Enem 2021: veja uma redação modelo sobre 'invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil'

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RIO — O Enem 2021 teve como tema da prova de redação "Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil". Os professores de Redação da Plataforma AZ David Gonçalves e Marina Rocha escreveram um texto modelo com base na proposta.

Leia abaixo:

Na canção “Alegria, Alegria”, Caetano Veloso descreve uma caminhada em direção à autonomia e à resistência perante a dura realidade da Ditadura Militar. No trecho “caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento”, o cantor exalta a liberdade de não estar preso a uma identidade. Apesar de coerente com a mensagem proposta pela música, é possível afirmar que a situação retratada se apresenta como um problema na realidade, visto que mais de 3 milhões de brasileiros não possuem registro civil e, por isso, são excluídos da prática cidadã. Nesse sentido, é preciso analisar as dimensões social e cultural da questão para que se encontrem as intervenções adequadas.

É preciso reconhecer que a falta de registro civil é um sintoma de outro problema social mais complexo: a desigualdade. O Brasil é fruto de um passado histórico baseado em políticas públicas que pouco assistiram os mais pobres. Consequentemente, a desigualdade social é uma realidade inquestionável no país e marginaliza uma fatia pobre da sociedade, que não é devidamente registrada. Isso, por sua vez, faz com que ela esteja totalmente invisível aos olhos do Estado, o que impede a realização de processos básicos a uma vida digna, como trabalhar, votar e estudar. O exercício da cidadania, nesse sentido, é apenas um vislumbre àqueles que sequer existem para um Brasil que sempre fingiu não os enxergar.

Além disso, a invisibilidade da própria discussão é outro fator que explica esse cenário. Tendo em vista que, de acordo com o jornalista Gilberto Dimenstein, só é possível haver opção mediante o acesso à informação, parcela significativa da sociedade não intervém no problema em função de seu desconhecimento a respeito da relevância do debate. A retirada de documentação é tão comum à vida cotidiana de tantos brasileiros, que muitos sequer consideram a hipótese de que a falta de registros simples, como identidade e CPF, pode causar profundo comprometimento social e impedir a ascensão de pessoas. Do mesmo modo, a mídia pouco alerta para essa condição e seus impactos. Diante disso, enquanto a premissa de Dimenstein não for assimilada, a passividade dos indivíduos continuará impedindo a resolução de mazelas sociais graves do país.

Torna-se evidente, portanto, que o problema é grave e deve ser combatido. Para isso, é essencial que o governo crie políticas públicas direcionadas à população marginalizada para garantir acesso à emissão de registro civil desse grupo. Associado a isso, a mídia – já que também possui uma responsabilidade social – deve criar campanhas de conscientização acerca dessa realidade. Isso pode ocorrer por meio de reportagens, podcasts e até mesmo novelas que tratem do drama desses brasileiros. Essa medida tem o objetivo de tornar o debate visível e, com isso, estimular que a sociedade reflita acerca da importância de mudar esse contexto. Afinal, sair sem lenço e sem documento é uma imagem de liberdade apenas em canções como “Alegria, Alegria”, pois, na prática, trata-se simplesmente de uma condição de subcidadania.

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