'Enfrentamos a ameaça do colapso do mundo como conhecemos', diz primeira-dama da Ucrânia em Davos

A primeira-dama da Ucrânia, Olena Zelenska, discursou nesta terça-feira no Fórum Econômico Mundial, na cidade suiça de Davos, chamando atenção para a invasão russa na Ucrânia, que começou há quase um ano. Em sua fala, ela afirmou que a guerra não apenas é uma agressão do Kremlin, mas também ameaça a inflação e a estabilidade do planeta, além da luta contra o aquecimento global, todos temas-chave da conferência.

Em um pronunciamento de aproximadamente 15 minutos, a mulher do presidente Volodymyr Zelensky disse que a Humanidade "enfrenta a ameaça do colapso do mundo como conhecemos, como estamos acostumados, que aspiramos". A cooperação global, ela afirmou, torna-se "ainda mais importante agora que a agressão russa na Europa cria tantos desafios para o mundo" e desencadeia uma "crise de grande escala":

— Como tanques podem atacar plantas nucleares? O que vai acontecer com a inflação quando as fronteiras dos Estados começarem a colapsar e a integridade dos países será esmagada por aqueles que os desejam? — disse ela, referindo-se à disputa pelo complexo nuclear de Zaporíjia, o maior da Europa. — O que acontecerá com o custo de vida quando dezenas de milhões de pessoas precisarem fugir da fome em massa e se tornarem refugiadas? Como o mundo quer atingir a neutralidade climática se até agora não conseguiu sequer parar a queima de cidades inteiras da Ucrânia?

Referindo-se à participação de chefes de Estado e governo, líderes de organizações multilaterais e empresários, Zelenska disse que aqueles que a escutavam estavam "unidos pelo fato de serem todos muito influentes". Ao demandar maior ajuda para seu país, contudo, afirmou que há algo que os separa:

— Todos vocês estão unidos pelo fato de serem muito influentes. Mas há algo que separa vocês: não são todos que usam sua influência. Ou a usam de um jeito que só divide ainda mais — disse ela à sala cheia. — Uma reunião como essa existe, no fundo, porque todos acreditamos que não há problema suficientemente grande que a Humanidade não possa resolver (...). Que a soma da nossa influência combinada é maior que o peso dos desafios combinados.

A "agressão russa", disse ela, "nunca teve por fim se limitar às fronteiras ucranianas", falando indiretamente dos temores de outras ex-repúblicas soviéticas de que também se vejam na mira do presidente Vladimir Putin. A guerra, disse ela, pode se expandir caso o Kremlin não perca, "em outras palavras, se a soma de nossa influência não prevalecer sobre a agressão".

Zelenska passou parte de seu discurso citando o plano de paz de dez pontos defendido pelo governo ucraniano para se sentar à mesa de negociações, reforçado por Zelensky na reunião do G20 em novembro, na ilha indonésia de Bali. A iniciativa demanda a retirada de todas as tropas da Rússia, a devolução dos territórios anexados, além da criação de um tribunal especial para julgar os russos.

— É um plano de 10 pontos sobre como podemos vencer a agressão russa e impedir que crises regionais e globais já existentes se convertam em uma guerra aberta de escala global — disse ela, afirmando em seguida não se tratar de uma iniciativa meramente política, mas com "dimensão humanitária tangível". — A dimensão dos pais que choram numa unidade de terapia intensiva enquanto os médicos tentam salvar seu filho ferido. Ou de uma família que foi baleada pelos ocupantes enquanto tentava fugir.

As demandas, contudo, parecem improváveis neste momento. Moscou insiste que não abrirá mão dos quatro territórios — Zaporíjia, Kherson, no Sul, e Luhansk e Donestk, no Leste — que incorporou unilateralmente após contestados plebiscitos em setembro.

Afirmando que a "unidade é o que traz a paz de volta", ela afirmou ter levado cartas para os presidentes da Suíça e da Comissão Europeia, Alain Berset e Ursula von der Leyen, que subiram ao palco antes e depois de Zelenska. Disse ter levado também uma carta para Xi Jinping, presidente chinês, que foi entregue para os representantes chineses no fórum.

— Muitos previram que Kiev cairia em questão de dias, mas não levaram em conta a motivação e a coragem física do povo ucraniano. Querida Olena, você e seu povo resistiram à invasão russa e lutam contra o agressor apesar de todos os obstáculos — disse Von der Leyen, prometendo "apoio inabalável europeu". — Seu país inspirou a Europa, e posso garantir que a Europa sempre estará com vocês. Muitos duvidaram se o apoio europeu seria tão inabalável, mas hoje a Ucrânia é candidata à União Europeia — disse ela, aplaudida pela plateia.

Zelenska cresceu na cidade de Kryvyi Rih, no Sudeste da Ucrânia, onde Zelensky também foi criado. Eles se conheceram na faculdade, onde ela estudou Arquitetura e ele cursou Direito. Ambos seguiram carreira na comédia. Zelensky abriu a produtora Studio Kvartal 95, onde a mulher trabalhava escrevendo roteiros. Eles se casaram em 2003, após oito anos de relacionamento. O casal tem dois filhos, Oleksandra, de 18 anos, e Kirilo, de 9 anos.

Apesar de não concordar inicialmente com o envolvimento do marido na política, ela posteriormente abraçou o papel de primeira-dama, apoiando campanhas sobre Jogos Paralímpicos, alimentação infantil e combate à violência doméstica.

Após a eclosão da guerra, em 24 de fevereiro, a primeira-dama foi levada para um lugar desconhecido com os dois filhos. Desde o meio do ano passado, contudo, tem assumido papéis mais proeminentes, em particular no que diz respeito à projeção internacional e à opinião pública: discursou no Congresso americano, por exemplo, e fez viagens a outras capitais europeias para demandar apoio para a causa ucraniana.

Em julho, a primeira-dama se viu no meio de uma plêmica após posar com seu marido para a capa da Vogue americana, que enviou a famosa fotógrafa Annie Leibovitz a Kiev. Os retratos dividiram as redes: há quem diga que o mandatário de um país há cinco meses em guerra não deveria ter posado para as lentes habituadas a sessões com modelos e celebridades de alto naipe.