Entenda as investigações que levaram à prisão do prefeito Marcelo Crivella

O Globo
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Brenno Carvalho / Agência O Globo

RIO - As investigações que culminaram com a prisão do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) na manhã desta terça-feira começaram há cerca de um ano atrás com base na colaboração premiada do doleiro Sérgio Mizrahy, preso pela operação Câmbio, Desligo, de 2018.

Homologada pelo Tribunal de Justiça do Rio, a delação de Mizrahy apontou o empresário Rafael Alves, irmão do então presidente da Riotur, Marcelo Alves, como o operador de um suposto esquema de pagamento de propina na Prefeitura do Rio.

Na delação, Mizrahy afirmou que Rafael Alves tornou-se um dos homens de confiança de Crivella por ajudá-lo a viabilizar a doação de recursos de empresas e pessoas físicas na campanha de 2016. Depois da eleição, o empresário emplacou o irmão na Riotur e, segundo o doleiro, montou um “QG da propina” na prefeitura mesmo sem ocupar cargo.

Com base na colaboração premiada de Mizrahy, o Ministério Público estadual (MP-RJ) abriu um procedimento para investigar a denúncia da criação de um balcão de negócios na prefeitura do Rio para a liberação de verbas a empresas mediante pagamento de propina.

O procedimento chegou a ser suspenso, quando o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, determinou a paralisação de mais de 900 investigações pelo país que utilizaram dados do antigo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), atual Unidade de Inteligência Financeira. Por citar Crivella, o procedimento está a cargo do Grupo de Atribuição Originária Criminal do MP-RJ, estrutura que age por delegação do procurador-geral de Justiça, Eduardo Gussem, para apuração de casos envolvendo pessoas com foro especial junto ao Tribunal de Justiça.

Buscas e apreensões

Em março deste ano, equipes do Ministério Público estadual e da Polícia Civil cumpriram mandados de busca e apreensão no âmbito das investigações que apuram a existência do "QG da propina". Entre os 17 alvos da operação, estão a sede da Riotur, na Barra da Tijuca, e as residências do presidente da entidade, Marcelo Alves, e de seu irmão, Rafael Alves.

Já em setembro, a casa e o gabinete de Crivella foram alvos de uma outra operação, batizada como Hades. O celular de Crivella foi apreendido. Equipes também foram a endereços ligados ao ex-senador Eduardo Lopes, ao empresário Rafael Alves e a Mauro Macedo, ex-tesoureiro da campanha de Crivella ao Senado. Todos alvos de mandados de prisão nesta terça-feira.

Na primeira fase do inquérito, marcada pelo cumprimento de 17 mandados de busca e apreensão no dia 10 de março, as investigações teriam encontrado na casa do empresário João Alberto Felippo Barreto, o João da Locanty, um dos empresários que seriam favorecidos pelo “QG”, documentos - planilhas de recebíveis, principalmente - das empresas de serviços com contratos com a prefeitura municipal, mas que o empresário insiste em dizer que não é sócio.

João da Locanty, do ramo de limpeza, conservação e coleta de lixo, teria montado uma rede de empresas em nome dos laranjas para esconder a condição de dono oculto das prestadoras de serviço favorecidas com os pagamentos sistemáticos. Para garantir os desembolsos da prefeitura, João pagaria as propinas em cheque, entregues a Rafael Mizrtahy.

Para comprovar o seu depoimento, o doleiro relatou episódios ocorridos nos dias 10 e 11 de maio do ano passado, logo após sua prisão. Diz que dois funcionários da Riotur, empresa comandada pelo irmão de Rafael, estiveram naqueles dois dias na casa de Mizrahy para “resgatar” com a sua mulher cheques destinados ao pagamento de propina da Locanty. O doleiro os chama de Johny e Thiago no depoimento.

Mizrahy não detalha na delação o destino do dinheiro que diz ter repassado para Alves nem se Crivella teria conhecimento do “QG da propina” descrito pelo delator. A investigação, contudo, já tem em mãos fotos que mostram a proximidade dos dois e a influência de Alves no dia a dia do município.

Além de Crivella, também foram presos nesta terça-ferisa empresário Rafael Alves (suspeito de ser o chefe do esquema de propinas e irmão de Marcelo Alves, ex-presidente da RioTur), Mauro Macedo (ex -tesoureiro da campanha de Crivella) e o ex-vereador Fernando Moraes (também ex-delegado).