Entenda o movimento do PSB que pode mudar as eleições de 2022

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Na última terça-feira, Flávio Dino e Marcelo Freixo se filiaram ao PSB (Foto: Reprodução)
Na última terça-feira, Flávio Dino e Marcelo Freixo se filiaram ao PSB (Foto: Reprodução)

Em busca de construir uma esquerda mais viável, o PSB (Partido Socialista Brasileiro) está fortalecendo seu quadro, de olho nas eleições de 2022. Na última terça-feira (22), a legenda teve um evento para anunciar dois novos correligionários, já muito conhecidos no cenário político da esquerda: Marcelo Freixo, deputado federal, e Flávio Dino, governador do Maranhão.

Ambos deixaram os partidos em que estavam depois de mais de 15 anos. Freixo integrava o PSOL, enquanto Dino era filiado ao PCdoB. As duas legendas são consideradas mais à esquerda que o PSB no espectro ideológico.

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Na ocasião, Dino e Freixo falaram na necessidade de união e na missão de combater diretamente o presidente Jair Bolsonaro. O deputado federal ressaltou que a eleição de 2022 será a mais importante da história do Brasil, porque pode ser a última. Além disso, deixou claro que pretende alçar voos mais altos do que uma reeleição à Câmara. A expectativa é que ele concorra ao governo do estado do Rio de Janeiro.

"Eu poderia, perfeitamente, ser candidato a deputado federal junto com o [Alessandro] Molon e fazer uma bancada forte, ter essa vida que a gente gosta, do parlamento. A gente está indo para um desafio que é gigante, que é lutar contra o crime organizado no Rio de Janeiro. A luta no Rio de Janeiro não é da esquerda contra a direita, a luta do Rio de Janeiro é civilização contra a barbárie, é contra o crime organizado, que vem arrancando do Rio de Janeiro a capacidade de ser um lugar feliz."

Dino, por sua vez, ressaltou os valores da democracia e da liberdade. “Essa eleição de 2022 não é uma qualquer, não é uma a mais, porque é uma batalha fundamental em torno de tudo que nós conseguimos concretizar”, disse o governador maranhense. “A eleição de 2022 é um plebiscito entre aqueles que querem a continuidade da democracia, com o povo, e um projeto de extermínio nacional e popular. Nós não podemos cometer erros.”

Segundo Carlos Siqueira, presidente nacional do PSB, a filiação de Flávio Dino e de Marcelo Freixo é “um reforço importante ao partido na oposição ao governo de Jair Bolsonaro e à luta democrática”, com a dimensão que representam”. Ele destacou que o mais importante é derrotar o presidente Bolsonaro e defender a democracia.

“A prioridade do momento é a construção dessa frente ampla [contra Bolsonaro], ter a oposição o mais dura possível a esse governo no Parlamento. E isso depende da nossa compreensão de que não podemos fazer isso só com a esquerda, precisamos de todos que defendem a democracia”, afirmou Siqueira.

Para a cientista política Deysi Cioccari, doutora pela Casper Líbero, o PSB está trabalhando pela construção de uma frente ampla – algo que o PT não fez até o momento. “O PSB está fazendo o que a esquerda de Lula deveria ter feito: planejando uma frente ampla organizada e injetando ânimo em que não concorda com o atual governo”, apontou.

Na visão de Cioccari, o movimento do PSB tem sido o mais organizado na intenção de criar a tão esperada “terceira via”. “Flávio Dino não é um personagem político que deve ser menosprezado: ele realizou a proeza de acabar com a dinastia Sarney no Maranhão. Freixo tem sido um antagonista de peso do atual governo. Até agora tem sido o movimento mais organizado para o surgimento de uma terceira via no sentido de abrir o debate.”

A legenda, por ser associada à esquerda, conta com o apoio do Partido dos Trabalhadores. Há a expectativa de que Lula faça uma aliança para apoiar Freixo na corrida ao governo do Rio. A “vantagem” do PSB sobre o PT, segundo a cientista política, é que não há a “mácula da Lava Jato”. Em 2018, a justificativa da corrupção pesou para que muitos eleitores “indecisos” optassem por não votar em Fernando Haddad.

Cioccari acredita que o movimento de Freixo e Dino tenha como objetivo criar uma esquerda mais conciliadora, capaz de ampliar diálogos.

No evento de filiação estavam presentes outros nomes fortes do partido, como o deputado federal Alessandro Molon, o ex-governador de São Paulo Márcio França, e o prefeito de Recife, João Campos.

Fator Ciro Gomes

Ciro Gomes é peça importante no cenário político de 2022 (Foto: Reprodução)
Ciro Gomes é peça importante no cenário político de 2022 (Foto: Reprodução)

Além do PSB, há outro partido que tenta ganhar o espaço da tão chamada “terceira via”: o PDT, de Ciro Gomes. Pré-candidato à presidência da República, nesta semana, o político busca se fortalecer no cenário nacional e contratou o marqueteiro João Santana, que já trabalhou para o PT.

Nesta semana, Ciro Gomes publicou nas redes sociais um vídeo com a Bíblia em uma mão e a Constituição Federal na outra, em uma tentativa de chamar a atenção do eleitor religioso. No vídeo, ele diz que “os dois livros não são conflitantes”.

“Ciro não é alguém que pode ser descartado dos diálogos”, atentou Deysi Cioccari. “Algumas lideranças do PSB já deixaram claro que não se fecham para conversas com ele. Dino já disse que vai se encontrar com o presidente do PDT”, lembra.

No entanto, caso os diálogos não progridam, há a possibilidade de os votos da esquerda se dividirem ainda mais.

O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, no entanto, criticou a ida de Flávio Dino e de Marcelo Freixo para o PSB. Para ele, as mudanças partidárias indicam uma tentativa do ex-presidente Lula de “tomar o PSB por dentro”.

“Lula trabalha para tomar o PSB por dentro, fazer do PCdoB um satélite petista e tirar o PSOL. Isso faz parte da artimanha, da sabedoria política dele”, afirmou Lupi, em entrevista recente.

“Fizemos todas as declarações de amor possíveis, apoiamos o PSB em todos os lugares que nos pediram em 2020. Em Recife, numa eleição apertada, nosso apoio foi decisivo para a vitória do João Campos contra o PT. Continuo dialogando, mas é aquele amor complicado. Pisca para um, mas faz o outro acreditar que tem condição. Só que não posso prever como vai chocar o ovo da serpente, que se chama Lula. Não sei qual será a capacidade dele de convencer o PSB a comprar terreno no céu”, disse.

Disputas regionais interferem na aliança nacional

Dentro desse projeto de vencer a eleição presidencial de 2022, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, avalia que é importante vencer as eleições ao governo de estados-chave, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo - estados mais populosos do Brasil.

Por isso, as novas filiações são importantes também para reforçar os quadros regionais.

Rio de Janeiro 

No Rio de Janeiro, o deputado Marcelo Freixo deve ser o candidato a governador, com apoio da esquerda, mas que pode agregar também partidos de centro. “Vamos construir uma grande frente”, afirmou.

Ele tem dialogado com Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, que recentemente se filiou ao PSD. No entanto, Paes acredita que Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), pode ser o nome de consenso da frente, pois agradaria o centro e parte da esquerda.

Santa Cruz deve se filiar ao PSD no início de 2022, quando acaba seu mandato na OAB.

Mas aliados defendem que Santa Cruz não é um nome conhecido, e que Freixo teria mais chance de vitória.

São Paulo

Márcio França ficou em terceiro lugar no primeiro turno em São Paulo (Foto: Reprodução/TV Cultura)
Márcio França ficou em terceiro lugar no primeiro turno em São Paulo (Foto: Reprodução/TV Cultura)

O jogo em São Paulo está mais disputado. Fernando Haddad (PT), Guilherme Boulos (PSOL) e Márcio França (PSB) lançaram a pré-candidatura ao governo do estado e buscam agregar os partidos de esquerda, além de apoio de legendas de centro.

França conversa com Geraldo Alckmin, ex-governador do estado, de quem foi vice. O tucano pode deixar o PSDB, que deve apoiar a candidatura do atual vice-governador Rodrigo Garcia. A filiação de Alckmin ao PSB não é totalmente descartada. Os dois lideram atualmente as pesquisas de intenção de voto e estudam repetir a dobradinha.

Mas, França teria declarado que a candidatura vai depender da orientação nacional do PSB, que é cortejado pelo PT e pelo PDT, que não tem palanque em São Paulo.

O ex-governador paulista chegou a participar de uma reunião com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, onde foi aventada uma possibilidade dele integrar a chapa presidencial.

Apesar do discurso de busca pela unidade da esquerda em São Paulo, Haddad e Boulos têm trabalhado separadamente para viabilizar suas candidaturas e geram dúvidas sobre a possibilidade de frente única..

Minas Gerais

O PSB não tem um nome forte em Minas Gerais. Eleito pelo PSB, o atual prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), é uma peça importante na disputa nacional. Ele já declarou que quer disputar o governo do estado. Nesse caso, contaria com o apoio do PSB, que, em troca, espera conseguir o apoio do PSD no Rio de Janeiro.

No entanto, o presidente do partido, Gilberto Kassab, avalia lançar um nome próprio ao Planalto e cogitou a candidatura de Kalil.

Por outro lado, Lula e o PT já convidaram o prefeito de Belo Horizonte para ser vice em uma chapa às eleições presidenciais. Kalil teria negado a possibilidade.

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