Entenda a crise do NFT, que teve queda de 46% após movimentar US$ 17 bilhões em 2021

O mundo mal havia aprendido que NFT é a sigla para “token não fungível” (em inglês, “non fungible token”) e o ano de 2021 lançou o mercado de arte digital às alturas, atraindo atenções para além dos iniciados no universo cripto a partir do leilão da colagem digital “Everydays: The first 5000 days”, do americano Beeple, arrematada por US$ 69,3 milhões na tradicional Christie’s. Desde então, parecia não haver limite para o que poderia ser vendido como um ativo virtual transformado em um item exclusivo graças a uma espécie de rastreamento digital garantido por um sistema de registro de transações, a blockchain.

Colecionáveis, como a série “Bored Apes” (das imagens dos macaquinhos entediados) ou a “CryptoPunks”, chegaram a movimentar mais de US$ 1 bilhão. O NFT do primeiro tuíte do cofundador do Twitter Jack Dorsey foi vendido por US$ 2,9 milhões. Equipes esportivas e marcas correram para lançar seus próprios tokens. Nem os memes escaparam: a imagem que gerou o viral “Disaster girl” foi vendida por US$ 500 mil, assim como o vídeo “original” do YouTube de “Charlie bit my finger”, no qual um bebê morde o dedo do irmão, comprado por US$ 760 mil.

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Estima-se que o mercado de NFT — termo que, não por acaso, foi escolhido como a “palavra do ano” na tradicional eleição promovida pelo dicionário britânico Collins — movimentou globalmente cerca de US$ 17,6 bilhões em 2021. As previsões pareciam ser ainda mais ambiciosas para os meses seguintes. Até que chegou 2022.

Após um pico de 225 mil transações diárias, registradas em setembro de 2021, o montante chegou à média diária de 19 mil transações em maio, numa queda de 92%, segundo o relatório divulgado mês passado pelo site especializado Nonfungible. O portal também apontou outras quedas na comparação entre os primeiros quadrimestres dos últimos dois anos, como o número de vendas (-46%), o número de compradores (-30%) e o número de carteiras ativas (-25%). O citado tuíte de Dorsey tornou-se uma síntese deste momento. Sina Estavi, CEO da empresa de criptoativos Bridge Oracle e comprador do item digital, o colocou à venda em leilão em abril e a maior oferta que recebeu foi de US$ 14 mil, numa desvalorização de 99% em relação à compra original.

Um baque que acendeu o sinal amarelo de que a euforia no segmento poderia ter chegado ao fim. As explicações para a queda vão de questões que afetam o ambiente digital (queda dos bitcoins, número menor de produtores que a demanda dos compradores) até razões que afetam todo o mundo físico, como a tempestade perfeita envolvendo efeitos da pandemia, crise econômica global e guerra na Ucrânia. Analisando o fenômeno, especialistas se dividem entre uma possível crise do formato ou um momento de reestruturação do mercado.

— Era previsível que essa queda fosse acontecer. Havia um movimento especulativo muito forte naquele hype do ano passado, também impulsionado pela entrada de marcas, astros do esporte e da música no segmento — observa Byron Mendes, fundador da Metaverse Agency, focada em arte digital. — Houve uma corrida atrás do que estivesse disponível, como os colecionáveis estilo “Bored Apes” ou trabalhos de quem só entrou no mercado atraído pelos números. Essa queda pode ser positiva a longo prazo, porque vai baixar toda essa espuma e jogar mais luz sobre artistas com produções de qualidade.

Professor da Universidade de Queens, em Ontario, no Canadá, e autor do ensaio “Criptoarte: a metafísica do NFT e a tecnocolonização da autenticidade”, que aponta como o modelo se tornou uma forma cultural definida mais por sua configuração como mercadoria do que seu valor artístico intrínseco, Gabriel Menotti acredita que o ciclo de bolhas e crises seja próprio do meio cripto.

— A maioria dos trabalhos é classificada como criptoarte por usar o NFT como um registro de “posse”, sem realmente se engajar de maneira expressiva com a estrutura do meio. Isso cria uma relação de mercantilização que abre espaço para qualquer coisa ser chamada de criptoarte — observa o pesquisador e curador independente. — Como esse mercado, por ser desregulado e opaco, está pautado por insiders que se beneficiam das bolhas, é natural que a variação esteja mais ligada a este caráter especulativo.

Evento internacional no Rio

Idealizador do NFT.Rio, primeiro evento internacional do país voltado ao segmento, que vai ocupar a Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage entre 30 de junho e 3 de julho, Marcus Menezes acredita que, mesmo em seu momento de pico, o mercado ainda estava longe de atingir o número de colecionadores em potencial para obras em NFT.

— É um setor muito novo, que as pessoas não entendem direito. O boom criou alguns estigmas, como se o NFT fosse um mercado de milionários excêntricos, que pagam milhões em memes. A proposta do evento é justamente popularizar estas obras. Além das expostas na EAV, teremos outras em 300 painéis digitais espalhados pela cidade — adianta Menezes, criador da coleção “CryptoRastas”, citando obras como a do fotógrafo americano Justin Aversano. — Estamos passando por um processo de amadurecimento, como acontece em qualquer mercado. E mesmo que o setor esteja passando por uma queda em geral, a criptoarte segue bem valorizada. Ainda há um mundo a ser explorado por artistas e colecionadores.

Para o presidente da Bolsa de Arte, Jones Bergamin, a incerteza econômica global leva a investimentos em segmentos já consagrados e conhecidos dos colecionadores:

— O NFT ainda é um mercado incipiente, há muitas dúvidas ainda sobre o seu funcionamento. A volatilidade é grande, o que afasta o colecionador tradicional. É algo que pode vingar, mas hoje continua bastante restrito a quem tem familiaridade com o meio dos criptoativos.

CEO da plataforma de arte digital Tropix, Daniel Peres Chor acredita que após a sobrevalorização de alguns ativos digitais no ano passado, o mercado está chegando a um platô mais real. Chor aposta na presença do NFT em eventos físicos, como a feira ArPa, cuja primeira edição será encerrada amanhã , no Pavilhão Pacaembu, em São Paulo. No evento, a Galeria Raquel Arnaud expõe a obra “Contrato social”, de Ding Musa, produzido em parceria com a Tropix.

— Estamos vendo o começo de uma transição entre um momento em que o mercado estava mais ligado aos criptoentusiastas para algo aberto a todo tipo de público — aposta Chor. — A queda nos ativos mais midiáticos está em evidência agora, mas outras aplicações do NFT, como a certificação digital pelas galerias, inclusive de obras físicas, está em plena expansão.

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