Enquanto muitos voltam ao escritório, veja as histórias daqueles que nunca saíram

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SÃO PAULO, SP, BRASIL, Da esquerda para a direita >>>  retratos de Tathiana Gould (36), Fernando Contieri, Daniela Souza (41), Maciel da Silva (40) e  Karin Dayana de Oliveira Meneses na Folha de São Paulo. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress)
SÃO PAULO, SP, BRASIL, Da esquerda para a direita >>> retratos de Tathiana Gould (36), Fernando Contieri, Daniela Souza (41), Maciel da Silva (40) e Karin Dayana de Oliveira Meneses na Folha de São Paulo. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A rotina de Karin continuou a mesma dos quatro anos anteriores -só o volume de trabalho aumentou. No mercado de Maciel, as vendas seguiram mesmo nos momentos de maiores restrições às atividades econômicas.

Daniela, recepcionista, deixou de trabalhar apenas pegou Covid e quando o consultório fechou por alguns dias. Para Fernando, as avenidas sem carros não compensaram a solidão da fábrica vazia.

No dia a dia de Tathiana, o medo foi companheiro diário.

Para eles, e para uma multidão de trabalhadores brasileiros, não houve teletrabalho, não houve home office. A continuidade de suas atividades dependeu de eles seguirem "lá fora", em ruas, consultórios e comércios considerados essenciais.

O avanço da vacinação contra a Covid-19 permitiu que o Brasil dos escritórios corporativos -e as empresas para as quais eles trabalham- colocassem em andamento planos de retorno aos espaços físicos.

As aulas presenciais foram retomadas, não há mais restrições para a ocupação de bares e restaurantes e até os eventos corporativos e recreativos voltaram. Zonas predominantemente comerciais em grandes centros voltam a ficar cheias.

Para quem esteve em home office nos últimos 18 meses, cresceu as discussões sobre o novo modelo do trabalho -e muito se fala de um futuro híbrido, com uma parte da atividade ainda feita de casa.

O privilégio desse modelo atendeu a uma minoria de trabalhadores no Brasil e ainda acentuou desigualdades entre os tipos de ocupação.

Dados do IBGE analisados pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostram que, de janeiro a dezembro de 2020, cerca de 8,1 milhões de trabalhadores tiveram acesso ao home office. O número equivale a apenas 11% do total de pessoas com alguma ocupação no ano passado.

Pelo menos 7 milhões de pessoas poderiam estar trabalhando de maneira remota, mas não conseguem pela falta de acesso à infraestrutura mínima, segundo estudo dos economistas Fernando de Holanda Barbosa Filho, Fernando Veloso e Paulo Peruchetti, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

São pessoas que atuam em setores como magistério, pesquisa, administração e tecnologia e que não podem trabalhar em casa porque não têm acesso à internet e energia elétrica de maneira contínua.

O trabalho remoto está encolhendo, segundo pesquisa Datafolha, que aponta também para a concentração desse modelo de trabalho entre os mais ricos e escolarizados.

Quase metade dos 24% dos entrevistados pelo instituto que disseram estar em trabalho remoto têm ensino superior e 49% ganham mais do que dez salários mínimos (R$ 11 mil). A pesquisa é de julho, e aponta para 76% de trabalhadores sem home office.

Para quem não pode manter as atividades em casa, a solução para evitar o medo e o risco de contaminação foi a adoção de medidas mais drásticas, como parar de trabalhar.

Ivan Andrijic Neto, 59, até deixou o trabalho presencial nos primeiros meses de pandemia. Não que pudesse atuar de maneira remota -há quase 40 anos ele é pintor residencial. Um quadro sério de asma e a preocupação das três filhas o levaram a guardar as ferramentas de trabalho e se recolher. Contas e dívidas foram negociadas. A pausa durou cerca de três meses.

"Chegou uma hora que não tinha mais jeito. Renegociei as dívidas, mas ia ter que começar a pagar em setembro. Em julho, voltei. Primeiro, priorizei trabalhos que poderia fazer sozinho, em que o imóvel estivesse vazio", conta.

A rotina de obras trazia e ainda traz desafios diários. "Peguei obra com 15 pessoas. Ficava em pânico, quase paranoico. Tomava todos os cuidados, mas todo dia era uma preocupação de não trazer isso para dentro de casa".

Outros milhares, como Ivan, tiveram que voltar, ou nunca nem mesmo puderam parar, mesmo quando as recomendações eram de distanciamento social. Essas são as histórias de alguns deles.

Internação por Covid e ônibus lotado Daniela Souza, 41, é recepcionista de duas dentistas e, desde março de 2020, ficou afastada do trabalho em apenas dois momentos. A primeira, quando o consultório ficou fechado, entre março e abril. A segunda, alguns dias depois que os atendimentos foram retomados.

"Na semana em que voltamos a trabalhar, descobri que estava com Covid. Cheguei a ficar cinco dias hospitalizada", conta.

Com medo de nova contaminação, Daniela até desejou ter um outro trabalho, que lhe permitisse o home office.

"Que solução eu teria? Com o trabalho que faço, tenho que estar lá para abrir ficha, marcar consultas, não tem outro jeito. Não chegamos a nenhuma conclusão. Pensava 'Eu tenho criança, e se eu pego [Covid] de novo, e se ela pega?'". Daniela tem uma filha de 11 anos.

O trabalho no consultório, conta, não a preocupava tanto, mas o trajeto era origem de muita ansiedade.

"Não tiver muito medo de voltar a trabalhar. O mais difícil foi o transporte coletivo. No consultório, tudo é esterilizado, usamos luvas, máscaras, proteção. Isso é rotina. Dentro do ônibus é muito pior."

Duas doses de vacina depois, Daniela diz que parte da tensão passou. "Agora vamos diminuindo um pouco a loucura, mas ainda tenho sanitizante na porta de casa e só saímos de máscara."

Duas máscaras e novo horário de almoço A arquiteta Tathiana Gould, 36, descreve o que sentiu nos últimos 18 meses como um "certo desamparo" decorrente da impossibilidade de trabalhar em casa e, ao mesmo tempo, passar os dias em salas fechadas e sem ventilação.

Coordenadora de projetos em uma marca de revestimentos, ela passou cerca de um mês em casa até que precisou voltar à rotina de atendimento a clientes. Na ânsia de reduzir riscos, ela e o namorado, com quem mora, aumentaram os custos. Passaram a ir ao trabalho de carro e depois usando aplicativos de transporte.

"Tenho bronquite asmática, um problema seríssimo que quase todo ano me leva para o hospital. Pelo menos ainda tive condições de apertar o orçamento e pagar Uber", diz.

Por conta própria, também mudou o horário de almoço para pegar o refeitório vazio. Primeiro, usava duas máscaras. Depois, adotou EPIs (equipamentos de proteção individual) do tipo PFF2, sigla para peça facial filtrante, que garante maior proteção e é recomendada principalmente para quem fica em ambientes fechados.

"Pedi para ficar em home office, mas me disseram para voltar", conta. "Mudar de trabalho não era uma possibilidade. Se ainda o país estivesse em outra situação econômica. E, tirando isso, é um ótimo emprego, com ótimos gestores."

Medo e senso de responsabilidade "Eu era o cabeça da minha família e tinha que continuar trabalhando", diz Maciel da Silva, 40 anos.

Dono de um pequeno mercado no Parque Nações Unidas, na região norte da capital paulista, ele diz que a responsabilidade com a família o motivaram a continuar trabalhando, mesmo nos momentos em que estar em contato com outras pessoas parecia uma atividade de alto risco.

"Medo dava, né? A gente olhava para o lado e tinha muita gente morrendo, mas tinha que prosseguir. No meu ramo não teve como parar também. Com tudo fechado, a gente vendia ainda mais alimentos", conta o comerciante.

Maciel da Silva, 40, tem um minimercado na zona norte de São Paulo Bruno Santos/Folhapress **** Nos períodos em que as regras de controle da pandemia restringiram os horários de funcionamento, o mercado chegou a fechar as portas, mas não deixou de funcionar. As compras da clientela formada por vizinhos eram entregues na calçada. Ainda no início da pandemia, Maciel tinha um segundo trabalho, esse como promotor de vendas. Ele também já trabalhou com construção.

Com a ajuda de um projeto que atua na região, o Aventura de Construir, Maciel, a esposa e o filho colocaram o mercado para funcionar, e há alguns meses ele se dedica apenas ao comércio. A favor da família, diz, está a localização. Os três moram no piso superior ao do mercado, dispensando o uso de transporte coletivo.

Medo e orgulho do trabalho na pandemia No pior momento da pandemia, Karin Dayana de Oliveira Meneses, 37, viveu o luto pela morte de um colega de trabalho, a quem ela considerava um amigo, e o medo de ter sido contaminada.

Na semana em que ele foi diagnosticado com a doença, eles tinham se encontrado diversas vezes e trabalhado lado a lado.

Agente de saneamento, Karin e o marido são da linha de frente do sistema de esgotamento sanitário e de abastecimento de água. Com a eclosão da pandemia em março do ano passado, ela diz ter visto a demanda de trabalho aumentar, uma vez que a empresa em que trabalha afastou funcionários de grupos de risco.

Para Karin, a importância de seu trabalho era um motivador a continuar.

Karin Dayana de Oliveira Meneses, 37, é agente de saneamento Bruno Santos/Folhapress **** "Em momento nenhum passou pela minha cabeça fazer outra coisa. Nosso serviço é muito essencial. Ao mesmo tempo em que a gente sentia medo, se sentia muito orgulhoso de estar trabalhando", conta.

Recomendações de higiene repetidas à exaustão durante a pandemia, como manter mãos limpas, dependiam, em certa medida, do trabalho de pessoas como Karin.

"As pessoas sabem que a empresa está presente, mas não têm nem ideia do risco que a gente estava correndo. Vivemos uma situação que nunca imaginamos. Agora está passando, e sinto que colaborei de alguma forma."

Fábrica vazia e solidão Morador da capital paulista, Fernando Contieri, 54, já estava acostumado com o pesado trânsito que enfrentava diariamente a caminho do trabalho, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Durante pouco mais de um ano, fez esse trajeto em menos de uma hora. O trânsito fluido era um alento para os dias que, segundo ele, eram bastante solitários.

Engenheiro eletrônico, Fernando trabalha com veículos como caminhões, ônibus e carros-forte. Seu trabalho consiste em adaptá-los para que, ao invés de queimarem combustíveis fósseis, como o diesel, funcionem com eletricidade.

"Tiramos toda a parte de combustão e instalamos a estrutura para eletricidade. Desenvolvo as partes eletrônicas e preciso estar com o veículo ao meu lado pra fazer os testes. Não tenho como fazer à distância", conta.

A fábrica vazia permitia uma sensação de segurança, mas a convivência com outras pessoas fez falta.

"A empresa ficou praticamente vazia. Um ou outro dia aparecia alguém, justamente para não ter o risco de aglomeração. Foi estranho e um pouco solitário."

Neste ano, conforme a vacinação andou e as restrições caíram, Fernando viu dia após dia as ruas se encherem novamente. Até o trânsito está mais pesado. O trajeto entre a fábrica e o trabalho já levam a mesma uma hora e meia do pré-pandemia.

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