Entenda, em cinco pontos, as acusações e suspeitas envolvendo Daniela Carneiro, ministra do Turismo do governo Lula

Nomeada para assumir o Ministério do Turismo no governo Lula (PT), a deputada federal reeleita Daniela Carneiro (União), conhecida também como Daniela do Waguinho, enfrenta uma série de acusações e suspeitas em sua trajetória política pregressa. Parte das supostas irregularidades, como a denúncia do Ministério Público (MP-RJ) que cita a transferência de um carro para sua irmã como contrapartida por contratos na administração pública, envolvem também o marido de Daniela, Wagner dos Santos Carneiro, o Waguinho, atual prefeito de Belford Roxo.

Veja a seguir, em cinco pontos, as principais acusações levantadas contra Daniela Carneiro:

1 - Carro em troca de favorecimento em contratos

Em denúncia apresentada ao Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) em novembro de 2018, o MP caracterizou Waguinho e seu grupo político como uma organização criminosa que teria causado danos superiores a R$ 14 milhões aos cofres da prefeitura de Belford Roxo, através do favorecimento de um grupo de empresários por meio de fraudes em licitações. Segundo a denúncia, um dos empresários que encabeçava o esquema, Jorge Luiz dos Santos Santana, adquiriu um veículo Corolla e o transferiu "em contrapartida" à irmã de Daniela, Djelany Mote de Souza Alves Machado -- que é cunhada do prefeito.

De acordo com o MP, a transferência do veículo tornou "clara a divisão dos valores superfaturados" pelos empresários em contratos com a prefeitura de Belford Roxo, "em proveito próprio e também dos agentes políticos". Embora citada, Daniela não é alvo da denúncia, que mira seu marido, o deputado estadual Marcio Canella (União) e outros integrantes da administração municipal. Parte da denúncia foi desmembrada e enviada à primeira instância, mas as acusações contra Waguinho e Canella seguem em análise pelo 2º Grupo de Câmaras Criminais do TJ-RJ.

A relação de proximidade entre Waguinho e Jorge Luiz dos Santos Santana ficou ainda mais clara na campanha eleitoral de 2018, segundo o MP, quando o prefeito de Belford Roxo recebeu voz de prisão por boca de urna e fugiu do local em um outro carro do empresário, um Toyota Hilux.

2 - Campanha com miliciano

Em sua primeira campanha para deputada federal, em 2018, Daniela atuou lado a lado com o miliciano Juracy Alves Prudêncio, o Jura, condenado a 22 anos de prisão por homicídio. Segundo as sentenças que condenaram Prudêncio, ex-sargento da Polícia Militar entre 2010 e 2014, ele era chefe do Bonde do Jura, uma milícia acusada de uma série de homicídios na Baixada Fluminense.

Jura está preso desde 2009, mas cumpria regime semiaberto em 2018, quando apareceu em fotos entregando santinhos ao lado de Daniela numa passeata na Baixada. Na época, ele havia obtido autorização para sair da cadeia para trabalhar, e ganhou o cargo de Diretor do Departamento de Ordem Urbana na prefeitura de Belford Roxo, sob a gestão de Waguinho. Após o EXTRA revelar, em 2020, que o miliciano havia ganhado o cargo, uma investigação determinada pela Vara de Execuções Penais descobriu que ele saía da cadeia, mas não comparecia na prefeitura e, mesmo assim, "lhe eram atribuídas as horas trabalhadas".

A prefeitura, na época, afirmou que Jura “nunca tomou posse" e que o município “nunca pagou salários".

A mulher de Jura, Giane Prudêncio, atuou como cabo eleitoral de Daniela na campanha de 2022, na qual ela foi reeleita à Câmara como a deputada federal mais votada do Rio. Nas redes sociais, Giane, que está oficialmente nomeada no gabinete do deputado estadual Márcio Canella (União), reiterou em suas redes sociais que fazia campanha tanto para Canella quanto para Daniela.

3 - Reclamação por nepotismo

Em 2017, o MP do Rio ajuizou uma reclamação por nepotismo no Supremo Tribunal Federal (STF) por conta das nomeações de Daniela e de Fabiane dos Santos Carneiro como secretárias municipais em Belford Roxo. As nomeações foram assinadas pelo prefeito, Waguinho, marido de Daniela e irmão de Fabiane.

Daniela, que foi nomeada como secretária de Assistência Social, permaneceu no posto até março de 2018, quando foi exonerada para concorrer a deputada federal.

À época de sua nomeação, a administração municipal de Belford Roxo chegou a ter 38 secretarias.

4 - Uso de cargos comissionados em campanha

Daniela e seu marido, Waguinho, foram alvos de ação do Ministério Público Eleitoral em 2018 por suposto abuso do poder político e econômico na campanha de 2018. A denúncia, que pedia a cassação de Daniela, apontava o uso de nomeações em cargos comissionados na prefeitura de Belford Roxo para promover as campanhas de Daniela e do deputado estadual Márcio Canella.

Segundo o MP Eleitoral, o número de nomeações em secretarias municipais saltou de uma média mensal de 225 para 650 em um período de dois meses às vésperas da eleição. Além disso, servidores que prestaram depoimento ao MP disseram ser coagidos a fazer campanha para Daniela, sob risco de retaliações e até de atrasos em salários caso não colaborassem.

Ao decidir pelo arquivamento da denúncia, em agosto de 2019, o desembargador Cláudio Brandão de Oliveira, relator do caso no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), considerou "incontroverso que inúmeros servidores foram nomeados e exonerados dos cargos e funções em comento", mas argumentou que "a prova nos autos não revela com clareza que tais movimentações tinham cunho eleitoral".

5 - Intimidação de adversários

Na campanha eleitoral de 2022, a candidata a deputada federal Sula do Carmo (Avante), que rivalizava com o grupo político de Waguinho, relatou ter ser agredida por apoiadores de Daniela e de Márcio Canella durante um ato de campanha em Belford Roxo. Vídeos que circularam nas redes sociais mostraram homens armados abordando um grupo durante a caminhada.

Uma das pessoas armadas, identificada por testemunhas, de acordo com reportagem do RJTV, foi o policial militar Fábio Sperendio. Ele atuava como um dos coordenadores de campanha de Daniela e de Márcio Canella, e seguia nomeado, até outubro de 2022, em um cargo comissionado no gabinete do deputado estadual.

Outro lado

Procurados pelo GLOBO, Waguinho e Daniela Carneiro não se manifestaram sobre a denúncia do MP envolvendo a doação de um carro como contrapartida de empresários por contratos em Belford Roxo.

Questionada pelo colunista Bernardo Mello Franco sobre a divulgação de fotos de campanha ao lado de um miliciano, Daniela afirmou ter apoio de Lula, e minimizou o vínculo apresentado com Jura e com sua mulher nas redes sociais: "Na campanha você tira foto com muita gente", declarou.

Waguinho e Daniela já negaram irregularidades nas nomeações de servidores na prefeitura de Belford Roxo. Em relação às acusações de intimidação de adversários nas eleições do ano passado, o prefeito declarou que as assessorias das campanhas "analisaram o caso e tomaram providências".