ENFOQUE-Corrida por voluntários para teste de vacina da J&J na América Latina acaba em decepção

Aislinn Laing
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Enfermeira com seringa usada em ensaio clínico de vacina da Johnson & Johnson em Colina, no Chile

Por Aislinn Laing

SANTIAGO (Reuters) - No início deste mês, a Johnson & Johnson anunciou abruptamente o fim do recrutamento de voluntários para o teste de sua vacina contra coronavírus e orientou cientistas de seis países latino-americanos a encerrarem o trabalho em 48 horas, disseram dois pesquisadores à Reuters.

A suspensão se deveu à decisão da J&J, anunciada mais tarde naquele mesmo dia 9 de dezembro, de reduzir o número global de participantes nos ensaios clínicos dos 60 mil planejados anteriormente para 40 mil.

A farmacêutica disse que uma disparada de casos de coronavírus nas áreas em que está testando o imunizante lhe dará dados suficientes para avaliar a vacina com um número menor de voluntários.

Encerrar o recrutamento mais rapidamente, e ao mesmo tempo continuar a monitorar os voluntários já participando, manterá a J&J no caminho para solicitar uma autorização para sua vacina nos Estados Unidos no começo do ano que vem, disse a empresa, se o imunizante se mostrar bem-sucedido contra um vírus que já matou quase 1,7 milhão de pessoas no mundo.

A J&J disse à Reuters que, no tocante ao recrutamento de voluntários, não tem nada a acrescentar ao comunicado de sexta-feira sobre o fim do teste.

Mas a medida provocou questionamentos e causou decepção para alguns na América Latina, de acordo com entrevistas com pesquisadores, autoridades de governo e especialistas em doenças.

Miguel O'Ryan, líder dos teste em três centros médicos dentro e nos arredores de Santiago, no Chile, disse à Reuters que os testes foram encerrados subitamente a novos voluntários depois de sua equipe de 50 médicos e enfermeiros correr para encontrar pessoas dispostas a participar em cada grupo etário.

Os pesquisadores ficaram "furiosos" por não terem sido avisados com antecedência e terem tido que deixar na mão centenas de pessoas que já haviam aceitado participar, disse.

"Primeiro eles contactam você, dizem que querem isto tudo, você se prepara e, da noite para o dia, eles dizem 'encerramos'", afirmou. "Entende-se a necessidade de ser mais flexível... mas é duro para a comunidade de pesquisa em um estudo como este quando as regras do jogo mudam tão rapidamente".

Peru, Chile, México, Argentina, Brasil e Colômbia se ofereceram para participar do testes, com expectativas que este lhes garantisse um acesso preferencial à vacina da J&J em meio à corrida global para obter doses. Em setembro, a J&J disse à Reuters que aqueles que sediassem testes teriam prioridade nos suprimentos de vacina.

MEMORANDO DE ENTENDIMENTO

Até o momento, nenhum dos seis países da América Latina que participam do ensaio finalizou um acordo de fornecimento de vacina com a J&J. Autoridades de saúde em todos os seis países disseram que as negociações ainda estavam em andamento.

O Brasil assinou memorandos de entendimento sem compromisso para adquirir vacinas de quatro empresas, incluindo a J&J, e autoridades de saúde do país até indicaram uma preferência pela vacina da empresa ser de dose única.

A J&J se voltou para a América Latina quando as taxas de infecção na região aumentaram, como uma forma de acelerar os testes da vacina e avaliar sua eficácia em diversas populações.

A farmacêutica compartilhou seus planos para a região com a Reuters em setembro, dizendo que pretendia inscrever 20.000 participantes nos seis países até novembro.

Ao todo, os países latino-americanos parecem ter inscrito cerca de 16.000 pessoas nos testes da vacina da empresa, de acordo com uma contagem da Reuters de números relatados por líderes de ensaios e governos.

A urgência de inscrever pessoas rapidamente ficou evidente em Colina, no Chile, no final de novembro, onde um jornalista da Reuters estava entre as dezenas de voluntários que se movimentavam ao longo da fila em uma apertada sala de espera.

A maioria dos voluntários era de profissionais de saúde, que são os mais afetados pela pandemia, e suas famílias. A equipe de teste também inscreveu seus próprios familiares e amigos para ajudar a alcançar seus números, disseram à Reuters.

O início dos testes no Chile, Peru e México foi adiado por várias semanas, devido a fatores como escrutínio regulatório, falhas técnicas e a dificuldade para se conseguir suprimentos.

No Brasil, o esforço começou sem obstáculos em outubro, com a participação de pessoas de todas as classes sociais, disse um pesquisador.

“Houve milhares de voluntários. As pessoas estão muito entusiasmadas em ajudar e aguentam longas esperas”, disse Eduardo Vasconcellos, líder do estudo no instituto de pesquisa clínica L2iP, em Brasília.

Alejandra Camino, pesquisadora do ensaio em clínicas de saúde particulares na capital argentina, Buenos Aires, disse que, embora o fim abrupto das inscrições não tenha sido ideal, era importante permanecer flexível na luta contra a Covid-19.

"É uma decepção porque se você se preparou e encontrou um local, sua operação agora será descartada", disse ela sobre o trabalho de seus colegas em seus testes. "Mas estamos falando de uma pandemia."

(Reportagem adicional de Marco Aquino, no Peru; Julia Symmes Cobb, em Bogotá; Anthony Boadle, em Brasília; Eliana Raszewski, em Buenos Aires; e Anthony Esposito, na Cidade do México)