Ensino inclusivo: Unicamp reúne jovens surdos para criar sinais de Libras dos conteúdos da matemática

SÃO PAULO - Um projeto inédito no país, que acaba de ser lançado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), quer desenvolver novos sinais de Libras, a língua brasileira de sinais, para termos matemáticos. Hoje já existem símbolos para definir termos corriqueiros, como adição ou subtração, mas não há como demonstrar equações de segundo grau ou logaritmos por meio de gestos, o que dificulta a aprendizagem de estudantes surdos.

As barreiras de acessibilidade linguística para esses alunos já costumam ser grandes pela escassez de intérpretes de libras em instituições de ensino do país e se agravam quando se trata do ensino de matemática.

Iniciativas como a primeira Olimpíada Brasileira de Matemática em Libras (OBMLibras), realizada no mês de outubro em escolas públicas e privadas, auxiliam na inclusão e disseminação dos conhecimentos matemáticos à comunidade surda, mas reduzir esse obstáculo continua sendo um grande desafio.

Chamada de “Matemática + Libras”, a oficina da Unicamp, com apoio da UFF e da UFABC, será realizada de 16 a 27 deste mês. Os quatorze estudantes do ensino médio indicados para o curso foram selecionados em onze escolas públicas e três particulares de cinco estados — São Paulo, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro e Pará. Eles passarão uma semana às voltas com questões na área de geometria, período em que também ocorrerão atividades sociais no campus da universidade do interior paulista e passeios à capital do estado.

Por meio da resolução de exercícios, os estudantes se dedicarão a desenvolver novos sinais para nomear expressões matemáticas mais elaboradas. Ao final de cada dia de atividades, os alunos gravarão vídeos executando os sinais que desenvolveram. Posteriormente, o material será publicado no canal do Youtube do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc) da Unicamp. A ideia é ampliar ao máximo a sua difusão para reduzir as dificuldades de compreensão existentes em sala de aula de outros estudantes surdos.

— O ensino da matemática é completamente visual. Nossa ideia é enviar esse conteúdo para as secretarias estaduais de educação do país e fazer com que mais pessoas tenham acesso, para facilitar quem ensina e quem aprende — afirmou o professor Marcelo Firer, responsável por iniciar o projeto na Unicamp.

Unificação

O professor avalia que o projeto é um primeiro passo para explorar um caminho que possa reduzir os problemas na educação de pessoas surdas no país. Um dos objetivos é fortalecer a cultura da disciplina entre as pessoas com deficiências auditivas, de modo a diminuir a exclusão dessas pessoas nas profissões que exigem um estudo mais aprofundado da matemática.

— Tive várias experiências em diferentes escolas. Cada ano que passa é muito importante para a comunidade surda, pois as acessibilidades aumentam. Nas primeiras escolas que frequentei não tínhamos intérpretes, o que dificulta a convivência e interrompe o desenvolvimento de um surdo — lembra a estudante Thayssa Vitória Souza, de 19 anos, surda de nascença, que agora estuda no Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), onde a presença de pessoas fluentes em libras é constante.

Finalizando o ensino médio, a moradora da Rocinha, no Rio de Janeiro, acredita que a oficina será um grande diferencial, no futuro, quando conseguir realizar o sonho de ser professora de matemática em uma escola para surdos.

Outro objetivo da iniciativa é reduzir déficits de comunicação de surdos pela falta de unificação entre os sinais que representam nomenclaturas matemáticas, já que a Libras também tem seus dialetos e sotaques regionais.

Professora de matemática da rede pública do Ceará e uma das idealizadoras do projeto, Aglaiza Sedrim Gonçalves conta que despertou para a educação inclusiva quando se deparou com uma aluna surda durante seu período de estágio. A partir disso, ingressou em seu primeiro curso de libras e descobriu que não havia um “sinalário” — reunião de sinais manuais – para muitos dos termos matemáticos.

— Desde 2017, o Enem tem videoprovas para candidatos surdos ou com deficiência auditiva. O problema é que não há padronização oficial das expressões matemáticas. A pessoa surda pode não conhecer o sinal utilizado em determinada região e tirar uma nota menor na prova. Assim surge a necessidade de estabelecer esses termos mais abrangentes — diz Aglaiza, que também é formada em letras, com especialização em libras.

*Estagiária sob a supervisão de Mauricio Xavier