Encontro discute as prioridades da educação: ‘Buscar os alunos que saíram da escola é o primeiro passo’, diz estudante

RIO - Professores e especialistas em educação reunidos virtualmente nesta quinta-feira, quando se comemora o Dia da Educação, defendem que novos desafios causadas pela pandemia devem ser tratados como prioridades para a educação brasileira ao mesmo tempo em que o país precisa resolver questões estruturantes ainda pendentes, além de combater o racismo a partir da escola.

— O desafio mais difícil, para mim, é a busca ativa, a procura dos alunos que deixaram a escola. Os jovens estão fazendo de tudo, trabalhando, ficando na rua, menos estudando. Quando tiver todo mundo de volta, a gente fala da educação que nos queremos — defendeu a estudante Rosana Barroso, presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES).

Essa é a quarta edição da mobilização #Nem1PraTrás, promovida pela Fundação Roberto Marinho e uma aliança estratégica de parceiros, reúne quase 200 instituições para sensibilizar a sociedade sobre os desafios mais urgentes da educação no país. O encontro se propôs a pensar respostas sobre a questão “O que é prioridade na agenda da educação no Brasil?”.

Além de Rosana, participaram da conversa Lucinei Tavoni Bueno, diretora de escola em São Paulo e especialista em gestão escolar; Luiz Miguel Martins Garcia, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime); Manoel Santana, professor da rede estadual da Paraíba e de Pernambuco; Olavo Nogueira Filho, diretor-executivo do Todos Pela Educação; e Waldete Tristão, escritora e especialista em gestão na educação infantil e relações raciais, que chamou a atenção para a falta de políticas educacionais antirracistas nessa etapa escolar, uma medida essencial para o combate urgente do preconceito no país.

— Essa ausência de políticas educacionais antirracistas mantém o racusmo estrutural que prejudica o desenvolvimento das crianças. — afirmou Waldete Tristão. — É preciso pensar em materiais apropriados e ferramentas fundamentais de uma prática pedagogica que deveria estar inclusive na formação dos professores nos cursos de licenciatura e pedagogia.

Vivendo a realidade das escolas, o professor Manoel Santana e a diretora Lucinei Tavoni Bueno contam das dificuldades vividas neste momento de busca ativa após a volta presencial às aulas.

— A busca ativa na nossa escola evidenciou muito sofrimento, fome e problemas psiquiátricos dos alunos. Esses meninos estão voltando para a escola. Mas nós estamos preparados para recebê-los? — questiona Santana.

Já a diretora Lucinei Tavoni Bueno lembra que a escola se preparou para receber os alunos no presencial com as dificuldades pedagógicas que não conseguiram dar conta no ensino remoto, mas tiveram uma surpresa difícil.

— O que encontrados foram dificuldades de relacionamento dos alunos. Essa é uma frente de trabalho que precisamos encarar. Por conta do isolamento, o convívio entre eles e entre professores ficou muito comprometido — diz a gestora.

Tavoni Bueno conta ainda que experimentou uma transformação na escola quando ela passou de tempo parcial para integral. Ela conta que a partir de então a unidade começou um processo de fortalecimento que ajudou muito no momento difícil de pandemia e na volta às aulas.

— A relação com as famílias já estava fortalecida e, na hora da busca ativa, usamos os professores tutores que dividiram os alunos em grupos e, assim, facilitou esse trabalho — conta.

O encontro também contou com a presença de Luiz Miguel Martins Garcia, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). Ele apontou a evasão escolar como uma preocupação muito intensa, especialmente no ensino médio, etapa na qual os estudantes são mais velhos e eventualmente precisam ajudar a família ingressando precocemente no mercado de trabalho. O gestor aponta ainda uma série de medidas necessárias para este momento.

— Estamos encontrando alunos, professores e famílias muito adoecidas, tensas. Isso tem exigido uma atenção muito especial em relação às atividades socio-emocionais e ao acolhimento. Por isso, estimulamos muito a compreensão desse momento difícil para todo mundo. Também estamos fazendo um processo de avaliação pedagógica. Não para rankiamento, mas para identificarmos as lacunas de aprendizagem — conta.

Diretor-executivo do Todos Pela Educação, Olavo Nogueira Filho falou a respeito do documento Educação Já, lançado em 2018 pela ONG e atualizado para o ano de 2022. O objetivo é apontar as prioridades na área que os novos eleitores terão que encarar a partir de 2023, sob a perspectiva de duas novas questões que sugiram desde então:

— A pandemia e um governo federal ausente que gerou consequências muito graves — explica.

Segundo ele, há uma agenda de curtíssimo prazo, para mitigar os efeitos mais imediatos da crise sanitária, e uma segunda parte de mudanças problemas estruturais.

— A premissa é que não dá para voltar para o nível de qualidade que a gente tinha pré-pandemia para enfrentar os desafios do pós-pandemia. Por isso, é preciso fortalecer os sistemas educacionais. A grande novidade do Brasil é que na última década vimos florescer no país experiências de tansformação em escala. Municípios de médio e grande porte e estados como um todo mostraram que é possivel mudar o jogo na educação — afirma.

A mediação do debate ficou a cargo da jornalista Ana Carolina Malvão, do Canal Futura. Inaugurando novo formato no Classes Abertas, a jornalista dividiu o estúdio com Rosana Barroso contribuindo com sua perspectiva sobre educação no Brasil e trazendo as perguntas de quem participa do encontro via redes sociais.

#Nem1PraTrás

Entre os participantes da mobilização do Dia da Educação, estão instituições como Instituto Ayrton Senna, Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Itaú Social e Instituto Península. As ações do Dia da Educação reforçam o Movimento #Nem1PraTrás e incentivam o uso das hashtags #Nem1SemProfessor, #DiadaEducação e #Nem1PraTrás nas redes para o compartilhamento de experiências e informações. Dados sobre educação e iniciativas das instituições parceiras estão em diadaeducacao.org.

— O objetivo é apoiar e estimular as boas práticas Brasil afora, levando em conta as diferenças regionais, para que professores, alunos e famílias superem as dificuldades de forma eficiente”, reforça João Alegria.

Entre as iniciativas da Fundação Roberto Marinho e do Canal Futura na semana da educação está também a estreia da nova temporada da série “Destino: Educação”, com o tema “Políticas Públicas”, no dia 25. Realizada em parceria com o SESI, a série mostra resultados de políticas bem-sucedidas em escolas nacionais e internacionais. A iniciativa conta também com websérie e curso online. O Futura também terá programação especial para a semana, com edições do programa Conexão, Debate e episódio do podcast Chão de Escola.

O Movimento LED - Luz na Educação, parceria com a TV Globo, também faz parte da mobilização. A iniciativa tem o objetivo de iluminar práticas inovadoras na educação brasileira e de reconhecer quem está revolucionando o cenário do setor. A premiação é voltada para educadores, estudantes empreendedores e criadores que atuam na temática da Educação.

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