Enem 2022: excesso de interpretação e pouco fato histórico se devem ao esvaziamento do banco de itens, dizem especialistas

Entre os muitos comentários sobre o primeiro dia do Enem, realizado no último domingo, um dos principais pontos defendidos por estudantes foi a preponderância de questões interpretativas e poucas perguntas envolvendo fatos históricos na prova de ciências humanas. Apesar de não ser um vestibular conteudista, e sim marcado pela interdisciplinaridade, especialistas ouvidos pelo GLOBO apontam que a reclamação dos estudantes quanto ao grau de dificuldade dos textos e ao conteúdo mais restrito estão relacionados ao contingenciamento do Banco Nacional de Itens (BNI), que reúne questões testadas e aprovadas para entrarem em cada edição.

Uma das exigências do Enem, de acordo com Maria Helena Guimarães, presidente da Associação Brasileira de Avaliação Educacional (Abave) e ex-presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), é que o aluno tenha habilidade de interpretação de textos, a fim de que seu raciocínio crítico e lógico seja avaliado. Mesmo defendendo que a prova deste ano seguiu as mesmas características de anos passados, a especialista explica que falta de atenção do governo para com o Inep, órgão que realiza o Enem, gerou um vácuo de questões, que resultou em anos sem questões sobre ditadura militar e primeiros reinados no Brasil, por exemplo.

— É comum no Enem que nem todos os conteúdos de história, por exemplo, sejam apresentados. Porque as questões são interdisciplinares e se fundem os conteúdos, tornando a prova mais interpretativa. Mas é intrigante que temas importantes da história não sejam abordados. Ao mesmo tempo, é preciso ter em mente que na atual situação de desmonte do Inep no atual governo, os professores conseguiram abordar questões importantes mesmo com um banco de itens tão escasso — defende Maria Helena.

Depois de quatro anos sem produzir novas questões, o BNI, que reúne questões testadas e aprovadas para entrarem nas provas do Enem, não teve questões suficientes para a realização da prova de 2022. Para que a edição tivesse apenas questões inéditas, o Inep precisou consertar questões que foram descartadas em antigas testagens.

Entre os pontos positivos da edição, a presidente da Abave ressalta o debate sobre racismo estrutural, feminicídio, universalização de direito, apropriação de recursos naturais, saberes tradicionais, liberdade de expressão na Era Vargas, e o estado democrático de direito. Segundo Maria Helena, esses conteúdos precisam ser ensinados em sala de aula para além do seu conteúdo, a fim de que o aluno forme um pensamento crítico que o acompanhará na vida e no vestibular.

— Eu não acredito que o teor das questões deste ano vai interferir no desenvolvimento desses participantes. A cada ano o Enem tem demarcado mais seu estilo de prova, que deve ser reforçado positivamente no novo governo, com o desenvolvimento de equipes que se atentem às questões e preparem o novo exame para 2024.

Prova mais difícil

Especificamente na prova de história, o professor do Colégio Mopi Rafael Duarte avalia que as questões foram bastante conceituais, envolvendo memórias, patrimônios, museus e saberes tradicionais. Em sua análise, o exame seguiu o padrão de anos anteriores, com exceção do nível de dificuldade das questões. Creditando também a baixa quantidade de banco de itens, Rafael explica que esta edição foi marcada por extremos: ou as perguntas eram muito fáceis ou os alunos precisavam ler o mesmo texto inúmeras vezes para conseguir responder corretamente.

— Era Vargas é um dos assuntos que os estudantes mais gostam, e este ano teve uma pergunta sobre o Departamento de Imprensa e Propaganda que era bem conteudista. Mas, na maior parte da prova, os textos eram muito grandes e complexos, o que resultou, inclusive, em vários gabaritos extraoficiais com respostas distintas, porque até mesmo professores conceituados tiveram dificuldades. Haviam poucas questões de nível médio e a escassez de banco de itens é um dos motivos que leva a essa ausência de calibragem nas questões — afirma o professor.