflação de alimentos

Fabiana Batista, Agnieszka de Sousa e Mai Ngoc Chau
·3 minuto de leitura
Foto: Getty Images
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O clima imprevisível devasta colheitas ao redor do mundo e impulsiona os preços.

Em plantações de trigo nos Estados Unidos e na Rússia, é a seca que causa estragos. Campos de soja no Brasil também estão secos, tendo recebido um pouco mais do que chuvas ocasionais. No Vietnã, Malásia e Indonésia, o problema é exatamente o oposto. Chuvas torrenciais causam inundações em plantações de arroz e de palmeiras para produção de óleo.

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O surgimento repentino desses problemas de oferta causa grande impacto na economia global, que ainda tenta recuperar o equilíbrio após o choque das paralisações causadas pela Covid-19. À medida que os preços do açúcar ao óleo de cozinha sobem, milhões de famílias da classe trabalhadora, que já tiveram que reduzir as compras de alimentos durante a pandemia, mergulham em uma crise financeira ainda mais profunda.

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Além disso, esses aumentos ameaçam elevar os índices de inflação mais amplos em alguns países e podem dificultar a ação de bancos centrais na injeção de estímulos monetários para sustentar o crescimento.

O índice Bloomberg Agriculture Spot, que acompanha preços de nove culturas, subiu 28% desde o fim de abril, para o maior nível em mais de quatro anos. No início desta semana, o preço do trigo atingiu a maior cotação desde 2014.

“Os fundamentos mudaram drasticamente desde maio”, disse Don Roose, presidente da corretora U.S. Commodities, em Iowa. “O clima está fervilhando, e temos demanda crescendo em um bull market.”

Cadeias de suprimentos cortadas e uma onda de compras já elevaram os preços dos alimentos em muitos países no início deste ano, pois os lockdowns da Covid-19 afetaram o comércio global. Ainda assim, havia um amplo colchão de estoques de grãos, com a expectativa de que as colheitas do hemisfério norte seriam fartas. Mas o clima seco mudou esse panorama.

Antonio Carlos Simoneti, da quarta geração de uma família de produtores de laranja, observa a mudança em primeira mão. Com a seca e o calor no estado de São Paulo, líder mundial em produção de suco de laranja, o rio em torno de sua propriedade secou. É a primeira vez que isso acontece desde que sua família adquiriu a fazenda há 36 anos. As laranjas em sua plantação de 500 hectares estão secando por dentro e se cristalizando, pois as árvores sugam toda a água dos frutos para tentar sobreviver às condições áridas.

Depois de fechar algumas vendas no início da temporada, “não tenho mais frutas para vender”, disse Simoneti, cuja expectativa é de que sua colheita caia cerca de 50% neste ano por causa do clima. “O que resta nas árvores está seco, sem água.”

Onda de compras

Não é apenas o clima que tem provocando a alta dos preços agrícolas.

Importadores de commodities agrícolas do Cairo a Islamabad iniciaram uma maratona de compras na tentativa de se protegerem de mais cortes nas cadeias de abastecimento, como no início deste ano, quando paralisações deixaram alimentos retidos nos portos, atrasaram o transporte por caminhões e congestionaram armazéns.

A alta do dólar frente ao real impulsiona ainda mais os preços no Brasil, onde a soja subiu 81% e o milho 56% neste ano, elevando também os custos da produção de carne de frango e suína. Como medida de emergência, o governo suspendeu temporariamente as tarifas de importação de soja, milho, arroz e trigo para controlar a inflação dos alimentos.

Nos EUA, a recuperação dos preços após anos de estagnação é uma boa notícia para agricultores do país, que têm dependido mais da ajuda do governo para equilibrar a queda da receita devido a tarifas e guerras comerciais.

“Ver a demanda tão forte agora por muitas commodities é um sinal bem-vindo”, disse Kevin Ross, agricultor de Iowa e presidente da National Corn Growers Association, que cultiva milho e soja no sudoeste de Iowa. “No momento, as exportações estão pegando fogo”, disse terça-feira em entrevista por telefone.

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