Entenda em sete passos o rombo na Americanas

Em menos de uma semana, a Americanas trocou de presidente, viu suas ações despencarem na Bolsa e teve que recorrer à Justiça para evitar a execução antecipada de dívidas. E agora pode estar prestes a enfrentar uma batalha judicial com os bancos. Mas o que desencadeou a crise de uma das maiores varejistas do país, que tem como acionistas de referência os bilionários da 3G Capital - Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira?

Na noite da quarta-feira, dia 11 de janeiro, a Americanas informou ter encontrado "inconsistências contábeis" de R$ 20 bilhões nos balanços de 2022 e de anos anteriores. O problema ocorreu com uma operação comum no varejo, chamada de "risco sacado".

Nesse tipo de operação, a companhia pega financiamento com um banco para compra de material de fornecedores. O banco antecipa os recursos para o fornecedor. Na sequência, a varejista quita a dívida com a instituição financeira pagando juros pelo prazo do empréstimo. O problema é que isso não foi devidamente reportado no balanço. O erro pode aumentar o grau de endividamento da companhia e dá margem, de acordo com cláusulas contratuais, à cobrança antecipada de dívidas.

Em agosto, a Americanas anunciou que Sergio Rial assumiria o comando da empresa a partir de janeiro. O nome do executivo atraiu investidores, que apostavam suas fichas de que, sob sua gestão, a companhia pudesse dar uma guinada nos negócios.

Mas, com a descoberta das "inconsistências contábeis" de R$ 20 bilhões praticadas antes de sua chegada, Rial anunciou na noite de quarta-feira, dia 11, que renunciaria ao cargo apenas nove dias depois de assumir. Ele passou a trabalhar como assessor do trio de acionistas de referência da Americanas, os bilionários da 3G Capital, em busca de uma solução para o imbróglio. Também foi anunciada a criação de um comitê independente para averiguar o que causou o erro nos balanços.

No lugar de Rial, assumiu interinamente o diretor de Recursos Humanos, João Guerra. Segundo a Americanas, o executivo não estava envolvido anteriormente na gestão contábil ou financeira da empresa.

Com informações tornadas públicas na noite de quarta-feira, as ações da Americanas desabaram 77,3% no pregão de quinta-feira e fecharam a R$ 2,72. Foi a maior queda já registrada por uma empresa no Ibovespa, índice de referência dos investidores, desde 1994, segundo o Valor Data.

Investidores começaram a cobrar que a empresa passe por uma capitalização. Isso poderia feito por meio de uma oferta subsequente de ações (follow-on), com garantia de compra dos papéis a ser dada pelo trio da 3G, que tem fatia de 31,13% no negócio. A questão é definir qual seria o tamanho do aporte considerado satisfatório para acionistas e credores.

Na sexta-feira, a Americanas surpreendeu o mercado e credores ao obter uma medida de tutela de urgência cautelar que, na prática, impede a execução antecipada de dívidas por 30 dias. Nos argumentos apresentados à Justiça, a varejista afirma que as "inconsistências contábeis" poderiam alterar seu grau de endividamento e acarretar o vencimento antecipado de R$ 40 bilhões em dívidas.

No pedido apresentado ao Tribunal de Justiça do Rio, a Americanas afirma contar com 146 mil acionistas e mais de cem mil empregos diretos e indiretos. Ao fim do período de proteção dado pela Justiça, a empresa tem a opção de entrar com um pedido de recuperação judicial ou a decisão perde a eficácia.

Na sexta-feira, as ações da empresa fecharam em alta de mais de 15% após a derrocada da véspera.

Em um sinal do descontentamento dos credores com a medida cautelar, o BTG Pactual subiu o tom contra os acionistas da Americanas e entrou com recurso para derrubar a decisão. Como o pedido foi apresentado no fim de semana, a decisão foi que o caso não se enquadraria entre os que pedem decisão do plantão judiciário.

A medida cautelar dá proteção à empresa mesmo sem a existência de um pedido de recuperação judicial. O BTG argumentou que a decisão distorce os limites da recuperação judicial por conceder proteção legal a uma empresa que teria, na avaliação do banco, fraudado o mercado de crédito.

O outro ponto citado pelo BTG é que a decisão cautelar obrigou o banco a estornar à varejista R$ 1,2 bilhão. Ou seja, além de blindar a empresa de execuções antecipadas de dívida após a decisão, ela fez com que vencimentos antecipados e compensações feitas a partir do dia 11, quando a empresa informou sobre as inconsistências contábeis, fossem devolvidos.

A medida cautelar obtida pela Americanas na Justiça azedou o humor dos bancos credores e a expectativa é que iniciem uma batalha judicial para liberar a cobrança antecipada de dívidas.

Os bancos estariam dispostos a negociar um acordo, mas querem que os principais acionistas injetem recursos na empresa por meio de uma capitalização. O debate agora é sobre os valores. Até o fim da semana passada, Rial teria citado a cifra de R$ 6 bilhões em conversa com os credores. Mas o valor é considerado insuficiente.

A Americanas tem informado que no momento não pensa em recuperação judicial e que busca um acordo com os credores que seja considerado benéfico para todas as partes. Uma das possibilidades é que a empresa consiga chegar a um consenso com os bancos, os principais credores. A Americanas pretende apontar em breve uma equipe de negociação.

Caso não se mostre viável chegar a um acordo, o caminho possível seria partir para uma recuperação judicial ou extrajudicial. Se optar pela recuperação judicial, a companhia teria execuções de dívidas suspensas por mais tempo e teria que elaborar um plano de recuperação.