Entenda como as mutações brasileiras podem afetar a eficácia de vacinas da Covid-19

Ana Lucia Azevedo
·9 minuto de leitura
Felipe Nadaes / O Globo

Novas linhagens do novo coronavírus Sars-CoV-2 se espalham e provocam apreensão no mundo. Causam particular preocupação as linhagens surgidas recentemente no Brasil, na África do Sul e no Reino Unido. Possivelmente, elas são mais contagiosas e conseguem escapar do ataque de anticorpos. Isso tornou ainda mais necessário vacinar o maior número de pessoas o mais depressa possível, alertam cientistas.

Entenda a seguir o motivo do alarme e por que o surgimento de mutações já faz países fecharem as portas aos brasileiros.

O que são mutações?

São alterações no código genético do vírus. Uma mutação ocorre quando uma das bases da sequência de um determinado gene do vírus sofre um “erro” ao ser copiada, quando ele se multiplica dentro da célula invadida. Uma mutação nada mais é do que um trecho de uma sequência genética com uma base trocada.

Mutações são raras?

Não, ao contrário. Elas acontecem normalmente em qualquer vírus e não apenas no coronavírus Sars-CoV-2. Diferentemente dos mutantes da ficção científica, vírus mutantes são triviais.

Todas as mutações são nocivas?

Não. A maioria das mutações não tem qualquer impacto e algumas são até prejudiciais ao próprio vírus. Porém, por vezes, os vírus sofrem mutações que favorecem sua sobrevivência e, por seleção natural, elas acabam por prevalecer.

Que mutações causam preocupação?

Justamente aquelas que oferecem alguma vantagem ao vírus. Essa vantagem pode ser uma maior transmissibilidade, o aumento da capacidade de replicação e a capacidade de escapar do ataque do sistema imunológico e, em tese, de vacinas.

As novas mutações poderiam provocar que tipo de impacto?

Não se sabe. Estudos inconclusivos sugerem que poderiam aumentar a transmissibilidade e a capacidade de ataque (neutralização) dos anticorpos. Nenhuma dessas mutações foi associada ao aumento da agressividade, isto é, causar Covid-19 grave.

O Sars-CoV-2 já sofreu muitas mutações?

Menos do que ocorreria com outros tipos de vírus cujo código genético também é composto de RNA, mais instável do que o DNA e, por isso mesmo, mais sujeito a erros durante a replicação. Mutações são um subproduto da replicação do vírus. O Sars-CoV-2 tem uma enzima que o ajuda a corrigir certos erros, mesmo assim, porém, sofre constantes mutações.

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Por que mais mutações têm sido descobertas agora?

A principal explicação é a alta circulação do coronavírus Sars-CoV-2 devido à falta de medidas de contenção, como distanciamento social, uso de máscara e falta de higiene. Quanto mais pessoas infectadas, mais vírus e maior a probabilidade de ele sofrer alterações.

Por que as mutações encontradas recentemente no Brasil, Reino Unido e na África do Sul causaram tanta preocupação?

Porque afetam o chamado RDB, o ponto em que o Sars-CoV-2 se liga às células humanas. O RDB é a região mais crítica da proteína mais importante do coronavírus, a espícula ou S, alvo da maioria das vacinas e dos anticorpos neutralizantes produzidos pelo sistema imunológico. Como é o ponto de ligação entre o vírus e as células, o RDB é atacado pelos anticorpos.

E o que fazem as mutações no RDB?

Elas conferem ao vírus o que os cientistas chamam de mecanismo de escape. Ou seja, as mudanças genéticas fazem com que os anticorpos percam a especificidade contra o RDB porque ele já não é mais o mesmo. Os anticorpos passam a ser como tiros a esmo, deixam de “neutralizar” o vírus. Com isso, o Sars-CoV-2 pode “escapar” e infectar uma pessoa com mais sucesso.

Essas mutações foram importadas?

Não necessariamente. O mais provável é que a mesma mutação tenha emergido de forma independente em diferentes lugares. Trata-se de um fenômeno conhecido chamado convergência viral.

Mutação é a mesma coisa que variante?

Não. Mutações são mudanças pontuais no vírus. Variante é um vírus que tem uma ou mais mutações.

E linhagem?

Embora o termo seja normalmente empregado como sinônimo de variante, cientificamente não são a mesma coisa. Uma linhagem em senso estrito é um vírus com características distintas, por exemplo, uma maior transmissibilidade, oriunda de uma ou mais variante.

Quantas variantes emergiram no Brasil recentemente?

Desde dezembro foram descritas três, a mais recente delas este mês, no Rio Grande do Sul. Porém, as que têm causado maior preocupação são as variantes chamadas de P1 e P2, principalmente a primeira.

Por que a P1 preocupa?

A P1 no exterior é chamada variante brasileira ou amazônica. Ela recebeu a classificação de “Variante de Preocupação” da Organização Mundial de Saúde (OMS). A P1 emergiu em Manaus e é apontada como uma das possíveis causas de reinfecção na Amazônia. A P1 tem 20 mutações, três delas consideradas perigosas.

O CDC americano disse que a P1 traz o medo de o vírus ter começado a desenvolver uma maior capacidade de reinfectar as pessoas. Uma das mutações da P1 é a N501Y, vista também na variante sul-africana e que aumentaria a transmissibilidade. Outra é a E484K, presente na variante P2 e na sul-africana.

O que se sabe sobre a variante P2?

Ela emergiu no Rio de Janeiro e até o momento já se espalhou por São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia, Paraíba, Alagoas e Amazonas. Se propagou ainda por Reino Unido, Canadá, Argentina, Noruega, Irlanda e Cingapura.

No Brasil qual a mutação que mais preocupa neste momento?

Presente na P1 e na P2, a mutação E484K está no centro das atenções de cientistas porque, em tese, permite que o coronavírus escape do ataque dos anticorpos, o que poderia reduzir a eficácia das vacinas. As chamadas mutações de escape são um tipo de alteração que fazem com o vírus literalmente possa fugir do ataque dos anticorpos neutralizantes. Além de permitir reinfecções, ela poderia afetar a eficácia das vacinas.

Como essa mutação faz isso?

Ela altera o chamado domínio RDB, o ponto em que o Sars-CoV-2 se liga às células humanas. O RDB é a região mais crítica da proteína mais importante do coronavírus, a espícula ou S (de spike, em inglês).

Como as vacinas driblariam uma mutação de escape do coronavírus?

As vacinas podem continuar a funcionar porque elas não contêm anticorpos apenas contra o RDB. Porém, os anticorpos tanto da infecção natural quanto da vacina teriam sua eficiência reduzida. Isso pode explicar em parte os muitos casos suspeitos de reinfecção vistos em Manaus e outros lugares.

Essas mutações podem reduzir a eficácia das vacinas?

Em tese, uma mutação pode afetar a resposta tanto dos anticorpos produzidos por uma infecção natural quanto daqueles desenvolvidos em resposta a uma vacina. Porém, como o alvo das vacinas, a proteína S é “grande”, tem outras regiões alvo e as vacinas não perderiam sua eficácia.

O que se sabe sobre as vacinas e as novas variantes?

Todos os desenvolvedores de vacina estão investigando o assunto. O estudo mais significativo foi o ensaio clínico do imunizante da Janssen/J&J (ainda sem previsão de uso no Brasil) porque ele incluiu voluntários mais recentemente, quando essas variantes já estavam em circulação.

Ele mostrou uma redução na eficácia na América Latina e na África do Sul em comparação com os EUA, provavelmente em função das novas variantes. Porém, ainda assim, a eficácia global contra a Covid-19 grave foi de 85%. Isto é, a vacina pode reduzir hospitalização e morte a despeito das variantes.

E das demais vacinas?

A Novavax (também sem previsão para o Brasil), que espera entrar em uso em breve no exterior, se mostrou 85% eficaz contra a variante britânica, mas fracassou contra a sul-africana (menos de 50%) nos testes com voluntários.

E as vacinas já aprovadas para uso?

A Moderna (também sem previsão de chegada no Brasil) e a Pfizer/BioNTech (negociação ainda sem desfecho) disseram que seus imunizantes protegem contra a linhagem britânica. Porém, a Moderna informou que testes indicaram perda de potência contra a sul-africana. A Pfizer disse que não houve perda de eficácia, mas seu estudo foi com apenas 15 pessoas e são necessários mais estudos. A AstraZeneca/Oxford ainda não deu informações sobre variantes e resultados da África do Sul são esperados nos próximos dias.

E a CoronaVac?

O laboratório chinês Sinovac, fabricante da CoronaVac, disse que, em estudos preliminares, a vacina foi eficaz contra as variantes britânica e sul-africana. Mas não forneceu maiores detalhes.

E o que se sabe sobre as variantes brasileiras e as vacinas?

Existem apenas suposições, já que as variantes brasileiras não foram alvo dos estudos dos laboratórios farmacêuticos. Porém, tanto a P1 quanto a P2 têm a mutação E484K presente na variante sul-africana.

E o que está sendo estudado sobre as variantes brasileiras?

Cientistas de 12 laboratórios de universidades, como a UFRJ, a USP e a Unicamp, e centros de pesquisa, a exemplo da Fiocruz, criaram uma frente de investigação, em janeiro sobre a P1 e a P2.

Qual a chance de as vacinas perderem totalmente a eficácia?

É considerada muito pequena. Porém, não se descarta que precisem ser atualizadas, caso o vírus mude significativamente. O Sars-CoV-2 é relativamente estável e sofre menos mutações do que o vírus influenza, cujas alterações frequentes fazem com que os imunizantes tenham que ser “atualizados” e tenhamos que nos vacinar todos os anos.

Quão difícil seria atualizar as vacinas para as novas variantes?

Cientistas não consideram difícil e pode ser feito rapidamente e sem necessidade de grandes testes. Porém, isso depende da vigilância eficiente para a detecção de novas mutações e variantes.

Novas mutações e variantes são as responsáveis pela segunda onda no Brasil e na Europa?

A cientista Carolina Voloch, da UFRJ, autora da mais recente análise sobre a disseminação das variantes no Brasil, diz que não. A culpa do agravamento da pandemia é das autoridades de saúde que não adotaram medidas de contenção. Uma pessoa só se infecta ou reinfecta se for exposta.

Por que é preciso vacinar o mais rapidamente possível o maior número de pessoas?

Porque quanto maior for a proporção de uma população vacinada, menor será o número de pessoas suscetíveis e haverá menos oportunidades para o coronavírus se propagar e mutar, explicam na revista médica Lancet Thomas Williams, da Divisão de Virologia Médica da Universidade de Edimburgo (Escócia), e Wendy Burgers, do Instituto de Doenças Infecciosas da Universidade do Cabo (África do Sul).

Países que vacinarem toda a população estarão a salvo?

Não se o vírus mudar de forma significativa. À medida que as novas variantes se espalham pelo mundo fica evidente que a tragédia dos países menos vacinados, em sua maioria os mais pobres, se tornará global. Quanto mais o vírus se propaga e mais tempo se leva para imunizar as pessoas, mais chance ele tem de adquirir mutações que podem reduzir a eficácia das vacinas.

Isso, em tese, deixaria mesmo as pessoas já vacinadas vulneráveis se os vírus mutantes conseguirem escapar dos anticorpos que elas produziram em resposta a formas anteriores do coronavírus, explicou ao New York Times Andrea Taylor, vice-diretora do Centro Duke de Inovação em Saúde Global, nos EUA. “Ninguém está seguro até que todos estejam protegidos”, disse.

E quando se poderia imaginar que uma parcela significativa da população mundial estará vacinada?

No cenário mais otimista em 2023.

E como conter a pandemia antes da vacinação?

A receita é conhecida: uso de máscara, de medidas de distanciamento e de cuidados de higiene.