Entenda como será o funeral do Papa Emérito Bento XVI, primeiro a renunciar em seis séculos

Quando morre um Papa, a tradição do Vaticano para funerais é bastante clara e antiga, mas o fato de Bento XVI, cuja morte aos 95 anos foi anunciada neste sábado, ter sido a primeira pessoa a renunciar ao Pontificado em seis séculos deixa os preparativos mais incertos. Os pormenores do velório ainda são desconhecidos, mas a Santa Sé confirmou que o corpo será exposto na Basílica de São Pedro a partir da manhã de segunda-feira para que os fiéis possam se despedir.

O Vaticano anunciou também que o Papa Francisco irá presidir o funeral de seu antecessor, que renunciou ao comando da Igreja Católica em fevereiro de 2013, com uma missa na Praça de São Pedro às 9h30 (5h30 no Brasil) do dia 5 de janeiro, quinta-feira. Será a primeira vez na História milenar da Igreja católica que um Papa em exercício presidirá o funeral de um Pontífice emérito.

Especialistas apontam que os procedimentos devem ser similar aos previstos para funerais papais tradicionais, mas ainda há uma série de incógnitas frente à situação sem precedentes na História moderna. Não se sabe se o alemão Bento, cujo nome de batismo é Joseph Ratzinger, usará as tradicionais vestes vermelhas papais e o pálio — tradicional colarinho de lã branca — ou se os tradicionais nove dias de luto, conhecidos como Novendiale. Também é uma incógnita se líderes internacionais serão convidados ou onde seu corpo será enterrado.

Uma das poucas certezas é que não haverá necessidade de convocar o tradicional conclave, já que não há um vácuo de poder. Logo, os cardeais não vão precisar se reunir no Vaticano para escolher um novo Pontífice, e a chaminé da Capela Sistina não emitirá a tradicional fumaça branca anunciando que há um novo Papa.

— Sob o ponto de vista litúrgico, acho que quando o funeral acontecer, essencialmente será o ritual tradicional seguido em rituais papais — disse à AFP o especialista litúrgico Claudio Magnoli. — A diferença substancial é que será presidido por um Papa, enquanto até agora quem o fazia era o decano dos cardeais ou um cardeal designado (para a tarefa).

As regras para funerais papais são estabelecidas em um guia de 400 páginas chamado "Ritos Funerais do Pontífice de Roma". Por diretrizes nele estabelecidas em 1996, o enterro do chefe da Igreja Católica deve ocorrer entre quatro e seis dias após a sua morte — durante este intervalo, será exposto para os fieis em uma simples estrutura.

O corpo só será posto em um simples caixão de cipestre horas antes da missa, abençoado com água benta, e o rosto do pontífice é coberto com um véu branco. Após a celebração, será envolto em outros dois: o intermediário é de zinco, adornado com uma cruz, o nome do Papa, os anos de seu Papado e seu brasão, e o externo é feito de elmo ou nogueira e fechado com pregos de ouro.

Papas em exercício podem escolher onde serão enterrados: vários optaram por suas paróquias ou igrejas em Roma, mas os restos mortais de 148 dos 266 homens que já presidiram a Igreja Católica estão na Basílica de São Pedro.

Relatos da imprensa em 2020 indicavam que Bento havia escolhido ser enterrado na antiga tumba de João Paulo II, no túmulo de São Pedro. No subterrâneo da Basílica, o local fica em uma área chamada Necrópole Vaticana, onde há diversas sepulturas e mausoléus, inclusive o que a Igreja diz ser relíquias do primeiro Papa, o apóstolo Pedro.

Tradicionalmente, quando um Papa morre, seu anel do pescador — um dos principais símbolos papais, feito especialmente para cada Pontífice e antigamente usado para selar documentos — é destruído, em outro rito da passagem de bastão. Quando Bento deixou o Pontificado em 2013, contudo, a parte de cima do seu anel foi marcada com um X para indicar que não tinha mais poder.

Os nove dias de luto também são incertos, já que servem não apenas para os fiéis prestarem homenagem, mas também para que o conclave possa ser preparado. Segundo vaticanistas, contudo, parte dos procedimentos pode ter sido definido por Bento antes mesmo de sua morte — em 2020, seu biógrafo oficial, Peter Seewald, disse que ele havia escrito um testamento para ser divulgado após a sua morte. A palavra final, contudo, deverá ser de Francisco.

O último funeral papal ocorreu em 2005, quando morreu João Paulo II, cujo Papado havia começado em 1978. Seu corpo foi velado antes de uma missa de três horas na Praça de São Pedro, presidida pelo então cardeal Ratzinger. Acompanhada por uma multidão estimada de 1 milhão de pessoas, foi na época o funeral com maior participação da História.


Os restos mortais do popular religioso polonês, de quem Ratzinger era bastante próximo quando cardeal, foram levados para outra parte da basílica, o Altar de São Sebastião, quando ele foi beatificado em 2011. Em 2014, já no Papado de Francisco, foi declarado santo.

Bento, que por 25 anos chefiou o escritório de doutrinas da Igreja e foi um dos principais porta-vozes do conservadorismo no Vaticano, não era tão popular quanto seu antecessor, mas ainda assim seu velório deve atrair multidões de fiéis e curiosos. A popularidade do sisudo alemão também foi afetada por uma série de escândalos durante seu Papado, principalmente fiscais e de abuso sexual no Vaticano — muitos deles herdados da época de João Paulo II.

Assim que Bento deixou o cargo há nove anos havia temores de que a existência de dois Papas criasse um racha na Igreja, particularmente diante das divergências dogmáticas entre o alemão e o argentino. O latino-americano é mais moderado e vem fazendo uma série de reformas, não raramente recebidas com resistência, em uma das instituições mais antigas do planeta.

Salvo raras exceções, Bento XVI optou por manter-se em silêncio e evitar atritos com seu sucessor. Passou a última década vivendo praticamente em clausura no monastério Mater Ecclesiae, no Vaticano.