Entenda como o setor de agronegócio passou quase ileso pela pandemia

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Farmers in sterile medical masks discuss agricultural issues on a wheat field. Farmers with tablet in the field. Smart farm. Agro business. Covid-19.
Apesar desses motivos econômicos e sazonais serem apontados como os responsáveis pela alta do agronegócio em plena pandemia, há um outro fator que também alavancou o setor: a tecnologia

A pandemia do novo coronavírus paralisou o mundo, assim como o Brasil. Diversos setores viram suas atividades serem interrompidas ao longo de 2020 e no início de 2021, com algumas perdas significativas. No entanto, apesar desse cenário de crise econômica e de saúde, um setor conseguiu passar ileso por todas essas provações: o do agronegócio.

Em 2020, a agropecuária foi o único dos três grandes setores da economia que cresceu. Com serviços e indústria acumulando perdas, o agro, em relação a 2019, teve um avanço de 2%, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil registrou um tombo recorde de 4,1%. As informações são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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“Tivemos interrupções em fábricas, afastamentos, gastos com protocolos de segurança. A gente não pode dizer que passou em branco. Houve aumento de custos”, sinaliza Marcos Fava Neves, diretor técnico da Sociedade Nacional de Agricultura. “Mas, no geral, a imagem do setor melhorou bastante. Afinal, apesar da grave crise, o Brasil tinha produtos, supermercados não se esvaziaram. O brasileiro viu que pode contar com esse setor”.

Entrando em detalhes

Nessa produção recorde, o grande responsável pela arrancada solitária do agronegócio foi a alta produtividade de alguns grãos. A soja teve um salto de produção de 7,1%, enquanto o café registrou ganhos de 24,4%. São produções históricas. Com isso, o Brasil conseguiu registrar uma safra recorde de grãos de 257,8 milhões de toneladas, entre 2019 e 2020.

“Foi um ano histórico para o Brasil no ramo do agronegócio, mostrando ao mundo que somos uma potência que pode, sim, alimentar 1,5 bilhão de pessoas em todo o mundo”, diz Reginaldo Daffé, professor de agronomia e analista econômico. “Apesar da situação ruim em termos de saúde, e até de economia global, as pessoas não podem parar de comer”.

De acordo com especialistas, esses bons resultados podem ser explicados por alguns motivos. Primeiramente, houve um clima favorável em todo o ano, diminuindo as perdas de produtores. Além disso, a demanda externa ficou extremamente aquecida, com receio de desabastecimento por parte de outros países por conta das fronteiras fechadas.

“Vale lembrar que o agronegócio também não teve perdas como comércio e indústria por ter sido considerado como uma atividade essencial. Não parou em momento nenhum”, afirma o professor Ezequiel Silva, especialista em agro. “Além disso, o auxílio emergencial aqueceu a demanda interna; enquanto o dólar alto alavancou os ganhos com exportação”.

Tecnologia no agronegócio

Apesar desses motivos econômicos e sazonais serem apontados como os responsáveis pela alta do agronegócio em plena pandemia, há um outro fator que também alavancou o setor: a tecnologia. O agronegócio, principalmente em grandes empresas, começou um processo intenso de implementação de novas tecnologias em sua cadeia produtiva regular.

Novas formas de acompanhar a saúde de plantações, por exemplo, surgiram a partir de startups. A Smart Agri, por exemplo, percebeu que havia uma grande demanda por automatização no controle de plantações. Acabou criando soluções, baseadas em inteligência artificial, que analisam imagens coletadas por drones e dão indicações.

O serviço deu tão certo que Marcos Ferraz, engenheiro agrônomo e dono da empresa, acabou criando uma segunda marca: a Smart Sensing. Nela, a startup oferece um sensor que faz pulverização localizada de pesticidas nas plantações. “Reduzimos o gasto do fazendeiro e evitamos excesso desse tipo de produto nos alimentos”, disse o executivo.

Para especialistas, inovação é um caminho sem volta. “No campo estão as principais tecnologias. Agora, você pode fazer gestão por metro quadrado, não mais por hectare. Você faz aplicação só onde precisa, para controlar erva daninha, por exemplo. O Brasil está liderando essa área. Será possível uma ação mais eficiente no campo”, diz Marcos Fava.

De olho na sustentabilidade

O único desafio que especialistas apontam que surgiu nesse período é a necessidade de passar uma imagem mais transparente. Afinal, apenas no começo de 2021, o governo federal, por meio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, liberou o uso de mais 67 agrotóxicos, sendo 54 químicos e 13 biológicos para uso em plantações.

Desses produtos liberados, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) diz que sete são “extremamente tóxicos” para a saúde humana. Três, moderadamente tóxicos. Já o Ibama classifica 53 substâncias como perigosas ou muito perigosas para o meio ambiente.

“Já são mais de 967 agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro. Em 2020, o governo federal bateu recorde de substâncias liberadas, com 493 novos ‘agrotóxicos’”, afirma Juliana Mafra, pesquisadora na área com foco em agricultura familiar. “Isso amplifica muito a imagem de que o Brasil usa e abusa dessas substâncias, mal vistas pela população”.

Para ela, em um momento em que o brasileiro está acreditando mais no agronegócio por conta do bom desempenho na pandemia e por não ter havido desabastecimento, as empresas deveriam retribuir com mais transparência. “Seria interessante usar alguma nova tecnologia para acompanhar qual agrotóxico foi usado naquela comida”, finaliza Juliana.