Ensino a Distância na educação básica: uma opção viável?

Glenn Carstens-Peters/Unsplash

Por Milena Buarque (@mibuarque)

Em seu plano de governo, o candidato Jair Bolsonaro, do PSL, defende a implementação da Educação a distância (EaD) como uma maneira de solucionar a oferta de ensino em regiões rurais. Embora seja o único momento em que a modalidade é citada ao longo do programa, no mês de agosto, Bolsonaro cogitou o uso da EaD “para o ensino fundamental e médio”.

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A educação a distância tem sido um relevante instrumento de ensino-aprendizagem, com um expressivo destaque, nos últimos anos, no ensino superior. De acordo com o Censo da Educação Superior de 2017, o número de matrículas em cursos a distância cresceu 18% de 2016 para o ano seguinte. Enquanto os dados do relatório organizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) apontam uma queda de alunos matriculados nessas instituições, a modalidade tem protagonizado um crescimento significativo.

Na educação básica, contudo, o tema tem rendido extensos debates. Embora a discussão anteceda à fala do presidenciável, uma das maiores críticas ao uso da EaD nos ciclos fundamental e médio é o impacto que ela poderia representar na sociabilidade e formação de crianças e jovens. Para João Mattar, professor da PUC-SP e da Uninter, sem detalhar a proposta, o candidato do PSL acabou gerando uma polêmica desnecessária.

“As pessoas têm dito que não vai mais haver o contato humano em sala de aula, mas ninguém nunca falou sobre isso. Os alunos vão continuar indo à escola. A ideia é que se introduza apenas algumas atividades a distância, além das que já são presenciais. Você acaba tendo um ensino híbrido. Não precisaria haver tanta polêmica. O Bolsonaro também misturou, em sua fala, EaD com suas opiniões sobre marxismo. Não tem nada a ver”, explica.

Diretor da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), e dedicado a temas relacionados ao uso de tecnologias na educação, Mattar é um dos defensores do chamado ensino “blended” (híbrido), tendência que combina a educação presencial e a modalidade a distância.

“A ideia é que uma parte do currículo possa ser dada de uma outra forma. No fundo, se você pensar bem, o aluno faz lição de casa, uma atividade que já é a distância, do ponto de vista prático. O que você teve nas últimas décadas foi o desenvolvimento de muitas tecnologias que permitam que você faça muito mais coisas fora da escola. Você tem os ambientes virtuais de aprendizagem, onde o professor pode disponibilizar conteúdo, propor atividades ou um fórum de discussão. Hoje você começa a ter a realidade virtual, a aumentada, a inteligência artificial”, diz.

Mensalidades mais baixas e um caráter inclusivo são alguns dos motivos que têm levado jovens para opções a distância e semipresenciais. No superior, a modalidade já representa 21,2% (1,8 milhão) do total de alunos. Há uma década, a fatia era de apenas 7%.

“A resistência na educação básica vem muito do desconhecimento do que é a EaD e das possibilidades que ela traz. Não acho que isso atrapalhe o desenvolvimento da educação brasileira. Estamos em um momento que essa questão está sendo colocada em pauta e isso é bom. O [presidente] Temer já vinha falando disso. Uma hora a gente vai ter que encarar, vai ter que admitir que a gente possa ter atividades a distância”, diz Mattar.

Em maio de 2017, um decreto do Ministério da Educação (MEC) flexibilizou as regras para a oferta no superior. O documento também permitia o uso da modalidade a distância nos anos finais do fundamental, para aluno “matriculados nos anos finais do ensino fundamental regular e [que] estivessem privados da oferta de disciplinas obrigatórias do currículo escolar”. O governo, contudo, voltou atrás logo depois e revogou essa parte do decreto.

Segundo o educador José Manuel Moran, professor aposentado da USP e especialista em novas tecnologias, metodologias ativas e modelos híbridos na educação, a discussão da adoção de tecnologias em sala de aula e a realização de atividades e disciplinas remotas não é nova no Brasil.

“Propostas de ensino a distância na realidade brasileira já acontecem há anos. O que é novo é discuti-lo como política. Como política, as pessoas logo se assustam com os problemas que pode haver e não atentam para as possibilidades. É como você começar a proibir carros com medo de haver muitas batidas por existirem muitos carros. Como princípio, eu creio que quando falamos de ensino a distância também estamos falando de toda essa possibilidade de o aluno fazer cursos e participar de projetos com colegas de outras escolas, completar algum aspecto da formação que ele localmente não consiga”, afirma.

Para ele, não restam dúvidas de que sua implementação na educação básica seria complementar e colaborativa, com a possibilidade de trabalhos feitos coletiva e remotamente, participação em grupos de pesquisa de áreas de interesse, realização de cursos on-line, mas sempre com o componente presencial do professor em sala de aula. Moran acredita que em pequenas cidades, onde muitas vezes faltam professores especialistas, a possiblidade de um conteúdo remoto com apoio local, por exemplo, é um dos pontos positivos da EaD.

“O termo ‘a distância’ atrapalha um pouco. Trata-se de uma educação compartilhada e digital. ‘A distância’ hoje já não reflete as possibilidades de aprendizagem. Creio que esse é o caminho para onde vamos. Não podemos legislar só em função dos que talvez façam isso de forma inadequada. Temos de permitir que a maioria dos educadores possam experimentar propostas que ajudem os alunos a aprender da melhor forma”, diz.

O que Moran qualifica como “forma inadequada” são experiências “rasteiras e simplórias” colocadas em prática por alguns dos grandes grupos educacionais do ensino superior. Na sua visão, esses exemplos fortalecem a resistência de alguns educadores quando o assunto é a EaD.

“Temos que condenar o uso só comercial, mercadológico, da educação a distância. Alguns grupos que têm uma grande influência econômica fazem propostas de EaD muito conteudistas, um pouco simplórias no acompanhamento dos alunos. É o foco ainda no mundo do mercado, em ganhar dinheiro com educação, que é legítimo dentro de um sistema como o nosso. No entanto, a forma como isso está acontecendo faz com que todos fiquem mais desconfiados. Ainda assim, como projeto educacional, eu creio que é no mínimo discutível. E que se deve colocar em pauta”, diz.

Formação de professores para o uso de novas tecnologias e infraestrutura adequada para a promoção da modalidade são apenas alguns dos primeiros desafios em um sistema educacional tão desigual como o brasileiro. Entretanto, os dois parecem concordar que se trata de um processo como qualquer outro.

Para Mattar, há uma incongruência na transição de uma educação totalmente presencial até o fim do ensino médio para a possibilidade de se cursar uma universidade 100% a distância.

“Nenhuma escola vai largar tudo e migrar para a EaD. Até porque ninguém está preparado para fazer isso. Não temos essa tradição no Brasil. Isso vai sendo construído, é um processo. Claro que pode ser negativo, mas aí você pode pensar que também se tem escola presencial ‘negativa’. A gente não tem que ter medo. Nós estamos atrasados no debate, porque é um absurdo que a gente não possa ter nada de atividade a distância no ensino médio e, ao mesmo tempo, um aluno que pode fazer um curso universitário 100% a distância, porque já é permitido pela legislação. Há uma incoerência grande aí”, explica.