Engenheira de Niterói cria projeto que transforma redes de pesca em bolsas

Quando a engenheira de meio ambiente Maria Fernanda Bastos foi aprovada para o mestrado em economia circular, decidiu aprofundar o conhecimento na área e, em 2019, partiu para Paris e Madri. Lá percebeu a distância entre o que estudava e a realidade brasileira. E em vez de deixar tudo no plano das ideias, resolveu pegar a dissertação sobre o lixo flutuante da Baía de Guanabara e se tornar, como ela diz,“estagiária da transformação do planeta”. Foi assim que, em 2020, nasceu o projeto Redinha.

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Simples no conceito, em dois anos de atividade a iniciativa retirou cerca de 250 quilos de rede de pesca das águas, vendeu mais de 2.700 bolsas feitas com o material e, em junho passado, recebeu menção em palestra da Organização das Nações Unidas (ONU), em Portugal. Se todo esse material fosse esticado, daria para cobrir sete quadras de vôlei.

O primeiro passo de Maria Fernanda, moradora do Gragoatá e remadora assídua, foi conversar com os pescadores da Enseada de Jurujuba, tradicional polo pesqueiro de Niterói, sobre o descarte do material. Mas não era apenas uma proposta de via única. Ela queria que todos os envolvidos partilhassem os benefícios do projeto.

— Os pescadores me receberam muito bem e são superprestativos todas as vezes que eu entro em contato para pedir mais redes. Somos um negócio de impacto socioambiental, que visa a remunerar de maneira justa mulheres em vulnerabilidade social e os pescadores que nos fornecem as redes. Queremos mostrar que dá para ganhar dinheiro resolvendo problemas e remunerando bem as pessoas— afirma Maria Fernanda, ao defender o conceito de economia circular.

Desde os 12 anos, Marcos Marques pesca nas águas da baía. Ele conta que um dia estava trabalhando num remendo de rede quando a engenheira pareceu.

— Ela chegou e perguntou o que eu fazia com o material que não usava mais. Disse que jogava fora, e daí ela me ofereceu uma parceria. Sou um apaixonado pelo mar; tudo o que tenho vem de lá. Então, topei na hora — lembra o pescador, ao lado do filho Sandro, com quem trabalha.

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Os resíduos de pesca fantasma — termo para equipamentos como redes, linhas, anzóis, arrasto, potes e armadilhas usados na captura de animais marinhos e abandonados no mar — sempre preocuparam a a engenheira.

— Ainda que a baía seja suja, acho um dos lugares mais lindos do mundo. É um crime o estado no qual as águas se encontram. Estar em contato direto com ela, seja remando em suas águas ou correndo em sua orla, me fez querer fazer algo de útil — afirma.

Uma parceria fundamental

Outro ponto destacado pela engenheira é a atuação das artesãs e costureiras que trabalham por demanda no projeto. A parceria com a Casa da Economia Solidária Paul Singer, no Centro de Niterói, veio logo em seguida e foi um elo a mais nessa rede, pois era preciso que todo o material coletado se transformasse em bolsas praieiras e esportivas.

— Uma das vantagens desse conceito de trabalho é que ele pode ser feito na casa das próprias artesãs e costureiras, o que possibilita uma qualidade de vida melhor, visto que elas não precisam se deslocar. Temos artesãs que moram em Guaratiba, no Rio. Se elas tivessem que se deslocar até Niterói, perderiam umas cinco horas por dia, por exemplo — explica.

A Casa Paul Singer é um centro destinado à formação, capacitação e orientação de empreendedores da economia solidária, cooperativas e associações e recebe trabalhadores de Niterói e de cidades vizinhas. A Secretaria municipal de Assistência Social e Economia Solidária é a gestora do centro, em parceria com o Fórum de Economia Solidária de Niterói. Cerca de 75% das trabalhadoras que participam dessa etapa da produção do Redinha são de lá.

Maria Fernanda agora espera que o projeto possa chegar a novas comunidades pesqueiras da baía. Ao todo, ela aponta 42 grupos no entorno e destaca que 10% de todo o lixo encontrado no mar são oriundo desse tipo de descarte. Já existe um diálogo com pescadores de Itaipu e de Magé, na Baixada Fluminense.

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