Enem 2020: alunos que tiraram nota mil na redação dão dicas para conseguir o texto perfeito

Bruno Alfano
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André Teixeira / André Teixeira

RIO — Não há receita para garantir uma nota mil na redação do Enem, mas algumas dicas podem ajudar a ter um bom resultado no próximo domingo (17), quando está marcada a primeira etapa do exame na versão impressa. Alunos que já conseguiram essa façanha contam que é preciso muito treino, correções e repertório com boas referências para impressionar os corretores.

— Eu tentava fazer pelo menos uma redação por semana, tinha semanas que conseguia, mas outras, não. Sempre comparava uma redação com a outra pra melhorar meus erros mais constantes e pedia para os professores avaliarem o que podia melhorar. Me baseava em temas passados e nos temas propostos pela apostila do AZ — afirma Caroline Baptista Machado, de 19 anos, que conseguiu a nota mil em 2019.

Ela conta que, na hora da prova, decidiu começar o exame pela redação para conseguir ter mais ideias, e a cabeça estar mais descansada.

— Fiz primeiro o rascunho, fui fazer algumas questões de linguagens e voltei para redação para ver os erros. Assim, consegui ter mais tempo para amadurecer a ideia do texto e ver erros que antes não tinha percebido — afirma a jovem.

A aluna Isabel Petrenko, de 20 anos, também conseguiu a marca. Ela diz que o que fez chegar ao resultado foi praticar muito aliada a certa facilidade de escrever. A jovem criou uma cartilha (acesse aqui) com 30 textos que tiraram nota mil.

— O principal é desenvolver uma estrutura própria. Uma maneira que você se identifica, que tenha a ver com a sua forma de escrever e que possa ser aplicado em qualquer tema — diz a ex-aluna do pH. — A redação era a primeira coisa que eu fazia. Li o tema e os textos motivadores. A partir disso, montava um "mapa mental" objetivo e claro com a minha estrutura: 1) repertório sócio-cultural (o que usar como interdisciplinaridade?); 2) introdução; 3) argumento 1; 4) argumento 2; e 5) conclusão.

Depois disso ficava fácil. Bastava começar a escrever e desenvolver o tema!

Já Juliana Souza do Espirito Santo, de 18 anos, conta que leu muitas redações que tiraram nota mil de anos anteriores para atingir esse resultado.

— Sempre me mantive atualizada acerca dos aspectos culturais, sociais, políticos e econômicos do país. Logo, ao obter esse conhecimento, o desenvolvimento dos mais diversos temas torna-se possível — afirma a ex-estudante do Colégio AZ.

A educadora Andrea Ramal preparou seis dicas para os alunos fazerem uma ótima redação no Enem:

Fazer primeiro o rascunho da redaçãoLer a redação com um certo distanciamentoSer preciso nas palavrasEvitar pleonasmos viciososManter o foco no tema propostoNão fazer generalizações

Exemplos de redação nota 1.000

Tema de 2019: “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”

"Para o filósofo escocês David Hume, a principal característica que difere o ser humano dos outros animais é o poder de seu pensamento, habilidade que o permite ver aquilo que nunca foi visto e ouvir aquilo que nunca foi ouvido. Sob essa ótica, vê-se que o cinema representa a capacidade de transpor para a tela as ideias e os pensamentos presentes no intelecto das pessoas, de modo a possibilitar a criação de novos universos e, justamente por esse potencial cognitivo, ele é muito relevante. É prudente apontar, diante disso, que a arte cinematográfica deve ser democratizada, em especial no Brasil – país rico em expressões culturais que podem dialogar com esse modelo artístico –, por razões que dizem respeito tanto à sociedade quanto às leis.

Em primeiro lugar, é válido frisar que o cinema dialoga com uma elementar necessidade social e, consequentemente, não pode ser deixada em segundo plano. Para entender essa lógica, pode-se mencionar o renomado historiador holandês Johan Huizinga, o qual, no livro “Homo Ludens”, ratifica a constante busca humana pelo prazer lúdico, pois ele promove um proveitoso bem-estar. É exatamente nessa conjuntura que se insere o fenômeno cinematográfico, uma vez que ele, ao possibilitar a interação de vários indivíduos na contemplação do espetáculo, faz com que a plateia participe das histórias, de forma a compartilhar experiências e vivências – o que representa o fator lúdico mencionado pelo pensador. É perceptível, portanto, o louvável elemento benfeitor dessa criação artística, capaz de garantir a coesão da comunidade.

Em segundo lugar, é oportuno comentar que o cenário do cinema supracitado remete ao que defende o arcabouço jurídico do país. Isso porque o artigo 215 da Constituição Federal é claro em caracterizar os bens culturais como um direito de todos, concebidos com absoluta prioridade por parte do Estado. Contudo, é desanimador notar que tal diretriz não dá sinais de plena execução e, para provar isso, basta analisar as várias pesquisas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN ) que demonstram a lamentável distribuição irregular das práticas artísticas – dentre elas, o cinema –, uma vez que estão restritas a poucos municípios brasileiros. Vê-se, então, o perigo da norma apresentada findar em desuso, sob pena de confirmar o que propunha Dante Alighiere, em “A Divina Comédia”: “As leis existem, mas quem as aplica?”.

Esse cenário, certamente, configura-se como desagregador e não pode ser negligenciado. Por fim, caminhos devem ser elucidados para democratizar o acesso ao cinema no Brasil, levando-se em consideração as questões sociais e legislativas abordadas. Sendo assim, cabe ao Governo Federal – órgão responsável pelo bem-estar e lazer da população – elaborar um plano nacional de incentivo à prática cinematográfica, de modo a instituir ações como a criação de semanas culturais nacionais, bem como o desenvolvimento de atividades artísticas públicas. Isso pode ser feito por meio de uma associação entre prefeituras, governadores e setores federais – já que o fenômeno envolve todos esses âmbitos administrativos –, os quais devem executar periódicos eventos, ancorados por atores e diretores, que visem exibir filmes gratuitos para a comunidade civil. Esse projeto deve se adaptar à realidade de cada cidade para ser efetivo. Dessa forma, o cinema poderá ser, enfim, democratizado, o que confirmará o que determina o artigo 215 da Constituição. Assim, felizmente, os cidadãos poderão desfrutar das benesses advindas dessa engrandecedora ação artística."

Tema de 2018: “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”

"Em sua canção “Pela Internet”, o cantor brasileiro Gilberto Gil louva a quantidade de informações disponibilizadas pelas plataformas digitais para seus usuários. No entanto, com o avanço de algoritmos e mecanismos de controle de dados desenvolvidos por empresas de aplicativos e redes sociais, essa abundância vem sendo restringida e as notícias, e produtos culturais vêm sendo cada vez mais direcionados – uma conjuntura atual apta a moldar os hábitos e a informatividade dos usuários. Desse modo, tal manipulação do comportamento de usuários pela seleção prévia de dados é inconcebível e merece um olhar mais crítico de enfrentamento.

Em primeiro lugar, é válido reconhecer como esse panorama supracitado é capaz de limitar a própria cidadania do indivíduo. Acerca disso, é pertinente trazer o discurso do filósofo Jürgen Habermas, no qual ele conceitua a ação comunicativa: esta consiste na capacidade de uma pessoa em defender seus interesses e demonstrar o que acha melhor para a comunidade, demandando ampla informatividade prévia. Assim, sabendo que a cidadania consiste na luta pelo bem-estar social, caso os sujeitos não possuam um pleno conhecimento da realidade na qual estão inseridos e de como seu próximo pode desfrutar do bem comum – já que suas fontes de informação estão direcionadas –, eles serão incapazes de assumir plena defesa pelo coletivo. Logo, a manipulação do comportamento não pode ser aceita em nome do combate, também, ao individualismo e do zelo pelo bem grupal.

Em segundo lugar, vale salientar como o controle de dados pela internet vai de encontro à concepção do indivíduo pós-moderno. Isso porque, de acordo com o filósofo pós-estruturalista Stuart-Hall, o sujeito inserido na pós-modernidade é dotado de múltiplas identidades. Sendo assim, as preferências e ideias das pessoas estão em constante interação, o que pode ser limitado pela prévia seleção de informações, comerciais, produtos, entre outros. Por fim, seria negligente não notar como a tentativa de tais algoritmos de criar universos culturais adequados a um gosto de seu usuário criam uma falsa sensação de livre arbítrio e tolhe os múltiplos interesses e identidades que um sujeito poderia assumir.

Portanto, são necessárias medidas capazes de mitigar essa problemática. Para tanto, as instituições escolares são responsáveis pela educação digital e emancipação de seus alunos, com o intuito de deixá-los cientes dos mecanismos utilizados pelas novas tecnologias de comunicação e informação e torná-los mais críticos. Isso pode ser feito pela abordagem da temática, desde o ensino fundamental – uma vez que as gerações estão, cada vez mais cedo, imersas na realidade das novas tecnologias – , de maneira lúdica e adaptada à faixa etária, contando com a capacitação prévia dos professores acerca dos novos meios comunicativos.

Por meio, também, de palestras com profissionais das áreas da informática que expliquem como os alunos poderão ampliar seu meio de informações e demonstrem como lidar com tais seletividades, haverá um caminho traçado para uma sociedade emancipada."