Enem 2020: sob pressão, Inep mantém exame neste mês e preocupa famílias de candidatos

Bruno Alfano e Raphael Kapa
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Leandro Ferreira/Fotoarena/Agência O Globo / Leandro Ferreira/Fotoarena/Agência O Globo

RIO -O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), marcado para começar no próximo domingo, acontecerá presencialmente, em meio a um novo pico da Covid-19 no Brasil, apesar da pressão de infectologistas, associações científicas e estudantes por um novo adiamento da prova, que ocorreria em novembro passado.

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) não pretende mudar as datas dos exames — que acontecem presencialmente nos dois próximos domingos, e virtualmente nos dois domingos seguintes —, mesmo após perder um diretor para a doença.

Morreu ontem, aos 59 anos, em Curitiba, Carlos Roberto Pinto de Souza, diretor de Avaliação da Educação Básica, responsável pela realização do Enem. O GLOBO confirmou com fontes ligadas ao diretor que ele morreu após contrair o coronavírus. O Inep não informou a causa.

Na avaliação do médico Ricardo Schnekenberg, pesquisador da Universidade de Oxford que fez parte do grupo de resposta do Imperial College analisando dados do Brasil no ano passado, a manutenção da data é um “absurdo do ponto de vista sanitário”.

— Quem vai realizar uma prova tão importante, vai acordar com tosse seca e cansada e não vai fazer o exame? Fora o risco dos assintomáticos — afirmou, em entrevista ao GLOBO, na semana passada. — E como isolar os grupos de risco em casa se os filhos e netos estão indo fazer o Enem?

Esse dilema vai tirar Victória Raposo Gallo, 19 anos, da prova. A moradora de Teresópolis vive com a mãe, hipertensa de 52 anos, e não fará o exame caso ele não seja adiado.

— Mais vale entrar numa universidade mais tarde do que arriscar a vida da minha mãe — diz.

O vestibular da Fuvest, realizado anteontem, comprovou que este é um ano atípico. A taxa de abstenção na prova, principal meio de ingresso na Universidade de São Paulo (USP), foi de 13,2%, contra 7,9% do ano passado. As medidas de segurança eram similares às do Enem, como obrigatoriedade de máscaras e distanciamento social.

Daniela Santiago, de 47 anos, tem dois filhos inscritos no Enem. Ela também teme que os estudantes se contaminem e levem a doença para casa:

— É óbvio que deveria ser adiado. Estamos de quarentena há quase um ano e agora eles têm que ir se expor num momento perigoso.

Na última semana, a Defensoria Pública da União fez um pedido à Justiça para que o Enem não ocorra em janeiro.

— Quem disse que não tem segurança sanitária para a aplicação da prova são as autoridades científicas — afirma João Paulo Dorini, defensor público federal autor da ação.

Também defenderam o adiamento, na última sexta-feira, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, com outras 44 entidades científicas, em uma carta aberta endereçada ao ministro da Educação, Milton Ribeiro.

Segundo o grupo, é quase “unânime a previsão de que haverá um salto (de casos) nas próximas semanas como resultado da grande exposição recente”, no fim de ano.

Segundo Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, o Enem, com 5,7 milhões de inscritos, tem potencial de se tornar um evento de supercontaminação da Covid-19.

— O exame mobilizará milhões de pessoas, com a possibilidade de aglomerações, além de deixar os candidatos fechados dentro de uma sala durante horas. É impossível garantir segurança total, mesmo com todas as medidas propostas. O ideal seria suspender momentaneamente a prova.

Em nota, o Inep afirma que foram estabelecidas regras específicas para reduzir aglomerações, que R$ 64 milhões estão sendo destinados às medidas de prevenção, como compra de álcool em gel, e que a ocupação das salas será de 50%, para manter o distanciamento entre candidatos.

Adaptações

Países como Índia, China, França, Reino Unido e Estados Unidos cancelaram avaliações nacionais de ingresso no ensino superior por conta da Covid-19. Nos EUA, universidades importantes como Harvard e Columbia estão alterando seus modelos de seleção por conta da pandemia. A nota do SAT (prova similar ao Enem, mas aplicada sete vezes ao ano) não é mais requisitada. Por outro lado, aspectos como entrevista e cartas de recomendação passaram a ser mais valorizados.

No Brasil, Solón Caldas, diretor da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior, afirma que um novo adiamento do Enem vai causar “consequências terríveis”.

— Segundo uma pesquisa da associação, 70% dos alunos que pretendem ingressar no primeiro semestre vão aguardar o resultado do Sisu (ou seja, se entraram em uma universidade pública) para tomar a decisão de se matricular ou não em uma privada — afirma Caldas. — Isso significa que nós não vamos ter ingressantes no primeiro semestre.

Já a Associação Nacional de Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior afirmou que não se manifesta sobre a data do Enem, mas que é preciso garantir “condições de biossegurança dos candidatos e profissionais envolvidos”.