Entenda como funciona o BeReal, rede social de fotos que se vende como anti-influenciadores

“Se você quiser se tornar um influenciador, pode ficar no TikTok e no Instagram.” Essa é a descrição da BeReal, rede social que tem causado burburinho nas últimas semanas. Alguém pode se perguntar: quem precisa de mais uma rede? Mas essa promete resgatar a espontaneidade perdida entre vídeos supereditados tocando “Acorda, Pedrinho”, #tbt de férias incríveis e, claro, influencers postando algum #publi. Lá, nada disso se cria: vídeo não é permitido e foto, só a do momento — e sem filtro.

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Funciona assim: todo dia, o app avisa, num horário aleatório, que está na hora de publicar e pede autorização para acionar a câmera traseira e dianteira ao mesmo tempo, fazendo uma selfie e um retrato do ambiente — que são publicados juntos. O usuário só consegue ver o que os amigos publicaram se fizer post também. No perfil, nada de número de seguidores, e as fotos desaparecem para os contatos depois de um dia.

A internet é cheia dos seus 15 minutos de fama, e é impossível prever a longevidade do BeReal. Sabe-se que, no fim de abril, nos Estados Unidos, ele ultrapassou por um dia o TikTok no ranking de redes sociais mais baixadas. Por aqui, já há versão em português e um bocado de gente no Twitter falando sobre o assunto. Passageira ou não, a novidade traz uma provocação interessante com sua aversão à cultura de influenciadores: estamos cansados dessa overdose de profissionalização nas redes sociais?

—Existe uma estafa do excesso de edição para postar momentinhos maravilhosos nas redes. E aí precisa vir uma rede nova para nos fazer pensar: “será que não estou sendo de verdade nas outras?” — diz Ana Paula Passarelli, co-fundadora da agência de influenciadores Brunch e mestra em semiótica pela PUC-SP, que abriu um perfil quando tudo era mato no BeReal, há distantes três meses.

Esse compartilhamento de “o que estou vendo e como estou agora” lembra o início da web, quando a palavra influenciador não fazia parte do vocabulário digital. O próprio Instagram nasceu como uma ideia de crônica fotográfica do dia a dia de cada usuário.

— Toda vez que posto algo no BeReal, está relacionado a uma coisa mais cotidiana, nada extraordinária. E isso é próximo dos primórdios da internet.

Lugares invisíveis

O app foi criado em 2020 pelo francês Alexis Barreyat, um ex-editor de vídeos da câmera GoPro, cansado do trabalho com influencers e da maquiagem de suas vidas. Recebeu um aporte de US$ 30 milhões no ano passado, e já teve quase 8 milhões de downloads, com um crescimento de 315% neste ano, segundo a empresa de consultoria Apptopia. O marketing nos Estados Unidos tem sido agressivo entre universitários, mesmo público que Zuckerberg atingiu nos primórdios do Facebook.

Mas ao mesmo tempo que sua lógica anti-influencer aguça a curiosidade dos zennials, o BeReal chega num momento em que ser digital influencer é o negócio dos sonhos de milhares de pessoas. Aqui no Brasil, então, nem se fala. Segundo dados deste ano da empresa de pesquisas Nielsen, existem mais de 500 mil influenciadores no Brasil, apesar de profissionais do mercado acharem esse número subestimado.

De um lado, uma porção de jovens ávidos por descobrir uma interação mais original. De outro, uma população inteira de digital influencers. O que essas duas realidades têm a nos dizer? Certamente, uma rede coexiste com a outra, mas indica que tipo de conexão queremos estabelecer. Influência pelo glamour tende a ficar em baixa.

— Estivemos no ápice do formato de inspiração, mostrando vidas incríveis, e agora estamos brincando com outras formas de ver a vida das pessoas — diz Bia Granja, cofundadora da consultoria de negócios YouPix. — Vamos nos cansar da influência e da criação de conteúdo com vaidade e ego e começar a olhar para esses lugares invisíveis.

Exaustão pós-post

Paranaense radicada em São Paulo, a podcaster Thais Rocha, de 29 anos, está de olho nesses lugares porque anda “cansada”. Ficou ainda mais exausta quando viu o “script básico do dia a dia” da influenciadora Bianca Andrade, a Boca Rosa. Ela compartilhou, na última semana, o cronograma dos itens que deve postar nos Stories diariamente. Vai de “acordar com xícara de café” e “mostrar foto fofa do neném” até “boa noite com frase de pensamento”. Esse tipo de planejamento, dizem especialistas na área de mídias sociais, é normal para quem trabalha como influenciador digital, principalmente com o tamanho de Bianca (17,9 milhões de seguidores). Mas chocou usuários “normais” como Thais.

— Esse roteiro profissional de post o dia inteiro faz perder a espontaneidade da coisa. E está todo mundo procurando trabalhar com isso. Você começa a se diminuir porque não consegue fazer milhões de posts por dia igual aos outros — diz a podcaster, que vem testando o BeReal nos últimos dias e achado “mais pessoal”.

Mineiro de Belo Horizonte, Rafael Torga, de 27 anos, usa o Instagram atualmente mais para o serviço de mensagem porque não tem dado conta do feed. No TikTok, ele nem entra, por achar “barulhento demais”.

—Existe essa “empresalização” do ser humano, e isso me cansa um pouco — diz o estudante de arquitetura, que curtiu a proposta de apenas uma foto por dia do BeReal.

Para Camila Coutinho, de 34 anos, uma das primeiras influencers do Brasil, por ter começado, em 2006, o blog “Garotas estúpidas” — hoje plataforma de estilo de vida moda e marca de beleza — ,o cenário atual mostra uma certa “crise de confiança” com o que se vê nos feeds.

—A pessoa consome um monte de informação e, ao mesmo tempo, precisa raciocinar se o que vê é verdade ou não, se aquela vida é melhor que a dela ou não — diz Camila. —Por que, basicamente, quem tem uma rede social aberta hoje em dia está ali promovendo a si mesmo.

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