Entenda como memória de Pelé deve ser preservada para novas gerações

Pelé morreu, mas seguirá vivo na memória dos amantes do futebol e nas reflexões de historiadores, sociólogos e antropólogos. A trajetória e os feitos do maior jogador de futebol de todos os tempos já estão devidamente documentados em museus espalhados pelo país. Em documentários, filmes e biografias. O que surgirá de novo daqui para frente dependerá de desdobramentos de sua própria morte. E de como as ciências sociais passarão a entendê-lo daqui em diante.

O professor de história Fernando Castro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acredita que, nos próximos anos, podem surgir conteúdos inéditos sobre o Rei do Futebol. Arquivos particulares, do próprio jogador ou de familiares, pessoas próximas, que possam revelar novos aspectos de quem foi Edson Arantes do Nascimento.

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Materiais como o acervo fotográfico que O GLOBO apresentou com exclusividade, com mais de 3 mil fotos tiradas de Pelé entre as décadas de 1970 e 1990, e que esteve guardado por anos com a família de Luiz Alberto de Andrade, fotógrafo e amigo pessoal do camisa 10. Imagens que ajudam a mostrar um Rei pouco acessível na época, na sua intimidade.

— Cabe ao historiador reunir esses fragmentos do passado. E vai caber a eles a busca por novas fontes, que construam novas narrativas e que façam Pelé ser cada vez mais entendido — afirmou Fernando Castro.

Estudar Pelé extrapola o campo esportivo. O professor acredita que compreender o Brasil da década de 1950 em diante passa por entender o que representou o jogador, a personificação da própria identidade nacional para o mundo. Pelé se tornou tão abrangente que, a partir dele, é possível estudar racismo, questões de identidade, política externa. É possível compreender aspectos do período da ditadura militar no país, entre 1964 e 1985.

Pelé, entre tantas funções que ocupou depois que se aposentou do futebol, foi agente político e seu papel como Ministro dos Esportes, entre 1995 e 1998, durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso, é algo até agora pouco estudado pela historiografia, acredita Fernando Castro.

— E separar Pelé de Edson é um erro de narrativa. O legado está acima dos erros que todos nós cometemos. E entender essas falhas é observar a sociedade como um todo — completou.

Releituras do rei

Além de dados novos sobre Pelé que possam vir à torna, as ciências sociais, ao longo do tempo, devem revisitá-lo e mantê-lo não apenas vivo, como em transformação.

Novas correntes da sociologia propiciarão novos olhares sobre o personagem, apresentando prismas diferentes dos atuais.

Um exemplo disso já ocorre nos dias de hoje. As primeiras interpretações sobre o papel do jogador, quando inserido no fenômeno do racismo no Brasil, já se diferem de leituras mais atuais.

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Os estudos hoje tendem a isentá-lo de uma suposta omissão no combate ao problema, algo que pesou sobre Pelé por décadas, depois do fim da carreira como jogador. Ao longo dos próximos anos, o ex-jogador deve ser alçado ao patamar que nunca conseguiu ocupar em vida, de símbolo da luta antirracista no país.

— Quem estudou Pelé 50 anos atrás o fez de forma diferente de quem estuda hoje. As questões não são as mesmas — explica Aira Bonfim, historiadora, pesquisadora e curadora de exposições no Museu do Futebol (SP): — As pessoas vão olhar para o lugar que ele ocupou e as dificuldades disso sendo um homem negro. A biografia dele é muito complexa, digna de um rei. Não dá para pensar em alguém que teve um poder de apreensão como ele teve por tanto tempo.

Atualmente, Pelé conta com um museu específico para contar sua trajetória, inaugurado em 2014, no centro histórico de Santos. Além dele, é possível ver trechos de sua biografia como atleta no Museu do Futebol, em São Paulo, e no Museu da Seleção Brasileira, na sede da CBF, no Rio de Janeiro. Em Três Corações, no interior de Minas Gerais, um museu trata sobre o início da vida de seu cidadão mais ilustre.

Os direitos de imagem de Pelé pertencem a uma empresa dos Estados Unidos, que precisa vender a autorização para exposições sobre o Rei do Futebol.