Enem 2021 não teve cara do governo, mas deixou lições

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BRAZIL - 2020/10/29: In this photo illustration the Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) logo seen displayed on a smartphone. (Photo Illustration by Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)
Foto: Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket (via Getty Images)

A história da censura no Brasil é a história da burrice contra a inteligência.

Cineastas contam que, no auge da ditadura, puxavam conversa com os censores em momentos do filme que, sabiam eles, poderiam ser vetados. A conversa distraía o funcionário, que acabava deixando passar batida a cena com potencial de “gerar polêmica desnecessária” — expressão que ganhou atualização com a notícia de que um grupo sugeriu cortes e ajustes em edições recentes do Enem para não ferir a sensibilidade de Jair Bolsonaro.

Na tentativa de evitar escândalos, causaram outro. Burrice, lembra?

Da mesma forma, as lupas da censura não conseguiram impedir, nos anos 1960 e 1970, algumas indiretas que compositores emplacavam em suas canções. Chico Buarque neste quesito era o Garrincha da música. Em notas, driblava os generais fingindo que cantava para o futuro sogro versos como “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. Ou que “apesar de você” se referia a um amor não correspondido. Como profetizado, os alvos das letras engoliram a seco quando viram um jardim florescer qual não queriam.

Na semana passada, dias antes da aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio, Bolsonaro mostrou os cravos da chuteira e anunciou que finalmente a prova teria a cara desse governo. Manifestou ali antes um desejo do que um comunicado oficial. Um comunicado que exigiu recuo e eufemismos até por parte de Milton Ribeiro, seu ministro da Educação que correu para dizer que a nova fisionomia incorporava uma honestidade não existente em outras edições do exame. Balela.

Quem prestou vestibular e esperava responder perguntas do tipo qual filho do presidente era mais bonito encontrou uma prova, quem diria, normal e equilibrada —nada a ver com as estripulias do capitão. O que não era normal era o terror lançado pelo presidente —que, a exemplo de seus sabujos, andou quieto durante o domingo. Talvez por contrariedade.

Ou talvez porque, ao ultrapassar a linha, ou manifestar o desejo de, concluiu ou foi alertado de que poderia responder a uma nova acusação de crime de responsabilidade.

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Entre as autoridades competentes, aquelas que estão na linha de frente da sala de aula tentando criar alguma possibilidade de futuro, foi unânime a impressão de que a pedagogia venceu a intromissão política —aqui empregada no mau sentido, porque ao exame não cabe agradar o governo A ou B.

Questões sobre invisibilidade e acesso à cidadania, tema da redação, e perguntas sobre desigualdade de gênero, racismo e exploração de terras indígenas mostraram que a caravana passou, mesmo com os latidos mais ferozes.

Não foi por falta de tentativa.

Quem procurava a feição deste governo de ignorantes ali não encontrou. Mas certamente riu por dentro da ironia de ver nas páginas uma menção à música-hino “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho, para tratar da passividade da população. Passividade que passou longe da prova e do brio dos servidores que se demitiram para expor a suspeita de ingerência.

Talvez com os anos as pessoas se lembrem da menção ao povo marcado e povo feliz como lembramos hoje das homenagens de Chico Buarque e companhia aos responsáveis pelas páginas mais infelizes da nossa história. Como o SUS, o Inep mostrou resiliência aos ataques em curso. Até quando vai resistir sem envergar? 

Em tempo. O governo não conseguiu (ainda) acabar com o exame, mesmo tendo à frente um ministro que descaradamente diz que faculdade boa é faculdade para poucos. Mas esforço não faltou. A taxa de abstenção no primeiro dia de prova foi de 26%. O índice é ainda mais preocupante levando-se em conta a queda no total absoluto de candidatos e a redução, mais especificamente, da participação de pessoas negras e indígenas, que caiu 50% em relação à prova do ano passado. 

Em tempo 2. Semana passada escrevemos por aqui que os oponentes das prévias do PSDB pareciam caminhar para um enterro ao som de marcha fúnebre. Errado. Estavam caminhando para uma pane, e uma pane eletrônica que precisou suspender o processo de votação. Num dia de ironias, ficou escancarada a dificuldade dos candidatos do partido se colocarem no jogo em 2022 como os áulicos da modernização do país.

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