Engenharia: machismo ainda é grande, mas mulheres começam a notar mudanças na profissão

·5 minuto de leitura

As mulheres são as que mais têm acesso ao ensino superior no Brasil, mas isso não se reflete nas Ciências Exatas. A pesquisa Estatísticas de Gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil, realizada pelo IBGE, mostra que na população com 25 anos ou mais, 19,4% das mulheres e 15,1% dos homens tinham nível superior completo em 2019. Elas são maioria massante nos cursos que envolvem cuidados e educação — serviço social (88,3%), saúde, excluindo medicina, (77,3%), ciências sociais e comportamentais (70,4%) e educação (65,6%) —, mas são minoria em Engenharia e profissões correlatas (21,6%).

Neste Dia internacional da Mulher na Engenharia (23), a reportagem de CELINA ouviu duas engenheiras para saber como é estudar e trabalhar nessa área tão masculinizada. Elas, felizmente, já observam mudanças.

Para Vanessa Batista Schramm, membro do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE) e professora de Engenharia de Produção na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), a disparidade de gênero começa na infância:

— Desde pequenas, elas são ensinadas a cuidar das bonecas, do jogo de panelinhas e dos bichinhos de pelúcia. Enquanto isso, os brinquedos destinados aos meninos os estimulam a desbravar o mundo, descobrir ossos de dinossauros, praticar esportes e construir coisas. Talvez seja aí que o subconsciente das meninas começa a acreditar que, talvez, a área das Ciências Exatas não seja para elas — explica.

Engenheira elétrica desde 2004, Vanessa, além de dar aulas, trabalha em projetos com o marido. Ela diz que assédio e machismo ainda existem e que não são poucas as vezes que a capacidade de uma mulher é colocada em cheque na Engenharia:

— Já fiz vários trabalhos com meu marido e assinamos juntos, mas muitas vezes, o cliente acha que o projeto é só dele, como se eu não fosse capaz de ter feito aquilo. Uma colega de profissão disse que as engenheiras só têm publicações porque assinam junto com seus maridos. A luta contra o machismo ainda é muito grande — conta

Se os desafios já são grandes para mulheres cis, para as mulheres trans eles são ainda maiores. Ágata Leuck, de 29 anos, que está no último período da faculdade e é engenheira de software na Loft, uma startup do setor imobiliário e começou a transição quando estava prestes a sair de uma empresa em que trabalhou há algum tempo.

— Quando comecei a transição, não contei para ninguém. Mas, no último dia, resolvi sair do armário e contar pra todo mundo que eu era, na verdade, uma mulher. Ninguém reagiu mal, eu recebi muito apoio, mas não sei se seria assim se eu não tivesse escondido e deixado para contar no meu último dia na empresa — relata.

Ágata conta que o preconceito na Engenharia é velado:

— Algumas vezes, eu fazia um trabalho com o mesmo código que todos os meus colegas estavam usando. O gestor dizia que estava errado, não porque realmente estivesse, mas porque era eu fazendo, e eu sou trans. Eu dizia então que, se fosse assim, todo o site estava com erro, porque todos estavam usando o código — relembra.

Ágata reconhece que, ao contrário de muitas pessoas transgênero, teve o privilégio do suporte familiar e da educação. Foi na Alemanha, durante um intercâmbio, que decidiu contar aos pais sobre sua transição. Mesmo não entendendo muito bem, eles não a abandonaram. No trabalho, ela sofreu com comentários transfóbicos no início da carreira, mas foi bem acolhida em outros locais onde trabalhou.

Com maioria masculina, as desigualdades, e nas universidades e no mercado de trabalho, são muitas. Segundo o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), o rendimento salarial das engenheiras equivale a 82,1% dos homens.

Vanessa Schramm diz que a postura das mulheres em relação aos preconceitos e desigualdades na Engenharia tem mudado:

— Algumas mulheres entram na briga, outras ficam abaladas e até mudam de profissão, e há aquelas que ouvem comentários machistas e ignoram, mas aquilo fica corroendo por dentro. Mas a postura vem mudando. Outro dia, um professor da faculdade de Engenharia da UFCG postou um comentário muito desagradável em relação às mulheres nas redes sociais. Nnós nos juntamos para cobrar uma posição da universidade — afirma.

Já Ágata passou por momentos que a deixaram sem reação. Para ela, é necessário procurar ambientes acolhedores para mulheres, especialmente as mulheres trans:

— Eu já sofri preconceito e não soube como reagir porque sou muito tímida, e é difícil lidar quando isso vem de um superior seu. Por isso, eu busco trabalhar em empresas que sejam acolhedoras, que tenham políticas de inclusão — explica.

Vanessa observa que a postura dos homens não evoluiu, ao contrário das mulheres. Segundo ela, os comentários desagradáveis ainda são frequentes, mas as meninas já não toleram mais certos comportamentos.

— Eu percebo que as meninas não fecham os olhos para certas situações. Os homens continuam duvidando da nossa capacidade, mas hoje já existe mais voz. As meninas estão mais combativas. Aqui no Nordeste é muito comum que as pessoas falem tocando nas outras e, para mim, isso é normal. Mas a nova geração já não aceita isso vindo de homens. Elas falam mesmo! — observa.

Vanessa é membro do Women's Engineering Society (WES), um braço do IEE que cuida de questões de gênero. Nesse espaço, ela, alunas de graduação e outras engenheiras formadas discutem maternidade, desigualdade social e machismo na profissão por meio de ações como a leitura de um livro feminista todo mês e, desde 2016, o Engenheiras da Borborema, que abraça uma escola de ensino público por ano e incentiva projetos de ciência, como química, robótica e matemática.

— Nós tentamos fazer as Ciência Exatas mais interessantes e queremos dizer às meninas que se elas optarem por serem engenheiras, terão espaço, serão acolhidas e são sim capazes de trilhar esse caminho.

Ágata dá suporte para pessoas trans se inserirem no mercado de trabalho, ensinando-as como proceder numa entrevista de emprego, a escrever o currículo e mantê-lo atualizado. Depois de terminar a faculdade, ela pretende ensinar programação:

— Eu faço algumas coisas e ensino para tentar ajudar, mas quero fazer mais. No futuro, quero ensinar a linguagem de programação para pessoas trans e fazê-las acreditar que podem ter um emprego, educação, moradia e uma vida digna. Todas elas merecem — encerra Ágata.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos