Enquanto crianças saem às ruas em Buenos Aires, Chile se tranca em casa

SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Martín, 10, empurra uma bola de futebol com os pés, de mão dada com o pai, Rafael, 38, enquanto caminham perto dos Bosques de Palermo, em Buenos Aires.

Pela primeira vez em 60 dias, o governo autorizou a saída de crianças de casa. Apenas por uma hora, no fim de semana, acompanhados por um adulto, e com controle pelo número de documento.

"Eu queria jogar futebol com meus amigos, mas hoje vai ser só com meu pai", contou o menino à Folha de S.Paulo, sorridente, mas de cabeça baixa. "Mais cedo, minha mulher saiu com minha filha menor, Claudia, que tem 6, ela estava muito excitada", disse o pai.

Uma vez perto do parque, que ainda está fechado ao público, os dois ensaiaram uns passes. Martín sorriu satisfeito ao marcar um "gol", jogando a bola por baixo das pernas do pai.

Enquanto Rafael correu para buscá-la antes de que chegasse à rua, Martín contou como vem driblando o confinamento. "Eu em casa imagino jogos, escalo meu time do Barcelona, e faço de conta que as pernas da mesa do escritório da minha mãe são o gol", diz o menino, levantando os ombros.

Alguns timidamente, outros mal podendo conter a excitação, foi assim que as crianças voltaram a andar pelas ruas de Buenos Aires neste fim de semana.

Embora o Ministério da Saúde tenha flexibilizado a quarentena em algumas províncias do país, na capital, Buenos Aires, ela continua rígida, pois a cidade vem mostrando um aumento do número de contágios pelo coronavírus.

Enquanto em toda a Argentina o número de casos é estável, com 7.792 registros e 363 mortes, o que mais preocupa as autoridades agora é a cifra em Buenos Aires, que concentra mais de 60% dos infectados. Junto com a Grande Buenos Aires, esse número chega aos 80% dos casos do país.

"Há um crescimento que estávamos prevendo, nos bairros humildes e nas favelas da cidade e da província de Buenos Aires. Estamos chegando perto do pico e apelamos à cidadania para que respeite as regras", disse o secretário de Saúde da capital, Fernando Quirós.

Como as aulas estão suspensas desde 16 de março e não têm previsão de retorno, o governo cedeu à pressão de pais e liberou esse passeio semanal. Ele foi esperado por Marina, 5, ansiosamente.

"Ela estava muito empolgada, contando os dias para a nossa saída. Colocou uma roupa de princesa, um colar e não se esqueceu da máscara", conta a mãe, Aline. A última vez em que Marina saiu, fazia calor e a cidade se despedia do verão.

Na tarde fresca do sábado (16), ao voltar à rua, ela sentiu a cidade mudada. "Está tudo diferente!", disse para a mãe, notando o verdadeiro tapete de folhas secas no chão, típico do outono portenho, e a falta de movimento nas ruas.

Embora encarada como um alívio para pais, que reclamavam de ter de fazer home office com crianças em casa, a medida foi vista também com certo resguardo pela população. "Não sei, ninguém sabe ainda muito sobre esse vírus, acho temerário sair com crianças", disse o comerciante Salcedo, 54.

Na fila de um caixa eletrônico, Marisol, 52, estava assustada com a quantidade de gente na rua. "Justo quando há mais contaminações em Buenos Aires, vamos deixar as crianças saírem? Quero ver o número de contagiados daqui a duas semanas", disse, apressada.

Para Aline, que é acadêmica e jornalista, a medida do governo veio em boa hora, mas crê que está faltando um debate sobre como as crianças reagem na quarentena. Ela conta que sua filha oscilou entre ansiedade e medo da morte, chegando a ter reações cutâneas. "Não basta só trancá-las em casa, começa a ser necessário discutir os efeitos a médio e longo prazo disso."

De fato, até aqui, o presidente argentino, Alberto Fernández, pouco disse sobre as crianças. "Não tenho uma resposta sobre o que fazer com elas. Apenas digo que podem continuar a desenhar enquanto esperam", afirmou.

Já seu ministro de Educação, Nicolás Trotta, foi ainda além, dizendo que as aulas na Argentina só seriam permitidas depois que houvesse uma vacina contra o coronavírus.

Enquanto isso, na capital do país vizinho, Santiago, o fim de semana foi de silêncio nas ruas. Depois de uma "quarentena seletiva", o Chile vinha ensaiando uma reabertura do comércio, quando, de repente, a curva de contágios começou a subir muito rapidamente.

Na última semana, em 24h, foi registrado aumento de 60% nos casos, justamente quando a pandemia saiu dos bairros de classe média e alta e chegou à periferia e à região metropolitana da cidade, onde há mais população humilde.

Aí vivem imigrantes venezuelanos e haitianos e chilenos pobres, muitos morando em casas pequenas e vivendo do comércio informal.

Desde sexta-feira (15), 8 milhões de habitantes de Santiago e arredores (42% dos chilenos) estão confinados em casa. Na quinta-feira (14), porém, foram vistas filas imensas em mercados e farmácias.

"O governo quis abrir a economia rápido demais, agora está fechando todo mundo em casa de modo atrapalhado, não estamos indo num bom caminho", diz Fernando Maturana, do Sindicato dos Trabalhadores de Saúde de Santiago.

"Se quiser remediar isso, precisa aproveitar o tempo dessa nova quarentena para equipar melhor os hospitais e centros de saúde, pois faltam insumos e ventiladores. Ainda é tempo, não estamos colapsados, mas vamos colapsar se nada for feito."

O Chile registrava, até este domingo (17), 41.428 casos e 421 mortes por coronavírus. País mais desigual entre todos os integrantes da OCDE, vinha mostrando um bom desempenho até aqui, pois a doença ainda estava restrita aos bairros urbanos mais ricos do país. Agora que chegou à população mais pobre, a curva vem crescendo mais do que o esperado.