Entenda como foi o lockdown na cidade em SP que não teve mortes por Covid-19 após 44 dias

Louise Queiroga
·4 minuto de leitura
  • Araraquara, no interior de São Paulo, manteve lockdown por 10 dias

  • Após o período, pela 1ª vez em 44 dias, cidade não registrou mortes por Covid nesta sexta (26)

  • Variante de Manaus foi uma das responsáveis pela alta na transmissão

Entre 21 de fevereiro e 2 de março, o município de Araraquara (SP) parou. E foi por esta pausa que, segundo o prefeito Edinho Silva (PT), a cidade viu diminuir os números de casos da Covid-19 até que o boletim epidemiológico desta sexta-feira, dia 26, não tenha computado nenhuma morte pela doença nas 24h anteriores

A cidade viveu um caos em meados de fevereiro por causa da pandemia. Para reverter esse quadro, impulsionado pela identificação da variante de Manaus do coronavírus, a prefeitura determinou um rígido lockdown. Em evento do governo de São Paulo sobre novo estudo do Instituto Butantan, Silva atribuiu a melhora na Saúde municipal às medidas sanitárias tomadas.

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— Araraquara fez aquilo que a ciência diz que se deve fazer. E quero aqui de forma muito emotiva dizer que, depois de um longo período, hoje Araraquara não registrou nenhum óbito. Depois de ter um índice de contaminação de 53% das amostras remetidas aos laboratórios, ontem (quinta-feira, 25) nós tivemos 7% de positivação — afirmou o prefeito.

COMO FOI O LOCKDOWN EM ARARAQUARA?

A quarentena em Araraquara passou a valer a partir do meio-dia do dia 21 de fevereiro. A princípio, ela ficaria em vigor apenas até à meia-noite do dia 23. No entanto, a gravidade da pandemia fez com que a prefeitura prorrogasse a proibição de ter pessoas e veículos nas vias públicas. Houve recorde de internações nos dias 25 e 26 de fevereiro na cidade, correspondente a 247 pacientes com Covid-19 em UTIs e enfermarias municipais.

Com relação ao comércio, supermercados podiam funcionar apenas por delivery e atendimento presencial podia ser feito só em farmácias e unidades de saúde. O transporte coletivo foi interrompido.

A permissão para a população sair de casa foi concedida, segundo o decreto, apenas nos casos de obtenção de atendimento ou socorro médico, incluindo animais, aquisição de produtos ou prestação de serviços essenciais, embarque e desembarque no terminal rodoviário e entrada ou saída do município por outros meios de locomoção, além de ocorrências de urgência.

MEDIDAS DE FLEXIBILIZAÇÃO 

Mesmo durante o lockdown algumas flexibilizações foram tomadas, como a volta do funcionamento de postos de combustíveis para que profissionais de serviços essenciais pudessem abastecer seus veículos. O sistema de venda por delivery passou a ser liberado para mercearias, padarias, açougues, hortifrútis, lojas de insumos médico-hospitalares e de higienização. 

A entrega de gás de cozinha e água em galões de 10 e 20 litros também foi permitida. Quanto às agências bancárias, o atendimento pôde ser só através dos caixas eletrônicos, com distanciamento de três metros entre clientes nas filas.

Enquanto algumas medidas restritivas permaneceram durante março, cumprindo um retorno gradual de atividades, outras permaneceram em vigor. Aulas presenciais nas instituições de ensino municipais, por exemplo, devem voltar só a partir de 12 de abril.

— Quero aproveitar oportunidade e dizer aqui que o isolamento social é uma medida dura e ela só é tomada quando não há outro instrumento. Se ainda nós não temos uma celeridade no processo de vacinação, o que nos resta para que possamos conter a contaminação - e, consequentemente, o risco de colapso do sistema de saúde e de óbitos - é o isolamento social — destacou o prefeito. — Estamos tirando a pressão sobre nossos leitos.

Consultado pela prefeitura, o professor Paulo Inácio da Costa, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp, alertou para a população de Araraquara não relaxar, mesmo com a diminuição dos casos e mortes.

"A gente ainda não eliminou esse vírus. Apenas estamos controlando", afirmou ele, que também é responsável pela unidade de Araraquara do Laboratório da Rede Unesp de Diagnóstico para Covid-19.

"A maneira de conter a progressão da doença é o cuidado, o uso correto de máscaras, a não aglomeração, o distanciamento, o cuidado quando saímos e voltamos, a higienização. A batalha não está vencida. Precisamos manter essa consciência, em cada um, de que a máscara é fundamental, o distanciamento é fundamental, as medidas de higiene são fundamentais enquanto não temos uma vacinação em quantidade suficiente. Quanto maior o tempo que o vírus se mantém em nosso meio, maior a chance do aparecimento de outras variantes", acrescentou.

CASOS E NOTIFICAÇÕES DE COVID APÓS O LOCKDOWN

De acordo com os dados municipais, foram notificados, até esta sexta-feira, 318 óbitos decorrentes de coronavírus em Araraquara. O último boletim contabiliza 31 novos casos confirmados de coronavírus, o equivalente a 7% de 446 amostras analisadas nos serviços públicos de saúde. Além destes, mais 12 foram positivados em laboratórios da rede complementar particular, totalizando 43 novos casos. Desde o início da pandemia, foram computados 16.957 casos.

A taxa de ocupação é de 81% de leitos de enfermaria e 91% de UTI. Estão internados 205 pacientes, sendo 117 estão em enfermaria (7 suspeitos e 110 confirmados), e 88 em UTI (2 suspeitos e 86 confirmados). Entre os doentes, 105 são moradores de Araraquara e 100 são de outros municípios e foram transferidos para hospitais da cidade, sendo que metade está na UTI.