Enquanto PEC Emergencial é discutida, brasileiros esperam há três meses por ajuda do governo

Letycia Cardoso
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Enquanto a Câmara dos Deputados discute a aprovação da PEC Emergencial, que pode abrir caminho para uma nova rodada de pagamentos do auxílio emergencial, brasileiros já somam três meses sem receber nenhuma ajuda do governo. E a situação não melhorou desde janeiro: com o recrudescimento da pandemia, trabalhadores autônomos têm encontrado maior dificuldade em obter renda por conta própria.

Antes da pandemia, a microempreendedora individual, Ioni Araújo, de 59 anos, trabalhava vendendo joias de prata para funcionárias de escritórios no Centro do Rio de Janeiro. Com o isolamento social e a adoção do home-office, viu as clientes desaparecerem. A solução foi começar a vender bijuterias no Méier, bairro da Zona Norte onde mora com o filho de 17 anos, a quem sustenta sozinha. O rendimento caiu cerca de 90%. No entanto, o valor somado ao auxílio emergencial serviu para manter em dia as contas básicas, como condomínio, água, gás e internet. De janeiro para cá, a vida ficou mais dura — não só o benefício cessou, mas as vendas também diminuíram.

— As poucas pessoas que passam nas ruas, olham meus produtos, gostam, mas não têm dinheiro para comprar. Eu tive que cancelar várias despesas por isso, parei de pagar o tratamento ortodôntico para meu filho e o curso on-line pré-vestibular que ele estava fazendo — conta Ioni: — Ele chorou. Eu chorei junto. Esse novo auxílio que estão falando é uma esmola. O que eu quero é vacina para que as coisas voltem ao normal e eu possa trabalhar.

A chegada do coronavírus ao Brasil também fez com que Eleonora Sampaio, de 58 anos, que mora em Feira de Santana, no interior da Bahia, sofresse perdas. Ela trabalhava com sua kombi, fazendo divulgações de uma escola, e produzia recitais de piano. Os trabalhos foram interrompidos e a renda caiu drásticamente. O benefício de R$ 600 não foi suficiente para manter o aluguel do seu apartamento. Por isso, por cinco meses teve de morar dentro do seu veículo em um terreno vazio. Para complementar a renda, passou a fazer pão de queijo congelado para vender.

Sem o benefício, conseguiu melhorar a sua situação com a ajuda de um amigo, que emprestou uma casa, e da irmã, que apostou em uma ideia de Eleonora.

— Meu sonho sempre foi ser arquiteta, mas ainda não consegui fazer a faculdade. Levo jeito para decoração e reformei um apartamento da minha irmã. Agora, ele está à venda e estou por conta da divulgação e por mostrar para os interessados. Com isso, ela me ajuda com R$ 1.500 por mês, que saem de uma aplicação dela. Sem ela, eu não teria nada — conta.

Pelas contas das irmãs, que se consideram sócias, o dinheiro só dura até abril. Caso o apartamento não seja vendido nesse período, ambas ficarão sem renda e, mais uma vez, Eleonora terá que se virar de alguma forma.

— Eu sou uma sobrevivente. Eu não escolho trabalho... o que aparece, eu faço. Espero que as coisas deem certo — deseja a autônoma.

O cantor Vítor Súnega, de 26 anos, que mora em Santo André, no Estado de São Paulo, também sonha com dias melhores. Ele recebeu o auxílio emergencial e, por um tempo, até conseguiu voltar a se apresentar em pequenos eventos e casamentos que aconteceram respeitando as medidas de segurança. Como a sua cidade voltou para a fase vermelha, teve todos os contratos cancelados.

— Eu estava fazendo um evento por mês, mas já dava para pagar algumas contas. Agora, meu irmão é que está pagando todas as despesas da casa onde moramos juntos. Já os meus gastos pessoais, tive que cortar — diz Súnega.

A PEC Emergencial, que já foi aprovada no Senado e em primeira fase na Câmara, viabiliza a retomada do auxílio emergencial, mas não define valores, duração ou condições para o novo benefício. Originalmente, o texto previa apenas medidas para conter despesas públicas, mas os políticos resolveram incluir o auxílio para acelerar a tramitação da proposta e sinalizar para o mercado o compromisso do governo com a economia. A única definição é o valor de até R$ 44 milhões para o custeio da ajuda à população.

Na última segunda-feira (08), o ministro da Economia Paulo Guedes disse que o benefício deve ser de R$ 175 para pessoas que morem sozinhas. R$ 250 para casais; e R$ 375 para mães solo. O número de beneficiários, porém, deve ser menor: em torno de 32 milhões de brasileiros.

Depois que o Congresso aprovar a PEC Emergencial, o governo ainda precisa enviar um projeto de lei ou medida provisória com as definições de pagamento da nova rodada para que o novo benefício possa finalmente acontecer na prática.