Enem 2021: Questões citaram 'Vida de gado', Chico Buarque, indígenas e escravidão

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RIO - No Enem 2021 que teria "a cara do governo" segundo Bolsonaro, as questões trataram de temas que já foram alvo de críticas do presidente e de conteúdos que chegaram a ser censurados em edições anteriores do exame. Entre elas, havia pelo menos duas sobre a situação dos indígenas brasileiros, que abordavam o protagonismo dos povos originários e a relação deles com mineradoras, que são ameaças a áreas de reserva. A prova também problematizou o conceito de "minorias", com base em texto do filósofo Deleuze, e falou de escravidão e racismo pela música Sinhá, de Chico Buarque, opositor declarado do governo. Ao todo, pelo menos cinco questões foram sobre herança africana e escravidão.

Um dos versos de Sinhá diz: "Estava lá na roça/não sou de olhar ninguém/não tenho cobiça/nem enxergo bem/pra que me pôr no tronco/pra que me aleijar/eu juro a vosmecer/que nunca vi sinhá".

Ainda sobre escravidão e racismo, foi proposta uma análise a partir da publicidade de um negro foragido e e uma pergunta lembrava dos "tigres", escravos que eram obrigados a transportar excremento. Durante o período do Império, eram eles que recolhiam e despejavam urina e fezes de moradores da cidade, o que se estendeu por pelo menos 300 anos.

O cenário econômico não foi esquecido. Uma questão trouxe à discussão o capitalismo sob a ótica de Thomas Piketty, autor do livro "Capital e Ideologia". Também autor do best-seller "Capital do Século XXI", com milhões de cópias vendidas no mundo inteiro, Piketty faz críticas ao modelo, alertando para a necessidade de melhoria na distribuição de renda.

Além disso, críticas sociais foram exploradas a partir de músicas. Uma delas, "Comportamento geral", de Gonzaguinha, que traz a estrofe "Você deve estampar sempre um ar de alegria/e dizer: tudo tem melhorado/você deve rezar pelo bem do patrão/E esquecer que está desempregado". O mesmo conformismo foi lembrado com "Admirável mundo novo", de Zé Ramalho, que ficou famosa pelo bordão "vida de gado", curiosamente alcunha atribuída pela oposição a militantes boilsonaristas.

No entanto, temas atuais como pandemia de coronavírus, que já matou mais de 600 mil mortos no Brasil, e fome - recentemente o total de pobres ultrapassou a marca de 27 milhões de pessoas - foram ignorados. Ao entregarem os cargos, 37 servidores do Inep, responsável pela elaboração e aplicação do Enem, disseram que vinham sofrendo assédio moral da direção do órgão e que eram pressionados a ajustar o conteúdo da prova ao perfil ideológico do presidente.

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