Enem 2020: entenda como funciona o método TRI, usado na correção do exame

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Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

RIO - A correção do Enem é mais complexa do que a contagem de questões corretas. Na verdade, ainda que dois estudantes somem a mesma quantidade de respostas certas, a nota deles pode ser completamente diferente. Isso porque ela é corrigida com um sistema chamado Teoria de Resposta ao Item (TRI).

Isso acontece porque o sistema não se baseia apenas no número de questões certas. Formulada a partir de um modelo estatístico, a metodologia de correção procura conhecer também a coerência pedagógica dos candidatos.

Ao contrário da correção tradicional, que vai de 0 a 10 e dá um ponto cheio a cada acerto, o TRI trabalha com pesos diferentes entre as questões, média nacional e com o comportamento das respostas do candidato.

Por isso, é impossível prever a nota mesmo com o gabarito da prova. No entanto, há alguns sistemas que conseguem estimar quanto você pode tirar baseado nos resultados dos últimos anos. Um deles foi criado pela Evolucional, startup especializada em avaliações e uso de dados para educação, e chama-se Radar Enem (acesse aqui).

Todas as questões são testadas previamente e ganham pesos diferentes de acordo com a sua dificuldade. A prova é elaborada de forma que a sua média de pontos nacionalmente tenha uma previsão de 500 pontos.

Cada vez que um aluno acerta mais questões do que a média nacional, ele vai crescendo sua pontuação e se distanciando dos 500 pontos. E o contrário também acontece com notas mais baixas para aqueles que erram mais que a média nacional.

O TRI pode tirar peso de uma das questões (mas não zerá-la) se perceber que o aluno chutou. O sistema mapeia o comportamento do aluno. Se ele acertar uma questão difícil sem ter acertado várias fáceis, o TRI vai entender aquilo como um chute. A premissa é a de que, se um candidato não sabe fazer uma conta de somar, ele não vai resolver uma questão que envolve multiplicação.

De acordo com Felipe Couto, professor de português e diretor pedagógico do colégio pH, uma pessoa que acertou 15 questões difíceis, mas errou 15 questões fáceis, terá o desempenho considerado incoerente.

— É aquilo que a gente conhece por chute — explica Couto.

Ele ressalta que é não é proibido chutar na prova, uma vez que o candidato não perde ponto caso responda uma questão de forma aleatória:

— O que vai acontecer é que a pontuação dele não vai ser igual a de um candidato cujo desempenho pedagógico tenha sido mais coerente.

Ou seja, se deixar a questão em branco, o candidato estará tirando de si mesmo a possibilidade de ganhar alguma pontuação por ela. Pode não ser a mesma pontuação de outro candidato que teve um desempenho mais coerente, mas ela existe.

O professor considera que a melhor estratégia para lidar com o TRI é tentar resolver sempre as questões mais fáceis. São essas que garantirão pontos ao candidato.

Outro motivo de dúvidas é a impossibilidade de tirar "nota mil", mesmo que o vestibulando gabarite uma área do conhecimento. Couto explica que o limite de ponto em cada área de conhecimento varia dependendo do nível de dificuldade das questões e do modo como o estudante lida com elas.

— Portanto, o mínimo e o máximo para cada área avaliada não podem ser pré-fixados — explica ele. — A redação é a única prova que tem uma pontuação definida, no caso ela vale de 0 a 1000 pontos.

Embora complexo e por vezes confuso, o TRI é uma forma de diminuir a influência dos acertos ao acaso e garantir uma avaliação mais justa. É o que defende Wesley Salvaterra, cofundador do LS Enem. Ele afirma também que a metodologia é ideal para provas com um grande número de participantes.

— Se houvesse uma pontuação fechada, haveria muitas pessoas com a mesma nota — diz ele.

Para chegar à prova preparado, ele sugere fazer simulados que usem o TRI como metodologia de correção. Além disso, os candidatos não devem deixar nenhuma questão de lado, inclusive as mais "cabeludas":

— Como a tendência é que elas valham mais, o interessante é não abandonar as questões difíceis.