Enem 2020: veja uma redação modelo sobre o desafio de diminuir desigualdade regional no Brasil feita por professora

O Globo
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Paulo Guereta/Photo Premium/Agência O Globo

RIO — O tema da redação do Enem Digital 2020 foi "O desafio de diminuir a desigualdade entre regiões no Brasil". A professora de redação Carolina Pavanelli, diretora pedagógica da Plataforma de Ensino Eleva, escreveu um texto modelo com base na proposta.

Modernismo atualizado

Na segunda década do século XX, um movimento cultural brasileiro ficou marcado por buscar entender o Brasil como ele é, e não como, de forma reduzida e superficial, vinha sendo tratado até então. O Modernismo, com destaque para a segunda frase, deixou como legado obras artísticas diversas, da Bahia de Jorge Amado ao Rio de Janeiro de Vinícius de Moraes. No entanto, apesar do evidente holofote gerado pelo movimento, essa diversidade do país está longe de ser um fato celebrado e valorizado por todos. Ela, na realidade, se configura em inúmeras desigualdades, sendo a regional uma delas, dadas as proporções geográficas continentais do nosso país.

Em primeiro lugar, pode-se evidenciar uma herança histórica cruel. Sabe-se que, desde o seu descobrimento, o Brasil foi ocupado a partir do litoral, fazendo com que essa parte do país fosse mais povoada e recebesse mais investimentos, além de ser também a mais industrializada. E isso não mudou de lá para cá, apenas se intensificou, como comprova uma pesquisa do IBGE que mostra que a renda per capta do Sudeste, a região mais desenvolvida, é cerca de três vezes maior do que a do Nordeste. Assim, reforça-se um abismo construído ao longo de séculos, e que não parece ser do interesse das elites detentoras do puder mudar, relegando boa parte do interior do nosso país a uma posição de coadjuvante sem muito destaque.

Além disso, é bastante evidente como a mídia possui um papel relevante nesse reforço de desigualdades. Não é muito difícil notar que a grande maioria dos produtos audiovisuais, como novelas e filmes, produzidos em nosso país têm como cenário as grandes metrópoles Rio de Janeiro e São Paulo. Quando a Bahia, por exemplo, é o contexto da obra, é comum que ela seja retratada de forma estereotipada, com foco apenas nas belezas naturais e em alguns traços identitários, como o sotaque, como se isso fosse capaz de resumir o lugar em questão e sem levar em consideração pautas sociais de extrema urgência e importância. Assim, em um país tão imenso e diverso, constrói-se uma ideia reduzida do Brasil para os próprios brasileiros.

Portanto, fica claro que a desigualdade regional no Brasil se dá por fatores bastante enraizados e já naturalizados em nossa sociedade. Por isso, são necessárias ações conjuntas e intensas para dirimir o problema. Uma boa forma para tal seria o Ministério da Educação, em parceria com entidades midiáticas, inserir nos currículos escolares e em campanhas o destaque para a diversidade regional brasileira longe de estereótipos e visões preconceituosas pré-definidas, a fim de diminuir preconceitos e dar luz a questões relevantes. Isso poderia ser feito por meio do estudo e da manifestação não só de questões sociais que merecem ênfase, mas também da riqueza de cada área brasileira e do quanto cada uma é responsável por construir quem somos. Assim, poderíamos, de fato, retornar aos ideais modernistas originais, e valorizar a multiplicidade que só o Brasil tem.