Encontros virtuais, ‘sexting’ e até escapadas do isolamento: como os solteiros têm se virado na pandemia

Luciane Angelo
Sexting

Faz pelo menos cinco meses que não estou em um “relacionamento sério”, o que não significa que minha vida sexual seja um marasmo. Muito pelo contrário. Até o início desta pandemia, ela era bem mais divertida do que a de muitas das minhas amigas casadas. Com a adoção do distanciamento social para prevenir o avanço da Covid-19, no entanto, o ritmo de jogo mudou. Mas nem tudo está perdido.

Além de jornalista, sou sexóloga, terapeuta tântrica e atendo (em tempos normais, claro) num consultório na Vila Madalena, em São Paulo. Por experiência própria e clínica posso dizer que, em momentos de isolamento, a melhor maneira de obter prazer é mesmo a masturbação, que, além de segura, promove novas oportunidades de autoconhecimento. O período é delicado, dolorido, mas aproveite os raros momentos de paz para se tocar, olhar e tentar sentir prazer consigo mesmx. Pense no que mais gosta, ouça músicas que tragam boas lembranças, assista a vídeos eróticos e pratique o sexting (diálogos calientes via celular ou computador) sem vergonha. Com tantas incertezas e tensões, é comum a libido cair. Mas não podemos enterrá-la, temos de estar atentos para isso não se tornar um problema a ponto de afetar nossa disposição diária e, consequentemente, nossa autoestima.

Após um mês de quarentena, mesmo sendo ligada no assunto, me percebi sexualmente apática. E não me deixei vencer. Procurei conversas picantes com crushies do passado, revi vídeos e nudes e, em um belo dia, aumentei o som e dancei, sozinha na sala, mexendo bastante o quadril. Quando você movimenta a pelve, acorda a kundalini, energia criativa que alinha os chacras do corpo e proporciona sensação de bem-estar. Cada pessoa tem uma maneira de se conectar a sua energia, por isso quanto mais a gente se conhece, mais fácil é acioná-la.

Conversei sobre isso com uma amiga, a psicóloga paulistana Gisele Moreira, de 33 anos, que me disse que também tem estranhando sua falta de apetite sexual. “Não tenho vontade de me masturbar, nem estou conseguindo gozar. Perdi o tesão mesmo.” Solteira há 3 anos, ela costumava ter ao menos dois encontros por semana e, no início da pandemia, chegou a quebrar a quarentena para encontrar com um cara com quem estava saindo. “Assim que ele entrou no meu apartamento, foi direto para o banho e colocou a roupa para lavar”, diz. “Ficamos três dias sem sair de casa.” Cinco semanas depois, Gisele afirma preferir seguir à risca o confinamento. Pelo celular, são muitas as propostas para escapar da tela e ir para o mundo real. “Teve gente que até sugeriu de transarmos com máscara e luvas, acredita?”.

Não só acredito, como decidi checar qual seria o risco de transmissão da Covid-19 nesse caso. Liguei para um infectologista e um médico sanitarista e ambos disseram que, mesmo sem beijos, com luvas e máscaras, ele é considerável. A mudança de posição, a respiração ofegante e o contato entre os rostos podem levar à contaminação.

Mas o que mais me impressionou, conversando com Gisele, outros amigos e também com amigos de amigos solteiros para esta reportagem foi perceber que não são poucas as pessoas que têm desrespeitado a ordem de distanciamento social para uma ou mais noites de sexo.

Esse é o caso do advogado Celso Francisco Massarioli de Lima, 33 anos, que, desde o início da quarentena, já se encontrou com duas pessoas. “Foram ao todo cinco dates,mas sempre mantendo as normas de higiene necessárias: tirar os sapatos ao entrar na casa, tomar banho, caprichar no álcool gel”, justifica ele. Os encontros são frutos de investidas em aplicativos de relacionamento. Mas alguns, diz Massariolli, não aconteceram. “Teve uma pessoa que estava de quarentena porque havia passado pelo aeroporto. Achei melhor não arriscar.” Ainda assim, o advogado acredita que continuará com os encontros. “Estou transando com álcool gel no criado-mudo”, avisa.

A professora carioca Roberta Rodrigues, de 46 anos, tem uma postura bem diferente. “Levo o confinamento a sério e só tenho saído de casa em último caso. A quarentena precisa de um esforço coletivo e maciço para funcionar. Não quero quebrar essa corrente. Ainda tem muito sexo bom pela frente. O importante agora é sobrevivermos”, afirma. Nessa perspectiva, Roberta passa os dias dando aulas de inglês para os alunos, interagindo com amigos, peguetes e parentes de forma on-line. “Quem está sozinho lida com a solidão. Mas quem está morando junto também deve estar sonhando com momentos de solitude. É fácil pensar que os casais têm algo que você não tem, mas para que perder tempo se comparando com os outros numa hora em que só o que a gente tem a fazer é olhar para dentro?” questiona ela.

Além de dar aulas de inglês, a carioca trabalha na Osada, sua própria marca de pasties (aqueles adesivos de mamilos que se tornaram febre no carnaval, sabe?) e, durante o feriado da Páscoa, resolveu trabalhar a autoestima customizando um coelhinho de paetês para fazer uma selfie, digamos, mais ousada. “Foi legal tirar o pijama e viver um momento de bom humor. Está sendo um período para repensar o corpo, as escolhas de parceiros e o que é importante para mim de verdade.”

Repensar, descobrir, experimentar… Muitas mulheres estão seguindo esses mandamentos aqui no Brasil, com o passar dos dias de isolamento dos que podem ficar em casa. E isso, aos poucos, vai se transformando em números, estatísticas. O Sexlog, maior rede social adulta do país, registrou uma mudança no percentual dos perfis. Antes da pandemia, a fração de mulheres cadastradas era de 7 a 10% (casais correspondiam a 40% e homens, de 50 a 53%). Um mês após o início do confinamento, o número de inscritas saltou para 13%. Cresceu também o percentual de telespectadoras de vídeos eróticos na rede. “Antes, as mulheres entravam mais para se exibir do que para consumir”, explica Mayumi Sato, diretora de marketing da plataforma, de 37 anos. Com o avanço do distanciamento social, até ela, uma solteira (quase) convicta, decidiu juntar (provisoriamente) os trapos.

Depois de um namoro de nove anos com o músico João Fabio, de 39, Mauymi, que mora em Bauru, no interior de São Paulo, decidiu se unir ao rapaz que vivia na capital. “Ele estava terminando uma turnê e ainda iria procurar uma casa para alugar. Achei melhor ele vir direto para minha e nem passar por São Paulo, onde já havia várias casos. Não pretendíamos morar juntos mas está dando certo.” Os dois, no entanto, encaram o momento como transitório. “João irá para outra casa assim que a rotina voltar ao normal. Há momentos em que me empolgo, mas ele fala que quando colocar o primeiro pôster na parede, vou mandá-lo embora (risos). A gente se ama, mas prefiro um lugar só meu”, reforça a executiva.

Eu também! Mas confesso que encarar a pandemia home alone não é tarefa fácil...

*Luciane Angelo é jornalista, sexóloga formada em terapia tântrica e colunista da Vogue Brasil

Sex and the city

No final de março, a prefeitura de Nova York, cidade mais afetada pelo coronavírus no mundo, emitiu um manual de conduta sexual em tempos de Covid-19. Confira as principais regras:

- Você é seu parceiro sexual mais seguro. A masturbação não espalhará Covid-19, especialmente se você lavar as mãos (e seus brinquedos sexuais) com água e sabão por pelo menos 20 segundos, antes e depois do ato.

- Ainda temos muito a aprender sobre a Covid-19 e o sexo. Embora não tenha sido encontrado no sêmen e no fluido vaginal, o novo coronavírus foi encontrado nas fezes de pessoas infectadas. Portanto, evite beijo grego (no ânus).

- Ter contato próximo — incluindo sexo — com apenas um pequeno círculo de pessoas ajuda a evitar a propagação da Covid-19. Evite sexo com alguém fora de casa.

- Se você faz sexo com outras pessoas, tenha o mínimo possível de parceiros e considere fazer uma pausa nos encontros pessoais.

- Lavar-se antes e depois do sexo é mais importante do que nunca.

- Desinfecte teclados e telas sensíveis ao toque que você compartilha com outras pessoas (para bater papo por vídeo, para assistir a pornografia ou qualquer outra coisa).