Enrique Diaz fala de 'Mar do Sertão', da família e do casamento em casa separada de Mariana Lima

Enrique Diaz lembra que, na véspera desta entrevista, realizada na quarta-feira (23), o falecimento de seu pai havia completado dez anos. "Hoje, por acaso, eu fui à praia dar uma caminhada e estava com shorts que eram dele. Assim... Sabe?", confidencia, referindo-se às casualidades da vida. Juan Enrique Díaz Bordenave (1926-2012) era paraguaio, educador e comunicador. Com a acadêmica Maria Cândida Rocha, mãe de Enrique, teve mais cinco filhos, um deles o também ator Chico Díaz. Caçula da família, o peruano Enrique, por conta da idade, teve uma relação um tanto quanto distante com o genitor, sem deixar a admiração se perder. Contingencialmente ou não, nos últimos três anos do decênio, a televisão o fez viver três papéis de pai em sequência: o distraído Durval, de "Amor de mãe"; o dilacerado Gil, em "Pantanal"; e o controverso Timbó, de "Mar do Sertão".

— (Na novela das seis), a relação da paternidade traz a questão do patriarcado. Isso está ali no machismo, nessa imagem do pai também malandro, num lugar antigo. Ele louva isso dentro da época respectiva. Você vê o personagem errando, vê de onde vem. Acho isso interessante (artisticamente) — diz o ator, de 55 anos, pai de Antonia, de 14, e de Elena, de 18. — Ao mesmo tempo, eu tento ter a relação mais honesta possível com minhas filhas e com a minha família. É sempre um erro pai e mãe acharem que estão educando. E há um erro atrás do outro. Mas é uma tentativa bem honesta. E tentamos ser transparentes. Eu trago uma coisa específica da relação com meu pai. Eu sou o sexto filho. Minha família morou em muitos lugares, as pessoas foram nascendo em países diferentes. E, como eu sou o último, não tive uma relação tão colada, nem íntima nem próxima, como talvez meus irmãos mais velhos tenham tido. Então, aquela presença, aquela devoção ao pai, não me pertence tanto. Claro, eu o admirei muito. Mas a coisa "umbilical" não pertence muito à minha vida como está na novela. E meus pais eram bem mais velhos do que eu. Eles fizeram parte de uma cultura ainda mais machista do que a do nosso momento.

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Na história, Timbó, um sobrevivente da seca, mostra controvérsias de caráter. Protege a família, mas mente e se envolve em falcatruas. Em alguns momentos, através do personagem, o texto de Mário Teixeira intenciona dubiedades e pode fazer o telespectador pensar questões sociais como o sexismo. Enrique explica:

— Timbó é carismático, fofinho, de certa maneira. Ele queria ter a expressão de uma pureza, de um não letramento e, ao mesmo tempo, de uma esperteza. Acho bonito que as pessoas se apeguem e que ele seja profundamente humano nos erros. Isso é delicado. Acho que, ao assistir, as pessoas podem gostar, depois ficar com raiva... Porque ele não deveria ser "legal". Ele é "não legal". Especialmente no machismo atávico que aparece de uma maneira bem explícita, que não dá para disfarçar. Embora ele continue com o carisma, com as expressões, isso é bem explícito de uma representação de uma parte da nossa cultura, mas muito arraigado. É bom as pessoas terem essa oportunidade de reavaliar. Colocar (quem age assim) não numa espécie de cancelamento, em que a pessoa está errada, nem na passada de pano. É um exercício dialético, bom. Mário Teixeira escreve com as intenções claras. E esse machismo está ali escancarado e não é legal, mesmo. Você vê pessoas próximas com esses sinais e para para pensar.

Ao mesmo tempo que "Mar do Sertão" tem captado a atenção do público por conta do roteiro, o elenco entrosado gera simpatia do telespectador que acompanha os perfis dos artistas nas redes sociais. O ator frisa que, por trás das câmeras, o clima também é de alegria:

— A novela toda é muito linda, desde o texto à estrutura. O universo, o tratamento visual, a atuação, a música, a arte. Acho tudo muito legal. Esse elenco é bem milagroso. É carinhoso, gente boa, põe positividade no trabalho. Você não tem competição, não tem fofoca, não tem nada disso. E assim também é a equipe. A começar pelo Allan Fiterman (diretor), que desde o início confere uma espécie de bênção para a gente ser feliz. E as pessoas que ele escolheu... Não sei se muita gente trabalha com ele há muito tempo, mas os artistas são gente fina. E querem o bem da coisa.

O impacto que a novela causa no público que acompanha folhetim não contagia as filhas de Enrique e de sua companheira, a atriz Mariana Lima. Segundo o pai, as adolescentes se sentem mais atraídas por outros produtos audiovisuais:

— Eu tenho a impressão de que elas não veem nada do que eu faço, nem da Mari. Elas não se relacionam com isso. Comentam que alguém falou de alguma coisa, quando a gente está aparecendo muito. Acho que ficam felizes com isso. Se há a sensação de que somos meio famosos, isso cria uma impressão curiosa nelas. Mas eu acho que não veem nada do que a gente faz. Elas têm a onda delas, seja de internet, de streaming... Não relaciona muito com a fruição disso. Só pelo fato de a gente ter um espírito artístico.

Recentemente, Enrique Diaz e Mariana Lima comentaram em entrevistas que optaram por viver em casas separadas, mesmo com 20 anos casados e tendo feito a união no civil há dois. A escolha virou assunto e gerou debates na internet. Páginas de redes sociais que tratam de relacionamento puseram o assunto "casamento não-tradicional" na pauta. Ele reage:

— Eu encaro com naturalidade. A gente sempre foi discreto em termos de ficar colocando nossa vida para uma esfera pública. De uns anos para cá, especialmente, a Mariana falou mais disso em entrevista e acabaram fazendo disso um assunto, me perguntando também. Não vejo problema de responder. Ao mesmo tempo, nas redes sociais, a gente acaba celebrando a vida, o amor da gente, o casamento, as meninas... Aí postamos alguma coisa e tal. Mas a gente nunca teve uma tendência a ficar fazendo disso uma coisa frontal, que aparece primeiro. Confesso que o único leve incômodo é que esse consumo mais amplo de informação reduz a complexidade dos assuntos. Acho delicado... As pessoas sempre querem botar numa casinha. Sem querer fazer metáfora de uma casinha ou outra casinha (risos). Mas querem fazer um traçado muito rude das coisas. São assuntos que não servem muito para o excesso de simplicidade na leitura. Mas, se as pessoas quiserem usar a imagem da gente para o que quer que seja, eu acho interessante o aspecto que não o da fofoca nem o do cancelamento. Da mesma maneira que a gente está falando do patriarcado, do machismo, a gente conversar sobre uma herança do que são o casamento e as tradições anteriores eu acho interessante. O que aconteceu com a gente sempre, até mais da Mariana do que de mim, foi falar: "Cara, esse casamento, desse jeito que veio como herança...(pode não funcionar para eles)". Não o de morar em casa separada ou abrir relação, nada disso, mas o que tem a ver com a relação homem e mulher. A gente tem que, o tempo todo, ficar revendo porque a gente vive sob o signo de uma opressão, de uma herança. E cabe a nós, vivos, pensar isso, independentemente de tomar decisões ou mudar. Isso eu acho importante. Eu acho legal. E aí são as experiências que a gente vai tendo.

Questionado se a decisão alinhada com a companheira gerou algum incômodo nas filhas por conta da exposição, ele sustenta que não:

— Nunca teve esse assunto, essa conversa, alguma opinião delas em relação a isso. Até porque eu acho pouco provável que elas leiam as mesmas coisas que a gente. Nem estão interessadas em ficar vendo na nossa rede social alguma coisa sobre a gente. Acho que tudo o que elas não querem é ficar lendo alguma coisa sobre a gente. Então, talvez esse assunto não exista porque não aparece ali.

Enrique diz que, devido à maturidade e às funções artísticas que ocupou, decidiu repensar as próprias atitudes ao falar de si mesmo:

— Durante muito tempo, eu dirigi muita coisa, tinha essa coisa de ser o diretor, de dar entrevista, de ter uma colocação como intelectual. Depois de um tempo, fiquei com menos vontade de ter opinião ou dar opinião. E tive vontade de fazer mais coisa pela atuação. Mas hoje em dia, não sei se pelo tempo ou pela idade, estou começando a aceitar mais a ideia de que a gente imprime coisas que têm a ver com nossas escolhas, avaliações da vida, seja intencional ou não intencionalmente. Tem uma certa poética que a gente acaba fazendo. Tenho percebido mais isso. A experiência vai produzindo poética. Há pouco tempo fiz um mestrado (ele concluiu um mestrado na PUC, aos 52 anos) e tive esse embate ao escrever. Fui percebendo que para mim era delicado. Vi que precisaria deixar mais aberto (o jeito de falar de si, a exposição) para ir deixando essas marcas mais ou menos organizadas. Sabendo que elas estarão de qualquer maneira ali. A maturidade ainda não me traz menos cobrança. Mas, quem sabe, daqui a pouco.