Entenda como funciona a tecnologia RNA, usadas nas vacinas da Pfizer e da Moderna

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1.8ml of Sodium chloride is added to a phial of the Pfizer/BioNTech COVID-19 vaccine concentrate ready for administration at Guy's Hospital, in central London on December 8, 2020. - Britain on December 8 hailed a turning point in the fight against the coronavirus pandemic, as it begins the biggest vaccination programme in the country's history with a new Covid-19 jab. (Photo by Victoria Jones / POOL / AFP) (Photo by VICTORIA JONES/POOL/AFP via Getty Images)
Vacina da Pfizer começou a ser aplicada no Reino Unido na última terça-feira, 9 (Foto: Victoria Jones/POOL/AFP via Getty Images)

As vacinas contra o coronavírus desenvolvidas pela Pfizer/BioNTech e pela Moderna usam uma tecnologia inovadora, chamada RNA. O método nunca foi usado antes na produção de vacinas para humanos, mas, durante as pesquisas, está se mostrando eficiente.

Na última terça-feira, 8, o Reino Unido começou a vacinação em larga escala no país com a imunização da Pfizer. Os Estados Unidos devem dar início à imunização nos próximos dias. Enquanto o Brasil negocia a compra de 70 milhões de doses da vacina.

O virologista Anderson Brito, pesquisador na Universidade de Yale e PhD pelo Imperial College de Londres, afirma que, ao longo do tempo, foram desenvolvidos novos métodos de imunização e a tecnologia RNA seria uma terceira geração.

As primeiras imunizações eram feitas com o vírus inativado ou enfraquecido, com várias proteínas que o vírus ativo produziria durante a infecção, mas sem capacidade de se reproduzir. Já a segunda geração simplificou o processo: as vacinas passaram a ter só proteínas ou fragmentos de proteínas dos vírus, o que já era suficiente para produzir a imunidade.

“Já as formulações de vacinas de terceira geração têm por foco fornecer não as proteínas já prontas, mas sim uma ‘receita’ para a produção de proteínas: o RNA mensageiro. Na Biologia Molecular, sabemos que ‘DNA serve de molde a produção de RNA, e o RNA serve de molde para a produção de proteína’”, explica.

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“Os coronavírus tem material genético feito de RNA (que serve de molde à produção de proteínas). As vacinas da Pfizer e da Moderna contém um fragmento do RNA viral, que corresponde ao gene da espícula viral (conhecida como proteína spike). Moléculas de RNA são revestidas por uma "couraça" de gordura (lipídios), que servem para entregar os RNAs para nossas células quando a vacina é injetada no nosso corpo. Lá, os RNAs servem de molde para que proteínas spike sejam produzidas. Assim, nosso sistema imunológico terá acesso a proteínas virais, e será treinado para enfrentar o coronavírus, de forma bastante segura, eficaz e sofisticada”, detalha.

DIFERENÇA PARA A CORONAVAC E OXFORD/ASTRAZENECA

Segundo Brito, a CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório SinoVac em parceria com o Instituto Butantan, usa tecnologia da primeira geração, ou seja, feita com o vírus inativo. “É a mesma tecnologia já usada para a produção de vacinas contra os vírus da poliomielite e da gripe”, lembra.

Já a imunização da Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca está na terceira geração e é feita de DNA, ou seja, do gene da proteína spike. “Nessa formulação [os genes] são entregues a nossas células dentro de uma estrutura viral (um capsídeo), sem capacidade de se reproduzir. Então, ao invés de usar uma ‘couraça’ de gordura para transportar moléculas de DNA a nossas células, essas vacinas de ‘vetor viral não-replicante’ usam a ‘couraça’ de outro vírus (adenovírus) para conduzir o DNA às células.”

VANTAGENS E DESVANTAGENS

Na avaliação de Anderson Brito, a partir do momento que as vacinas da terceira geração se mostrarem eficazes, poderão revolucionar a forma como a indústria farmacêutica produz vacinas. Em uma nova pandemia, por exemplo, essa técnica levaria a um desenvolvimento mais rápido de vacinas, segundo o virologista.

“A síntese de fragmentos de RNA em laboratório é relativamente simples, e diante de uma nova epidemia, o domínio dessa nova técnica irá proporcionar produções de vacinas de forma mais rápida, pois não depende da produção de estruturas virais como proteínas, em larga escala. Partimos do RNA, e cortamos caminho”, pontua.

Por outro lado, há desvantagens. Brito explica que as moléculas de RNA são especialmente sensíveis e podem ser destruídas, especialmente se estiveram armazenadas fora da temperatura adequada. “Por isso é necessário que tais vacinas sejam mantidas em refrigeradores específicos, comuns a laboratórios de pesquisa, que mantém o material a temperaturas de até -80 graus Celsius”, afirma.

Enquanto a vacina da Pfizer deve ser armazenada a 75 graus negativos, a da Moderna precisaria ficar em 20 graus negativos.

Se as vacinas de RNA foram retiradas da temperatura adequada, devem ser utilizadas em até cinco dias. Com esse pré-requisito, é preciso que a logística de transporte e armazenamento das vacinas seja ainda melhor pensada pelos governantes.

As baixas temperaturas são, de fato, um problema para o Brasil. O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, já declarou que a preferência do Brasil é comprar vacinas que possam ser armazenadas entre 2 e 8 graus, ou seja, temperatura da cadeia de frio já existente no país.

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