Endometriose: 'sinto como se meu útero estivesse pegando fogo'

Megan Morgan sorrindo para a câmera. Ela está vestindo um casaco amarelo e uma camiseta listrada
Megan Morgan foi diagnosticada com endometriose durante pandemia de covid-19

Cólicas menstruais intensas, dores nas relações sexuais, dor e sangramento intestinais e urinários durante a menstruação e até infertilidade. Esses são alguns dos sintomas da endometriose, uma condição que afeta uma em cada 10 mulheres.

Recentemente, a cantora Anitta relatou nas redes sociais que sofre de endometriose. A artista disse sentir dores há nove anos e falou que se submeterá a uma cirurgia após ser diagnosticada com a doença.

Ela não especificou a data, mas disse que o procedimento já está agendado e teve "que cancelar muita coisa" na agenda dela, já que, após a cirurgia, "não pode fazer muito esforço por um mês".

Em média, as mulheres levam oito anos para receber o diagnóstico. Um número que, de acordo com a ONG Endometriosis UK, que oferece apoio a quem tem endometriose, não mudou em uma década.

Não há causa conhecida ou cura para a doença.

Mas como é realmente viver com essa condição?

Duas mulheres compartilham, abaixo, sua história com a BBC no mês de conscientização sobre a endometriose.

O que é endometriose?

- É quando um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce em outras partes do corpo — geralmente ao redor dos órgãos reprodutivos, intestino e bexiga;

- Como o revestimento do útero, o tecido se acumula a cada mês e depois sangra;

- No entanto, ao contrário de uma menstruação, não há como o sangue sair;

- O acúmulo de sangue preso pode resultar em lesões internas e tecido cicatricial;

- Algumas mulheres não apresentam sintomas, mas para muitas outras a dor pode ser debilitante e a condição pode levar à infertilidade;

- Atualmente, não há uma causa conhecida ou cura.

Megan Morgan, que mora em Bristol, no oeste da Inglaterra, foi diagnosticada com a doença em 2021 depois de sentir dor fora do período menstrual, algo que nunca havia acontecido antes.

Ela conta que teve uma crise tão forte numa noite que acordou com uma dor incapacitante no útero e nos ovários. Naquele dia, pensou que estava tendo uma hemorragia.

A jovem de 26 anos diz que se consultou com uma médica mais velha, que a fez sentir que estava "enlouquecendo", depois de tentar dizer que os sintomas que Megan sentia eram "normais".

Megan Morgan sentada em uma montanha, olhando por cima do ombro para a câmera. Ao longe, é possível ver arbustos e o mar
Megan Morgan disse que sentiu uma dor tão forte numa noite que acordou pensando que estava com hemorragia

"Apenas chorei na frente dela e depois ela disse: 'olha, acho que podemos fazer alguns exames, se você insistir'", lembra.

"Comecei a pensar que talvez ela estava certa, que talvez aquilo fosse normal e que talvez devesse sentir tanta dor", acrescenta.

Foi após os exames que ela foi diagnosticada com endometriose.

Estoma e infertilidade

Megan, que também sofre de colite ulcerativa, uma doença de longo prazo que provoca inflamação do cólon e do reto, disse que uma das partes mais difíceis do diagnóstico foi ver sua saúde deteriorar e aprender a aceitar uma nova realidade.

"Quando fui diagnosticada com colite ulcerativa, me senti muito sozinha. Tinha 20 anos e era a pessoa mais doente que conhecia."

"Conheci pessoas que passaram pelo luto na minha idade, mas elas não tiveram a dor de perder a saúde."

Megan diz que, quando foi diagnosticada com endometriose, sabia como "a jornada seria" e imediatamente começou a fazer terapia.

"Em algum momento, por causa da colite ulcerativa, talvez eu precise fazer uma ostomia (procedimento cirúrgico que consiste na abertura de um órgão oco). Com endometriose, posso me tornar infértil ou precisar remover partes do meu útero e ovários", acrescenta.

Apesar disso, Megan, que está fazendo doutorado em endometriose e dor crônica, diz que sua maior preocupação é como a condição pode limitar seu futuro.

Victoria Hatton, de Churchdown, no condado de Gloucestershire, no oeste da Inglaterra, passou a tomar pílula anticoncepcional aos 14 anos, depois que seus ciclos menstruais a deixaram fisicamente doente.

"Não ajudou", diz ela.

Ela diz que foi várias vezes ao médico, reclamando de dores nas pernas e nas costas antes de sua menstruação. Porém, continuou ouvindo se tratar apenas de um "estiramento muscular".

Victoria conta que a falta de conhecimento e os sintomas da endometriose a fizeram questionar se ela estava exagerando e se os sintomas eram todos de sua cabeça.

"Sempre tinha dores nas costas e nas pernas; ficava doente com a dor. A parte superior das minhas costas e pescoço doíam".

'Por mim mesma'

Victoria acabou sendo diagnosticada com a doença aos 19 anos, após uma laparoscopia, uma cirurgia na qual uma câmera é inserida na pélvis por meio de um pequeno corte perto do umbigo. O procedimento indicou um tecido de endometriose em seu diafragma.

Na época, ela sabia muito pouco sobre a doença; só conhecia uma outra pessoa com endometriose. Ouviu dizer que poderia se tornar infértil.

"Não conhecia nada sobre endometriose", disse. "Me senti muito sozinha. Não fui a nenhum grupo de apoio porque não havia nenhum por perto."

Após sua última cirurgia, em agosto de 2021, Victoria, ao lado de uma amiga, decidiu criar um grupo de apoio à endometriose em sua cidade.

Elas esperam começar as reuniões presenciais em agosto de 2022.

Victoria acrescenta ser importante que "pessoas tão jovens saibam que existe apoio lá fora" e que "elas podem conversar com o médico de família sem sentir que estão levando um problema desnecessário a ele".

- O texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62131855

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