Enquanto curvas estiverem apontando para cima, não dá para pensar em relaxamento do isolamento social', diz Fraga

Isabella Macedo
Pacientes com Covid 19 internados em UTI de hospital privado na capital paulista Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Em seminário nesta quinta-feira realizado pela Comissão Externa de Ações contra o Coronavírus da Câmara dos Deputados, o economista e ex-presidente do Banco Central (BC) Armínio Fraga afirmou que não é possível fazer o afrouxamento das regras de isolamento social no país enquanto as contaminações e mortes decorrentes do novo coronavírus estiverem em ascendência. O seminário, que além de Armínio, teve a participação da presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade, da pesquisadora da Universidade de Harvard (EUA) Marcia Castro, e do diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, Paulo Chapchap, discutiu o retorno das atividades econômicas e sociais no país.

-  Nós vamos depender de uma inversão confiável das curvas. É fundamental, aqui, investir na obtenção de informação de qualidade. É fundamental, e nós não podemos errar. Isso lembra um pouquinho o trabalho do Banco Central no sistema de metas, existem modelos do mais variados e super sofisticados da economia, assim como da pandemia. Mas, na prática, nada substitui a boa informação e a simples observação das curvas. Enquanto as curvas estiverem apontando para cima, não dá para pensar em relaxamento - afirmou o ex-presidente do BC. 

O presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), também disse que o Brasil ainda está longe de ter um "mapa correto" da contaminação por causa da baixa testagem. O presidente da Casa afirmou ainda o setor privado tem pressionado empresas pela abertura, mas que apenas a elite do país terá capacidade de se isolar para evitar a contaminação.

- Não é possível que a gente estimule o fim do isolamento quando apenas a elite brasileira poderá ficar isolada, enquanto os brasileiros mais simples vão para os ônibus, vão para seus trabalhos em aglomerações, e nas comunidades sem nenhuma capacidade de isolamento. E a gente não vê nenhum protocolo, nada organizado de forma estrutural na relação do governo federal com estados e municípios para que esse tema pudesse ter sido resolvido há muito tempo - criticou Maia.
Armínio destacou que a necessidade de parâmetros e manifestações unificadas do Poder Público em relação às medidas de isolamento social e combate à doença é importante neste momento. Desde o início da crise da doença no mundo, o presidente da República, Jair Bolsonaro, tem defendido o afrouxamento das medidas de isolamento para retomar a atividade econômica. Armínio, Nísia e Márcia afirmaram durante o seminário que é preciso unificação do discurso para que a população não tenha informações "desencontradas" e reforçaram que o isolamento social funciona.

- O importante nesse momento é a integração das medidas, é a coordenação das medidas e parâmetros claros. Seguramente, sair dessa situação de isolamento sem todos os cuidados que foram colocados aqui nos levará a uma situação de muita gravidade. Os dados estão aí apontando para isso e o que se faz necessário agora é uma coordenação. E quando a gente fala coordenação, não significa uniformizar as medidas mas dizer em que locais a partir do aumento de casos, da disponibilidade de equipamentos no sistema de saúde, da capacidade de testagem, como isso se combina para essas medidas - afirmou Nísia.

A estatística e pesquisadora Márcia Castro ressaltou a importância dos agentes comunitários de saúde, com treinamento e equipamento adequado, na compreensão de como a covid-19 atinge a população de algumas localidades e que, sem eles, não se pode pensar em afrouxamento das medidas. Para ela, esses profissionais são essenciais na eventual reabertura dos comércios e das cidades, já que os agentes comunitários de saúde podem agir como "detetives covid", por terem acesso aos registros da população que eles atendem nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs).

O processo teria dois pilares: o primeiro, por meio do uso desses registros para realizar a busca de idosos e pessoas com comorbidades, além do mapeamento de áreas mais vulneráveis por características locais e padrões de desigualdade social. O segundo pilar consiste em rastrear os contatos das pessoas que tenham sido positivadas com covid-19 e de casos suspeitos para que eles sejam testados e colocados em quarentena.

- A busca ativa e o rastreamento de contatos pelos agentes comunitários seriam críticos neste momento em que muitas cidades praticam algum tipo de distanciamento social a fim de minimizar a infecção entre grupos de risco e maximizar a detecção de indivíduos que possam ter sido expostos ao risco e possam ser transmissores. Isso contribuiria para reduzir a demanda de serviços hospitalares que já está acima da capacidade em várias cidades do Brasil. A busca ativa e o rastreamento também seriam críticos quando as políticas de distanciamento começarem a ser relaxadas a fim de minimizar a ocorrência de subsequentes ondas de transmissão do coronavírus que muito provavelmente vão acontecer se a gente simplesmente começa a abrir o comércio e começa a abrir as cidades sem ter um mecanismo de rastrear os positivos e os contatos - explicou a pesquisadora.

O diretor do Sírio-Libanês, Paulo Chapchap também destacou a importância de "instruir o isolamento social" e que o Brasil não sairá da pandemia com a chamada "imunidade de rebanho", que consiste em deixar o vírus circular livremente para que as pessoas contraiam e adquiram imunidade à doença.

- Senhores, nós não vamos sair desta pandemia tendo um alto grau de imunidade da população, a chamada imunidade de rebanho. Isso vai demorar muito. Nos países em que isso está mais adiantado, aponta para 10% a 20% da população nesse momento, depois de termos sofrido o pico, o platô, e estarmos no decréscimo. Não temos a vacina, a imunidade de rebanho não será uma realidade. Nós temos que continuar protegendo a nossa população na saída de um isolamento mais rigoroso através de uma testagem do isolamento localizado de pessoas infectadas e de populações altamente vulneráveis. Nós vamos ter de ir para uma nova forma de convivência, que vai durar - afirmou.

Para afrouxar o isolamento, explicou o médico, será necessário monitorar o índice de isolamento social, pois qualquer relaxamento da medida deverá ser feito em cima de alto índice de isolamento anterior; além das curvas de contágio com números de casos novos, de internados e de mortos.

Chapchap chamou atenção, entretanto, que o número de casos novos não é confiável dada a baixa testagem no Brasil, que exige acompanhamento das curvas de internados e mortos. Também é necessário atentar à disponibilidade de estrutura assistencial, monitorando não apenas a disponibilidade de leitos, mas também a de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) das equipes de saúde e das próprias equipes de saúde, que afirmou ser "o que vai faltar mais rápido".