Enquanto números do coronavírus aumentam, o isolamento social diminui

Cíntia Cruz, Luiz Ernesto Magalhães, Natália Portinari, Pedro Zuazo, Rafael Nascimento de Souza e Selma Schmidt
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Saída das barcas, na Praça Quinze, no Centro do Rio

O Rio chegou, nesta quinta-feira, dia 9 de abril, a 122 mortes pelo novo coronavírus e a 2.216 casos, segundo a Secretaria estadual de Saúde. São 16 mortes a mais do que o número divulgado na quarta-feira. Apesar do avanço da doença, aumentou a quantidade de pessoas nas ruas do estado. A maioria, ainda sem máscaras. Na Rocinha, onde já foram registradas duas mortes pela Covid-19, as aglomerações não diminuíram.

— Tem uma avalanche de pessoas nas rua. Acredito que de 60% a 70% das lojas abriram. O mercado popular está funcionando — lamentou José Martins, do Movimento Rocinha Sem Fronteiras.

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Com mais de 150 mil habitantes, a Rocinha — que teve suas principais vias higienizadas ontem para conter o avanço do coronavírus por lá — tem uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), três clínicas da família e um Centro da Atenção Psicossocial. Essas unidades não têm estrutura para suportar a demanda de vítimas do coronavírus, pois já estão sobrecarregadas com outros doentes, segundo o líder comunitário William de Oliveira:

— Havia funcionárias de uma ótica abordando as pessoas no meio da rua, pedi para interromperem o atendimento.

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No Centro da capital, o cenário de aglomeração se repetia ontem. Na Praça Quinze, o desembarque de passageiros das barcas chamava atenção. Questionado sobre o grande número de passageiros nos transportes públicos, o secretário de Transportes, Delmo Pinho, afirmou que as medidas foram tomadas e culpou as pessoas por permanecerem próximas umas das outras.

— Com relação ao acúmulo das pessoas no embarque, isso é um efeito psicológico, é um efeito batalhão. Dividimos a parte externa da estação em três segmentos, separados por corda. Cada segmento tem espaço para cerca de 300 pessoas. Nunca entra isso tudo. Mas é da natureza humana essa postura de querer estar mais próximo um do outro, mesmo com uma situação assim de risco — disse o secretário.

A empresa Cyber Labs vem monitorando diariamente a circulação de pessoas em oito bairros do Rio. Nesta quinta-feira, as regiões analisadas tiveram, em média, 78% de redução do fluxo, número menor que os 81% registrados na semana anterior. Na prática, mais cariocas foram às ruas. Entre os bairros monitorados, os maiores aumentos foram registrados na Tijuca e em Jacarepaguá.

No trânsito, mais aglomeração. Segundo o Centro de Operações, as ruas da capital registraram 6km de trânsito às 10h da manhã de ontem.

Em todo o país, o isolamento social dos brasileiros se afrouxou na última semana, e o tráfego de pessoas e carros aumentou nas metrópoles brasileiras, segundo dados de aplicativos de transporte como Waze, Moovit e In Loco.

Na Baixada, as ruas também seguem tomadas. Quem circula pelos centros comerciais de Duque de Caxias e Nova Iguaçu nem imagina que são elas as cidades com maior número de casos na região. Ruas lotadas, filas e pessoas descumprindo a quarentena. Enquanto isso, dados da Secretaria estadual de Saúde mostram que Nova Iguaçu já tinha nesta quinta-feira 57 casos confirmados, sendo o quarto município do estado com mais pessoas infectadas. Duque de Caxias, que contabilizava ontem, quinta-feira, 48 casos, vem logo atrás, mas é a segunda do estado com mais óbitos: 14, de acordo com o último balanço.

A Prefeitura de Caxias, último município da Baixada a fechar o comércio, disse que adotou uma série de ações restritivas com o objetivo de proteger a população do novo coronavírus, como a atuação de equipes de segurança nas ruas.

Já em Nova Iguaçu, onde a prefeitura decretou o fechamento do comércio dia 21 de março, era possível ver ontem lojas abertas e muitas pessoas circulando. A prefeitura disse que, em parceria com a Polícia Militar e o programa Segurança Presente, está ajudando e orientando na organização de filas, por exemplo, para evitar aglomerações. Denúncias podem ser feitas à prefeitura pelo WhatsApp 21 99139-1338.

O cenário de mortes e casos confirmados do Rio poderia ser pior não fosse o isolamento social de quem pode ficar em casa, segundo o secretário estadual de Saúde, Edmar Santos. Porém, ainda não há o que comemorar. Ele teme que o início do achatamento da curva tenha sido prejudicado pelo afrouxamento da quarentena por parte da população.

— As pessoas confundiram. O governo atuou rápido e de maneira correta. Então, a população joga isso no lixo! Vai para o calçadão caminhar! Hoje estou preocupado, com medo de que a curva pegue um movimento ascendente, quando ela estava achatada. Tenho dúvida se, daqui a duas semanas, teremos uma resposta positiva — lamentou o secretário.

O governador Wilson Witzel admitiu que, caso haja orientação de especialistas em saúde, pode haver lockdown (isolamento total das pessoas) no Rio. E defendeu um endurecimento na legislação para a punição mais severa a quem quebrar a quarentena e ainda o pagamento de multa. Sobre as aglomerações que ainda são vistas, ele cobrou das prefeituras fiscalização mais rigorosa:

— Os prefeitos têm que isolar essas áreas (onde há aglomerações). Colocar fita, barreira. A polícia está à disposição dos municípios.