Entenda como funciona o software israelense usado para recuperar conversa apagada entre mãe de Henry e babá

Rafael Nascimento de Souza
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Foi através de um software israelense, capaz de recuperar mensagens ou imagens apagadas em qualquer dispositivo eletrônico, que o Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) conseguiu identificar “prints” (fotografias da tela) de conversas apagadas entre a babá do pequeno Henry Borel Medeiros, de 4 anos, e a mãe da criança, a pedagoga Monique Medeiros da Costa Silva. Os diálogos entre Thainá de Oliveira Freiras, de 25 anos, e Monique relatavam agressões sofridas pelo menino, que teriam sido causadas pelo vereador Jairo Souza Santos Júnior, o doutor Jairinho, namorado da mãe da criança. O casal foi preso na manhã desta quinta-feira.

O programa Cellebrite Premium foi adquirido recentemente pela Polícia Civil e está sendo usados para analisar todos os 11 aparelhos apreendidos pela 16ª DP (Barra da Tijuca). Os telefones celulares foram recolhidos no dia 26 de março, e a Secretaria de Polícia Civil recebeu o software de inteligência artificial no dia 31. Atualmente, são poucos os departamentos de perícia criminal do país que contam com essa ferramenta israelense, que ficou conhecida ao ser usada pela operação Lava-Jato. No Rio, o único órgão que dispunha do dispositivo era o Ministério Público. A informação do uso do equipamento para solucionar parte do caso foi antecipada pela colunista Berenice Seara, do EXTRA.

Para os investigadores, o programa foi peça fundamental para a descoberta de agressões contra Henry. Para se ter ideia, só do telefone da mãe da criança — um iPhone 11 — os agentes conseguiram extrair 27 megabytes de informações. A grande maioria de conversas por WhattsApp que haviam sido apagadas e acabaram recuperadas. O aparelho celular de Jairinho ainda está sendo periciado.

— (O software) Contribuiu de maneira muito importante para a investigação — disse o delegado Antenor Lopes Martins Júnior, diretor do Departamento Geral de Polícia da Capital (DGPC): — Foi uma prova técnica essencial, muito forte, em que o delegado (Henrique Damasceno) embasou seu pedido de prisão, que foi corroborado pelo Ministério Público e acabou sendo deferido pela juíza do 2º Tribunal do Júri.

Segundo a Polícia Civil, há pelo menos dois anos o estado vinha tentando a compra do equipamento de rastreio. No entanto, a licitação estava parada.

— O governador Cláudio Castro liberou verba no último dia 31, e conseguimos adquirir esse equipamento de última geração, que foi fundamental para o esclarecimento do caso — frisou Antenor Lopes.

O que é o Cellebrite Premium?

É um software vendido por uma empresa de Israel para o uso policial, sobretudo na perícia de dispositivos eletrônicos. Segundo a fabricante, o programa tem autonomia técnica para desbloquear todos os tipos de aparelhos celulares — como os com sistema operacional Android ou iOS (iPhones). A companhia já ofertou seus produtos à Polícia Federal em investigações de lavagem de dinheiro e outros crimes. A disponibilização do produto é limitada.

A empresa ainda oferece suporte em laboratório com “especialistas certificados em inteligência digital”. Para segurança, a empresa não informa como é feita a atualização do produto.

A Cellebrite não detalha como funciona o serviço. Mas, em linhas gerais, são usados um conjunto de tecnologias, de softwares e hardwares, para o desbloqueio do aparelho e para identificar e extrair informações já apagadas.

O que foi encontrado no celular da mãe de Henry

No iPhone de Monique, os agentes conseguiram recuperar uma conversa em que a cuidadora da criança relatava que o menino havia sido agredido por Jairinho. A conversa aconteceu em fevereiro e apontou que o parlamentar agredia Henry com o conhecimento da mãe, de acordo com a Polícia Civil. O celular da babá foi apreendido nesta quinta-feira.

Durante a operação que prendeu Jairinho e Monique, os investigadores afirmam que ambos tentaram se livrar de outros aparelhos, jogando-os pela janela. Os celulares, contudo, também foram apreendidos.