A enfermeira colombiana que sobreviveu ao vírus e voltou ao trabalho

Por Diego LEGRAND
Enfermeira colombiana Nancy Zárate posa em Bogotá para AFP em 7 de maio de 2020

Nancy Zárate pensou que morreria sozinha em um hospital de Bogotá. Ela ficou hospitalizada por uma semana antes de sobreviver à COVID-19, mas agora está de volta ao local onde pode ter contraído a doença para trabalhar como enfermeira.

O medo de um novo contágio anda de mãos dadas com vocação e necessidade. Em meio a um confinamento geral, seu marido arquiteto perdeu temporariamente o emprego.

Sendo "a única a manter a casa" e seus filhos de 19 e 16 anos, ela voltou a exercer a profissão que essa pandemia transformou de risco extremamente alto.

Cecilia Vargas, presidente da Associação Colegial de Enfermaria, acredita que "cerca de 40 ou 50%" dos 326.000 auxiliares e profissionais de enfermagem da Colômbia - 87% mulheres - são chefes de família.

Além disso, entre os profissionais de saúde, estes são os mais afetados pelo vírus, com 45% dos quase 500 casos detectados.

O país registra mais de 8.600 casos, com quase 380 mortes, segundo o Instituto Nacional de Saúde.

"Meu maior medo é ser infectada novamente", admite Zarate, 47 anos.

As pesquisas ainda não produziram resultados conclusivos sobre a possível imunidade que os recuperados da doença poderiam desenvolver.

- "Vítima ideal" -

Zárate considera as duas únicas opções de contágio no seu caso: "Se não foi no trabalho, foi no transporte público".

Em 17 de março, ela sentiu dores nas costas e um leve cansaço, e então as enxaquecas e a falta de ar chegaram.

No dia 26, ela foi internada por suspeita de COVID-19 na mesma clínica particular em que trabalha. Quando ela ficou doente, onze dias após o primeiro caso ter sido relatado na Colômbia, as medidas de proteção não eram "tão drásticas quanto agora".

Zarate pode ser considerada uma "vítima ideal" por causa de seu histórico de saúde. Há cerca de 25 anos, ela contraiu uma infecção pulmonar e, desde então, teve quatro pneumonias.

Isolada em um quarto, nos primeiros dias ela sentiu medo de morrer sem se despedir de seus parentes.

Ela vomitava, precisou de oxigênio e ficou prestes a ser levada para a terapia intensiva, mas inesperadamente se recuperou e, após 14 dias de doença, voltou ao trabalho.

Junto com a necessidade, sua vocação pesou bastante na decisão. "Adoro minha profissão, apesar de o risco não ter aumentado para 100%, mas para 500%".

Ela não exagera. Segundo Edilma Suárez, diretora da Associação Nacional de Enfermeiras, essas profissionais são as que mais acompanham os pacientes.

Uma pesquisa realizada em abril na Colômbia revelou que 37% dos quase mil profissionais de saúde entrevistados pensavam em renunciar devido à falta de condições de trabalho e proteção para enfrentar a pandemia.

Depois de escapar da morte, Zarate agora está na área de ginecologia, onde não há pacientes com COVID-19, embora ela acredite que levará alguns dias para entrar em contato com os infectados.

"Mas essa foi a profissão que escolhemos e sabemos o que nos espera desde o início", diz antes de sair de casa para trabalhar.