Por que Enem deste ano não discutiu a Covid, o grande desafio da atualidade?

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People wearing face masks as a measure to prevent the spread of the coronavirus disease (COVID-19) are seen at a train station in Bangkok, Thailand November 29, 2021. REUTERS/Athit Perawongmetha
Foto: Athit Perawongmetha/Reuters

Quem prestou o Enem nos dois últimos finais de semana teve testada a capacidade de ler e interpretar os desafios do mundo pré-2019. O mundo que se remodelou dali em diante, sob o impacto da Covid-19, suas variantes e as medidas de isolamento, passou longe dos desafios da atualidade que pedem reflexão e conhecimento aos futuros universitários.

A ausência de perguntas sobre o assunto pode e deve acender o sinal de alerta. Dias atrás, Jair Bolsonaro chegou a prometer que o exame de 2021 teria finalmente a sua cara. Provocou rebuliço e precisou recuar, dizendo a apoiadores que o MEC é um transatlântico, que não pode dar nele um cavalo de pau, mas que muita coisa havia melhorado em relação a tempos recentes. Na cabeça do presidente, as edições anteriores do exame colocavam à prova apenas o ativismo dos estudantes. Uma grande balela.

Bolsonaro, de fato, não conseguiu seu sonhado cavalo de pau na Educação. Mas não esconde seus planos.

Se as questões levadas aos vestibulandos deste ano seguiram normas técnicas de equilíbrio e capacidade de testar habilidades e conhecimentos, elas evidenciaram também que os responsáveis por sua aplicação já rasparam o tacho do Banco Nacional de Itens. A ponto de não haver pergunta nova sendo elaborada já há algum tempo. E não qualquer tempo, mas um tempo atravessado pela grande crise sanitária da história. O banco de itens, segundo a definição do MEC, existe justamente para assegurar o acesso a itens de qualidade elaborados e revisados para cada instrumento de medição desenvolvido pelo Inep — o Enem, por exemplo.

Dias atrás, a revisa piauí revelou que uma comissão montada pelo ex-ministro Ricardo Vélez Rodríguez em sua gestão no Ministério da Educação se aboletou deste banco de itens e saiu distribuindo tarjas pretas e recomendações de censuras a perguntas que poderiam causar “polêmica desnecessária” no Enem de 2019. Uma música da Madonna e uma tirinha da personagem Mafalda entraram no índex.

Na véspera da aplicação do exame deste ano, 37 funcionários do Inep se demitiram, acusando o governo de ingerência indevida em seu trabalho. Ainda assim a prova seguiu. Seguiu porque o banco de itens é sólido e mesmo perguntas contestadas por eventuais grupos de censores podem ser substituídas por outras da mesma calibragem.

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Mas a ausência de questionamentos sobre a pandemia revela que este banco pode estar defasado. Assim como as ferramentas para reconstruir um mundo impactado pelo coronavírus. O antigo já não existe mais.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o professor da Faculdade de Educação da USP e dirigente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, afirmou que a falta de atualização do banco de itens já foi percebido em 2021 e coloca em dúvida a realização do exame em 2022. Isso, segundo ele, aumenta o risco de ingerência no conteúdo e até mesmo uma tentativa de privatizar o Enem.

Para Daniel Cara, o risco de os estudantes se depararem com uma “prova terraplanista” existe e precisa ser debelado. 

Caso contrário, em vez de apresentar aos futuros estudantes universitários um exame defasado, que deixou de fora um exercício de compreensão e reflexão sobre o maior desafio deste século, o risco é encontrar no gabarito teorias que relacionem vacina com doença e morte e a cura milagrosa pela cloroquina. Seria enfim uma prova com a cara do governo. A cara do negacionismo.

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