Entenda o desafio do Rio em comportar mais dois estádios

Ter uma arena para chamar de sua virou o sonho dos principais clubes do país nos últimos anos. Paulistas e gaúchos aproveitaram as oportunidades da Copa de 2014 para erguer ou remodelar as que já tinham. Em Minas, o Atlético faz contagem regressiva para inaugurar a sua. No Rio, o movimento nunca ultrapassou a barreira das intenções. Ao menos até agora, quando voltou a ganhar força no Flamengo, em meio à disputa com o Vasco pelo Maracanã; e no Botafogo, onde John Textor sonha tirar o time do Nilton Santos. Argumentos não faltam aos clubes. Mas a cidade suportaria novos empreendimentos deste porte? E onde?

O GLOBO ouviu urbanistas para saber como veem a possibilidade da Região Metropolitana receber até dois novos estádios. As análises convergem para o alerta de que a escolha do local para receber uma arena precisa atender não só às necessidades dos clubes, mas também do próprio Rio de Janeiro.

— É importante que seja inserido numa condição adequada, que seja útil para qualificar aquele lugar. Quando colocam um estádio solto, com grandes áreas abertas no entorno, na verdade ele cria um vazio que só faz sentido no dia do jogo. Nos outros dias a região fica um abandono, até hostil — opina Sérgio Magalhães, ex-presidente nacional do Instituto dos Arquitetos do Brasil e professor de pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ.

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Neste sentido, o projeto de levar um estádio para a Barra da Tijuca — o mais em alta no Flamengo — é visto com maus olhos. Duas áreas são visadas pelo clube na região: uma no Parque Olímpico, tema de conversa do presidente Rodolfo Landim com o prefeito Eduardo Paes, e outra onde funcionava o Terra Encantada, na Avenida Ayrton Senna. Ambas esbarram no gargalo do acesso.

Professor do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ e do Instituto Planett, Ronaldo Balassiano explica que construções como estádios, geradores de grandes deslocamentos, precisam contar com mais de um meio de transporte. O Maracanã, considerado um exemplo positivo, fica próximo a estações de metrô e de trem, além de ser acessado por ônibus e carros.

Tanto no Parque Olímpico quanto no terreno da Ayrton Senna não há transporte sob trilhos. Apenas o rodoviário e um longo histórico de congestionamentos.

— Você vai criar ainda mais fluxo numa área que é sobrecarregada de carros. A mobilidade por transporte público (ônibus e BRT) na região da Barra já é sobrecarregada — critica o engenheiro.

Do ponto de vista do planejamento urbano, sair do eixo Tijuca—Zona Sul—Barra é o ideal. Tanto por fugir de uma área já saturada e que não dispõe mais de terrenos com acessibilidade, quanto pela possibilidade de os estádios servirem como catalisadores do desenvolvimento de locais que recebem menos investimento público. No encontro com Landim, Paes sugeriu que o Flamengo avaliasse erguer sua arena em Deodoro.

— A prefeitura criou uma polarização na Olimpíada, com Deodoro (e Barra), e talvez seja interessante reforçar isso. A estação de trem está num ramal potente, que vem da Central do Brasil. O importante é estar próximo a sistemas de transportes de massa — afirma Pedro da Luz Moreira, professor da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF.

Esta equação, contudo, inclui fatores que vão além do planejamento urbano. Acostumado a desenvolver projetos de estádios, um arquiteto ouvido pelo GLOBO e que não quis ser identificado explica que as áreas mais afastadas de onde vive o público com maior poder aquisitivo costumam ser um entrave para fazer as arenas serem lucrativas. A lógica é de que camarotes e espaços mais caros custeiam setores populares sem geração de prejuízo.

Outra preocupação é com possível abandono das arenas já existentes. Em relação ao Nilton Santos, há o consenso de que, não sendo a casa de nenhum clube, e se tornaria um “elefante branco”.

Com o Maracanã, o risco de ociosidade é improvável. Assim como os outros clubes, o Flamengo seguiria levando seus jogos de maior apelo para lá, já que seu eventual novo estádio não rivalizaria em tamanho com o antigo “Maior do mundo”, hoje com capacidade máxima de 78 mil pessoas.

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